“Governo saiu das cordas e ganhou bandeira”, explica historiador sobre guinada política de Lula

Em entrevista à Fórum, Rodrigo Perez destaca importância de governo ter emplacado discurso sobre justiça tributária, Pix e soberania nacional em meio ao tarifaço de Trump e ataques de bolsonaristas.

Em entrevista ao Jornal da Fórum, o historiador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Rodrigo Perez, analisou os efeitos da guerra tarifária e ideológica imposta por Donald Trump sobre o Brasil e como ela influenciou a virada política do governo Lula em um momento em que o Congresso atingia o Executivo. Para Perez, antes o governo se via acuado e fragilizado em discurso e ganhou uma bandeira poderosa com a ofensiva do republicano perpetrada por bolsonaristas.

“Uma das piores coisas na política é quando o campo político fica sem discurso. E a sensação que eu tinha que é que ficou assim durante algum tempo: um governo acuado e acuado por erros do próprio governo, como o erro da comunicação na crise do PIX, a demora em responder a crise no INSS e as fake news contra a primeira dama. Quer dizer, o governo tava errando no fácil. E o governo tava sangrando numa situação que já não não era fácil”, afirma o historiador.

Segundo ele, o governo e o campo político progressista “ganhou de bandeja o discurso” que agora se apoia em três pilares: a crítica à jornada de trabalho 6×1 e o debate sobre o mundo do trabalho, a justiça tributária com a isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil, e, principalmente, a defesa da soberania nacional, até então sob domínio discursivo da extrema direita. Este último, segundo Perez, estava ausente do debate da esquerda brasileira desde os movimentos contra a ALCA no governo Fernando Henrique Cardoso.

A habilidade do presidente Lula em liderar essa nova crise diplomática e econômica foi destacada pelo historiador. “No pronunciamento em cadeia nacional, ele se posicionou como um estadista em defesa da soberania, sem mencionar diretamente os Bolsonaro mas aludindo a “políticos internos” que conspiram com potências estrangeiras”. Isso foi classificado como “perfeito” por Perez. “Tem nome, é sabotagem, isso é crime de lesa-pátria”, enfatizou, ressaltando o peso do discurso.

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Os reflexos já são visíveis, como mostram diferentes reportagens da Fórum. A popularidade de Lula está em ascensão, e a pesquisa eleitoral Quest o coloca à frente de todos os seus potenciais adversários para 2026, inclusive Tarcísio de Freitas, com uma margem ainda maior do que a vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022. “Com o governo errando no fácil e no cenário de enfraquecimento institucional do cargo [de Presidência da República], acredito que agora existe uma agenda.”

A defesa do Pix por Lula, após as investigações iniciadas nos EUA, também é um ponto positivo. Apesar de recente, o historiador acredita que o Pix já se consolidou como um “patrimônio nacional”. A ideia de que “o Trump está querendo tomar o nosso Pix” é um discurso “poderosíssimo” que ressoa com a população e contribui para o isolamento do bolsonarismo.

No entanto, o campo progressista deve resistir às armadilhas da polarização. “Já já vem o Nikolas Ferreira ou outro desses identitários com pauta moral. É preciso não morder essa isca. O foco tem que ser mundo do trabalho, justiça tributária, soberania nacional.” A presença crescente da extrema-direita em conselhos tutelares e câmaras municipais, diz Perez, reforça a necessidade de estratégia para o Senado. De acordo com ele, em 2026 serão duas vagas por estado. Se a extrema-direita repetir o desempenho de 2018, “terá poder de desestabilizar qualquer governo eleito.”

“No Senado está a CCJ, Comissão de Constituição e Justiça, que é a porta de entrada para mudanças na na estrutura do Supremo Tribunal Federal, que, como também sabemos, foi a última fronteira de defesa da democracia brasileira contra o ataque do último governo do de Jair Bolsonaro e seus aliados”, comenta.

Mas o historiador também observa uma “guerra fratricida” dentro da direita entre Eduardo Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. A estratégia de Tarcísio, que tentava conciliar “moderação” com o apoio da base bolsonarista, tornou-se insustentável diante da crise com os EUA. O historiador apontou que o centro político se alinhou a Lula, exemplificado pelos editoriais de grandes veículos de mídia como Estadão, Folha de S.Paulo e O Globo, que historicamente não são simpáticos ao campo progressista. “O rio da política começa a correr para o mar do presidente Lula”, crava Perez.

Assista a entrevista completa

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Foto de capa (Lula): Créditos: Ricardo Stuckert / PR

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