
Biblioteca do Congresso, via Wikimedia Commons
Assassinato de civis desarmados por tropas dos EUA e revelação do caso à imprensa transformou episódio em um dos maiores escândalos do conflito.
Estevam Silva / Opera Mundi – Pensar a História / São Paulo, 16 de março de 2026, às 14:03
Há 58 anos, em 16 de março de 1968, soldados do Exército dos Estados Unidos cometiam uma das atrocidades mais hediondas da Guerra do Vietnã.
Sob a falsa premissa de que o povoado estaria servindo de reduto a guerrilheiros vietcongues, os militares norte-americanos torturaram, estupraram e assassinaram quase toda a população do vilarejo, composta quase inteiramente por mulheres e crianças.
O ataque resultou na morte de 504 civis desarmados. O massacre só foi interrompido graças à intervenção de um piloto norte-americano, enojado pela ação de seus compatriotas.
A revelação pública do massacre ocorreu apenas em 1969, quando o jornalista Seymour Hersh expôs os acontecimentos à imprensa internacional.
My Lai
My Lai era um pequeno povoado pertencente à aldeia de Son My, na província de Quang Ngai, no Vietnã do Sul. Habitado por camponeses, trabalhadores rurais e pequenos comerciantes, o povoado sofreu a alteração de seu perfil demográfico após a eclosão da Guerra do Vietnã.
A população masculina, convocada a servir nas forças armadas, deixou o vilarejo. A população remanescente consistia quase inteiramente de mulheres, crianças, idosos e pessoas dispensadas da conscrição por enfermidades ou restrições físicas.
O povoado não abrigava nenhum tipo de atividade militar ou construção de importância estratégica. Mesmo assim, tornou-se alvo de uma das mais tétricas operações militares conduzidas pelos Estados Unidos.
Em janeiro de 1968, teve início a Ofensiva do Tet, uma investida militar contra as tropas norte-americanas e sul-vietnamitas, lançada pelo Exército do Vietnã do Norte e pela Frente Nacional para a Libertação do Vietnã — movimento guerrilheiro que lutava pela unificação do país sob um governo socialista.
Visando escapar do encalço dos norte-americanos, os combatentes da Frente Nacional (alcunhados “vietcongues”) buscaram refúgio nas aldeias de Quang Ngai. O comando militar dos Estados Unidos passou a desconfiar que My Lai estaria servindo de abrigo para os guerrilheiros e que a população local estaria ajudando os combatentes. Incumbiu então uma força tarefa liderada pelo tenente-coronel Frank Barker de planejar uma incursão ao povoado.
O massacre
A missão foi comandada pelo capitão Ernest Medina e pelo tenente William Calley. Os soldados selecionados para a missão foram informados que encontrariam no vilarejo somente “vietcongues e simpatizantes de comunistas”.
O coronel Frank Barker instruiu os subordinados a destruírem o povoado por completo, queimando as casas e plantações, matando o gado e envenenando os reservatórios de água. Calley foi adiante e orientou aos soldados que fizessem um assassinato em massa. “A ordem era pra matar tudo que se mexesse”, confidenciou anos depois um dos soldados que participou da ação.
Na manhã do dia 16 de março de 1968, um pelotão com 120 soldados alocados na Companhia Charlie, uma unidade do 1º Batalhão, 20º Regimento de Infantaria do Exército dos Estados Unidos, aterrissou com seus helicópteros em My Lai.
Os soldados não encontraram nenhum guerrilheiro na aldeia, mas isso não impediu que descarregassem todo o seu ódio sobre os moradores, das maneiras mais sádicas que puderam conceber. Primeiro, incendiaram as casas, em alguns casos trancando as famílias dentro das residências. Em seguida, partiram para uma longa sessão de estupros, torturas e execuções.
Dezenas de mulheres e crianças foram violentadas, mutiladas e executadas com tiros na cabeça. Idosos foram feridos com objetos cortantes e deixados para sangrar até a morte. Nem mesmo bebês foram poupados, sendo perfurados com baionetas.
Os soldados reuniram um grupo de oitenta aldeões, levando-os para uma vala próxima e fuzilando-os em seguida. Depois, abriram fogo contra um grupo de vinte mulheres e crianças que se abrigavam dentro de um templo. Os norte-americanos percorreram o vilarejo inspecionando casa a casa, visando garantir que nenhum habitante escapasse ileso.
O massacre se prolongou por quatro horas, resultando na morte de 504 civis. Deste total, 182 eram mulheres (17 das quais estavam grávidas) e 173 eram crianças. Somente 20 civis sobreviveram à matança, alguns fingindo-se de mortos junto às pilhas de cadáveres. “Matavam as pessoas sem sentir nada. Quando os corpos tombavam no chão, eles riam”, relembrou Pham Thanh Cong, um dos sobreviventes da chacina, à agência de notícias DPA.
Os norte-americanos seguiram com o assassinato em massa até serem interrompidos por Hugh Thompson, piloto de um helicóptero de observação. Enojado pela ação de seus compatriotas, Thompson aterrissou sua aeronave entre os militares e um grupo de civis que tentavam fugir.
Desobedecendo as ordens do superior Calley, Thompson orientou a tripulação do helicóptero a abrir fogo contra os soldados que se recusassem a cessar os ataques. Em seguida, recolheu alguns sobreviventes na aeronave e alertou aos superiores sobre o ocorrido. Ao retornar para a unidade, Thompson confidenciou ao capitão Barry Lloyd que acreditava que a infantaria norte-americana “não se diferencia em nada dos nazistas”.
Mulheres e crianças de My Lai, pouco antes de serem massacradas por soldados norte-americanos. Fotografia de Ronald L. Haeberle. | Biblioteca do Congresso, via Wikimedia Commons
Denúncia e reações
O governo dos Estados Unidos acobertou o massacre por quase dois anos. Os relatórios produzidos pelo Pentágono afirmavam que a operação havia sido um “sucesso”, atribuindo a morte de “128 vietcongues e 22 civis” a um “intenso tiroteio”.
O general do exército, William Westmoreland, parabenizou a Companhia Charlie pelo “excelente trabalho”. A revista “Stars and Stripes” também celebrou a chacina, saudando a infantaria norte-americana pelo “êxito” de “matar 128 comunistas em um único dia”.
Alguns soldados que testemunharam a ação tentaram denunciar o massacre, mas foram ignorados. Colin Powell, então major do exército, minimizou as críticas à ação dos militares e rotulou as denúncias como “fantasiosas”.
O Massacre de My Lai somente veio a público quando o repórter investigativo Seymour Hersh divulgou as imagens da chacina produzidas por Ronald Haeberle, fotógrafo militar do batalhão. A denúncia, publicada pela agência Dispatch News em novembro de 1969, foi replicada por mais de 30 jornais e revistas. Os relatos das testemunhas e as imagens dos civis trucidados chocaram o público e a comunidade internacional.
Sob pressão, o Pentágono estabeleceu uma corte marcial para investigar o massacre e produziu uma lista com 30 militares que participaram das atrocidades. Desses, apenas 14 foram formalmente acusados pelos crimes. Todos foram absolvidos pela corte marcial, com exceção do tenente William Calley, que comandou diretamente o massacre.
Calley foi sentenciado à prisão perpétua, mas apenas dois dias após a condenação recebeu o perdão do presidente Richard Nixon e acabou cumprindo uma pena alternativa de três anos de prisão domiciliar.
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