
O geógrafo Milton Santos dizia: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.” ; “O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”
Antes de iniciar a crônica optei por citar duas frases do geógrafo com objetivo de endossar o ponto em questão.
Dia incomum, de poucas horas de sono, subitamente levanto-me da cama sem vontade alguma de continuar deitado. Estimulo a ideia de que o dia será produtivo e parto para rua.
Seis e vinte e três da manhã marcava a hora em que eu chegava para o trabalho. Na Rua Buarque de Macedo, alguns transeuntes, em silêncio, encaminhavam-se para mais um dia de trabalho. Logo na esquina, a banca de jornal reunia, pacificamente, alguns trabalhadores atrás de informações.
Naquela velha disputa por um ângulo melhor, busca-se, nas manchetes, o resumo dos fatos e quem sabe um alvo doado pela grande mídia para depositar frustrações e anseios. É ali que, mais uma vez, o sujeito reabastece sua angústia e descrença nos rumos políticos. Confusos, xingam o alvo em questão e moralizam o seu semelhante mais próximo. Descrentes e impotentes tocam suas vidas, sem perceber que na falta de tempo para destrinchar os fatos, mentiras e omissões, colocam seu destino em cheque.
Voltando ao deserto matinal da Buarque de Macedo, é ali também na esquina, que uma camarada vende alguns utensílios velhos, dia e noite. É um tipo de pessoa que quase não se vê mais: não possui celular, quase não vê televisão e enquanto aguarda alguma venda, passa o dia a observar, calmamente, os movimentos cotidianos.
Nosso papo foi breve, até porque de manhã ninguém quer muito assunto. Depois de um bom dia vem a pergunta:
“Rapaz, tiraram a mulher e agora andam dizendo que não tem nada contra ela. Esse sujeito que entrou tá enforcando o povo e dizem que está mais sujo que pau de galinheiro. Não vão fazer nada não?”
A minha resposta durante a conversa não entra em questão. Mas fica a grande pergunta: cadê as grandes manifestações e greves?
O povo foi, durante muito tempo, estimulado ao ódio. A direita, inteligentemente, organizou seus atos através de escusos movimentos apartidários, que há tempos demonstram que de apartidários nada tem. A mídia estimulava os movimentos e os movimentos certificavam suas verdades através da mídia. Insuflados pelas coberturas exclusivas e sensacionalistas, o povo passou a odiar a tal “quadrilha do PT”.
Derrubou-se a presidenta. O que veio não precisa de comentários: Michel Temer é um desastre colossal. O governo é tão ruim, que não tem um dia que não aconteça um fato tenebroso. Irei mentir se eu disser que a grande mídia não relata os fatos. Ela cobre da sua maneira: com pouco esclarecimento, muitas omissões, sem despertar a reflexão do telespectador. Os movimentos de esquerda, como sempre, não tem a mesma cobertura. As prisões e censuras que vem ocorrendo não são ditas. Confundem o povo que, sem entender precisamente os fatos, opta pela inércia.
Tudo isso é a prova que a grande o roteiro de vida atual, somado à doutrinação midiática comandam as mentes e ações. Inclusive os movimentos de esquerda ainda não demonstram o vigor, característicos da década de 90.
Sem perceber, o povo mantem-se apequenado, provando que tanto suas ações como sua consciência já foram escravizadas faz tempo.
Enquanto isso, aos trancos e barrancos, prepara-se o desmonte que irá surrupiar direitos trabalhistas, projetos de educação, social e o sistema de saúde.
Mas se a doutrina midiática não incita a bater panelas, nem estimula os movimentos de rua, o povo é tomado por uma vergonhosa apatia que beira á hipnose. E assim segue a vida do povo brasileiro.
Foto(*): portalafricas.com.br
