
Quem acompanha mais atentamente os passos das Igrejas cristãs, na América Latina, inclusive no Brasil especialmente nas últimas décadas, não cessa de se espantar com seus escandalosos sinais de distanciamento da tradição de Jesus. Ressalvadas as exceções, constatamos crescente involução. Mesmo parte considerável das Igrejas reformadas históricas – e não apenas as pós- pentecostais (protestantes ou católicas) – parecem aderir, cada vez mais, à idolatria do Mercado, deste fazendo sua religião, ainda que insistam por palavras, em sua identidade cristã.
Nestas breves linhas que seguem, limitamo-nos a tangenciar alguns poucos elementos mais pronunciados desta situação desafiante. Um primeiro aspecto comum a essas Igrejas Cristãs tem a ver com seu empenho em centrar sua atenção, não tanto ou não mais no cerne programático do evangelho – o serviço à causa libertadora dos oprimidos (os pobres, as mulheres, os famintos, os doentes, os encarcerados, os migrantes, o povo da rua, as vítimas de todo tipo de perseguição – aporofobia, misoginia, racismo, homofobia, xenofobia seletiva, entre outros preconceitos), mas em priorizar iniciativas e atividades visando aos seus próprios interesses institucionais. Daí a multiplicação de projetos e iniciativas de arrecadação de valores, não se contendo em constranger seus fieis em contribuírem, com valores e com serviços cada vez mais exigentes dizendo fazerem sempre “em nome de Jesus”…
Outro aspecto comum prende-se a uma crescente superestimação de tradições litúrgicas e cultuais mais inspiradas nos valores da tradição imperial romana e de outras similares, de modo a secundarizar ou mesmo anular objetivamente os valores da grande Tradição de Jesus: o amor aos pobres, aos perseguidos, aos presos, a partilham a simplicidade de vidam a misericórdia, a compaixão. Em vez disso, demonstram atitudes comodistas, de priorização de uma estética burguesa e elitista observável, inclusive, nos cultos e liturgias (paramentos e objetos sacros luxuosos…), intermináveis e caras reformas de prédios e de instalações.
Ainda um terceiro aspecto comum tem a ver com uma tendência a crescente partidarização, e investimento nas atividades ao interno dos espaços do Estado, por meio da criação de frentes ou de bancadas parlamentares ditas “evangélicas”, ou “cristãs”, em preocupante desrespeito ao caráter laico do Estado brasileiro, acenando para um Estado teocrático…
Consola-nos, por outro lado, perceber o que vem acontecendo nas “correntezas subterrâneas”, onde graças à divina Ruah, diversos grupos e movimentos ecumênicos seguem ensaiando, a margem dos espaços eclesiásticos hegemônicos, passos de experiências grávidas da Boa Nova do Reino de Deus. Limitamo-nos a destacar apenas algumas dessas Experiências grávidas do novo: o CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – https://cebi.org.br/), https://www.movimentodeemaus.
É confortante saber que tantas outras experiências estão se passando no Brasil, na América Latina e no mundo que ajudam a dar razão a nossa Esperança.
João Pessoa, 28 de outubro de 2025.
