Homem-forte de Eduardo Paes é testemunha de defesa de milícia no Rio, denuncia deputado

Relações obscuras: secretário do Rio Rodrigo Bethlem (PMDB) e o ex-vereador miliciano Cristinao Girão (PMN)
Relações obscuras: secretário do Rio Rodrigo Bethlem (PMDB) e o ex-vereador miliciano Cristinao Girão (PMN)
Relações obscuras: secretário do Rio Rodrigo Bethlem (PMDB) e o ex-vereador miliciano Cristinao Girão (PMN)

Na última terça-feira (18/10), ocorreria no Rio de Janeiro um importante julgamento de parte das poderosas milícias que atuam no Estado. Entre os nomes, estavam um ex-deputado e um ex-vereador, indiciados pela CPI das Milícias e presos posteriormente.

O ex-deputado Natalino José Guimarães; seu irmão, o ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho; o ex-PM Luciano Guinancio Guimarães; e Leandro Paixão Viegas, o ‘Leandrinho Quebra-Ossos’, respondem pela tentativa de homicídio do ex-cobrador de van Marcelo Eduardo dos Santos Lopes, que denunciou o grupo em 2005. Eles são acusados de integrar a milícia intitulada ‘Liga da Justiça’ – que atua na Zona Oeste do Rio e, em outros tempos, era considerada uma ‘solução’ para a pacificação da região pelo atual prefeito Eduardo Paes.

Os acusados, informou a imprensa esta semana, foram trazidos do presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para a 4ª Vara Criminal do IV Tribunal do Júri. A audiência, prevista para começar às 10 horas, teve início somente ao meio-dia. Tanto os promotores quanto a defensora Bernardett de Lourdes da Cruz Rodrigues pediram o adiamento da sessão, já que testemunhas consideradas importantes faltaram.

A defesa solicitava, principalmente, a presença do secretário municipal de Assistência Social, Rodrigo Bethlem. Na época, Bethlem e Jerominho estariam em um evento político na Zona Oeste, na hora do crime.

Bethlem, ‘homem forte’ do prefeito Eduardo Paes, denunciou o ex-presidente da CPI das Milícias, é testemunha de defesa dos milicianos.

Marcelo Freixo questiona: Por que Rodrigo Bethlem é testemunha de defesa de grupos paramilitares no Rio de Janeiro?
Marcelo Freixo questiona: Por que Rodrigo Bethlem é testemunha de defesa de grupos paramilitares no Rio de Janeiro?

“Por que o Sr. Rodrigo Bethlem é testemunha de defesa dessa máfia que está colocada no Rio de Janeiro? Porque essa máfia tem tentáculos políticos e são políticos ainda atuantes dentro do Poder público. (…) Quando interrogamos aqui o Sr. Cristiano Girão, esse facínora que está preso e foi vereador do Rio de Janeiro, ele mesmo disse que já tinha ocupado um cargo importante no Governo Rosinha, colocado lá pelo Sr. Rodrigo Bethlem. Essas relações são antigas e precisam ser investigadas”, afirmou o deputado estadual Marcelo Freixo nesta quarta-feira (19/10), sobre a suspensão do julgamento de milicianos por conta da ausência de Bethlem.

O advogado do secretário Bethlem informou que ele “não teria mais a acrescentar ao depoimento prestado durante o processo”. Com isso, o julgamento foi adiado para fevereiro de 2012.

No desentendimento, a defensora informou à juíza que não faria a defesa se uma determinada testemunha muito importante, da defesa, não aparecesse. “Esse é o debate mais importante: por que o Sr. Rodrigo Bethlem é testemunha de defesa dessa máfia que está colocada no Rio de Janeiro?”, questiona Freixo.

Para o parlamentar, que presidiu a CPI das Milícias e foi ameaçado dezenas de vezes pelos grupos paramilitares, a máfia tem tentáculos políticos e são políticos ainda atuantes dentro do Poder público. “Aliás, diga-se de passagem, ele não apareceu porque disseram que ele estava no México – já não é mais no México, é Orlando –, mas hoje de manhã participou de uma Audiência Pública na Câmara. Então, para ir à Audiência Pública na Câmara deu tempo, para ser testemunha ontem [18/10] não deu.”

No plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (19/10), Freixo comentou o clima de medo – este real – que vivem as pessoas ameaçadas pelas milícias. “Não é só a minha vida, não. É a vida de milhares e milhares de pessoas que não podem ter a defesa que eu tenho; que não podem ter a visibilidade que eu tenho; que são massacradas no dia a dia do Rio de Janeiro. E o que alimenta isso, essa pouca vergonha política, que se abastece desse domínio territorial e eleitoral; sempre fez isso”.

Secretaria de ‘Ordem Pública’ do Rio: outro abrigo de milicianos

Em fevereiro deste ano, a Operação Guilhotina prendeu diversos policiais e acabou expondo onde eles estavam lotados: na Secretaria de Ordem Pública. Um deles, o delegado Carlos Antônio de Oliveira, foi subchefe operacional da Polícia Civil do Rio de Janeiro e, na ocasião em que foi preso, tinha acabado de assumir a Subsecretaria de Operações da Secretaria Especial de Ordem Pública da Prefeitura carioca.

Rodrigo Bethlem e Eduardo Paes: em poucos anos, diversas indicações de milicianos para cargos de chefia.
Rodrigo Bethlem e Eduardo Paes: em poucos anos, diversas indicações de milicianos para cargos de chefia.

Em abril, a Justiça mandou soltá-los, alegando que era preciso especificar de modo menos genérico a participação de cada um. A ação estava sob a responsabilidade da Polícia Federal. Ironicamente, na decisão, o desembargador Sidney Rosa da Silva questionou o conceito de “ordem pública”, visto que a decisão da prisão dos denunciados se pautou “privativamente na prevenção da ordem pública e na preservação do quadro de provas, julgando ser essa circunstância pertinente e necessária à efetiva investigação pelos órgãos competentes com apoio da Polícia Federal”.

O delegado Carlos Antônio de Oliveira foi subchefe operacional da Polícia Civil do Rio de Janeiro e, na ocasião em que foi preso, tinha acabado de assumir a Subsecretaria de Operações da Secretaria Especial de Ordem Pública da Prefeitura carioca, este ano.
O delegado Carlos Antônio de Oliveira foi subchefe operacional da Polícia Civil do Rio de Janeiro e, na ocasião em que foi preso, tinha acabado de assumir a Subsecretaria de Operações da Secretaria Especial de Ordem Pública da Prefeitura carioca, este ano.

Todos os então 47 denunciados pelo Ministério Público respondem pelos crimes de formação de quadrilha armada, peculato, corrupção passiva, comércio ilegal de arma de fogo, extorsão qualificada, entre outros delitos. Os policiais foram acusados de repassar informações a traficantes de drogas sobre operações policiais em troca de propinas e de se apropriar de armas, dinheiro e drogas obtidas em operações. O objetivo seria revendê-las a criminosos. Eles também são investigados por ligação com milícias, jogo do bicho e exploração de máquinas caça-níqueis.

“É muita coincidência esse conjunto de relações envolvendo pessoas de vida pública. É disso que a milícia se alimenta e é por isso que tem tanta gente morrendo e essa máfia crescendo no Rio de Janeiro”, ironizou Freixo.

Secretario estaria dentro do carro de milicianos na hora do crime

O deputado Marcelo Freixo afirmou que o secretário municipal de Assistência Social do Rio, Rodrigo Bethlem, estava, na ocasião do crime denunciado pela defensora esta semana, “dentro do carro, cercado de milicianos, como subsecretário ou secretário – não lembro o cargo que ocupava na época –, essas pessoas saíram do carro para tentar executar uma pessoa e voltaram para o carro.”

Ele completa: “Isso foi testemunhado por diversas pessoas. Testemunhado por diversas pessoas que estão mudando o seu testemunho porque estão ameaçadas. É uma pessoa que tem vida pública, tem responsabilidade e isso vai ser cobrado. Isso foi cobrado na CPI e vai continuar sendo cobrado agora”.

Relato da mídia sobre a briga entre a defensora e a juíza

Do jornal ‘Meia Hora’:

“(…) A juíza indeferiu o pedido de adiamento, alegando que a defesa arrolou testemunhas além do limite. Além disso, a magistrada ressaltou que o adiamento só aumentaria os custos, já que os réus estão fora do estado. Do corredor do fórum dava para se ouvir a discussão. A juíza pediu apoio de policiais do Tribunal para retirar a defensora. “Ela já estava desobedecendo ordem judicial e ainda queria permanecer no recinto onde eu estava mandado que ela se retirasse”, afirmou a juíza, que pediu para a defensora ser retirada do processo.

Para Bernardett, a magistrada se descontrolou: “Em mais de 12 anos de trabalho, nunca vi um juiz se descompensar para realizar júri sem uma testemunha”. A nova audiência está prevista para 14 de fevereiro. Os réus voltariam ontem para Campo Grande.”

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