Golpe Fatal

cobra51
 
Michel T. era um camarada cheio de manias, ou melhor, toques. Levava a vida de forma moderada, bem de acordo com suas possibilidades. Por mais que seus hábitos fossem simples, sempre acreditou que o destino pudesse reservar algo que desse uma reviravolta nas suas finanças. E de tanto se falar, podemos dizer que todo esse ritual de desejos, tornara-se uma de suas obsessões.
Mesmo tendo a riqueza como pretensões, a vida inteira optou pelo o que fosse mais seguro. Fazia tudo bem devagar e de forma jeitosa, para não errar. Risco, só se fosse com o que era dos outros. Foi assim que o nosso funcionário público, de salário teoricamente razoável, tornou-se um sujeito metódico e cheio de manias. Talvez o medo de perder dinheiro tenha tirado sua vontade de ganhar. Sendo assim, somente a sorte poderia soprar os ventos que trouxessem conquistas financeiras.
Sua rotina era basicamente ir do trabalho para o bar e do bar para casa. Vivia sozinho em um apartamento conjugado na Lapa e o lazer se resumia exclusivamente a frequentar os bares da região, como já havia dito.
Sábado pela manhã, de forma atípica, seu telefone tocou. Mal humorado por ter tido seu ressacado sono interrompido, Michel T. atende ao telefone com a voz de ontem:
– Pronto
– Fala Michel, é o Neves da repartição.
-Isso é hora, porra? – reclamava Michel, sem um pingo de educação.
– A notícia não é das melhores amigo. Sabe o Luiz, que trabalha no administrativo? – dizia pausadamente o companheiro.
– Sei.
-Pois é, partiu essa madrugada. O enterro será no Caju, três horas.
Por incrível que pareça, Michel T. sentiu-se inebriado pelo comunicado. A notícia além de ter deixado o sono e a ressaca para trás, despertou nele um sentimento duplo: o pesar pela morte de um conhecido e algumas boas possibilidades que, segundo ele, surgem em um enterro.
Preocupado com o horário, Michel se arrumou às pressas e correu para o ponto de táxi.
Chegando ao velório, Michel T. seguiu todo aquele roteiro fúnebre que normalmente carregam os que vão a um enterro: cumprimentou os companheiros com ar de dor e reservou as principais palavras para a viúva. Pois é, revela-se aqui uma das boas possibilidades que segundo o moderado Michel T., surgem em um enterro. A outra digo mais para frente.
Enquanto o padre fazia a oração, o funcionário público já demonstrava certa impaciência com o calor e com os excessos de prece: como o padre era um conhecido do falecido, a homenagem vinha com todo repertório de súplicas e orações do catolicismo. Não que ele desacreditasse em Deus ou nas palavras que iluminariam a subida do falecido, mas é que além do calor, a banca de jogo do bicho fechava às cinco horas e jogar no sábado era sagrado para ele.
Pois é, esta é a segunda boa possibilidade que Michel via nos enterros. E quando se misturava enterro com jogo do bicho, era batata, ele sabia que vinha coisa boa pela frente.
Caminhando rumo ao túmulo, o oportunista Michel T. postou-se à frente dos que carregavam o caixão. Estava ansioso para descobrir o número da sepultura. Segundo suas convicções, o número da sepultura do recém-enterrado, era o número da sorte.
Próximo à cova, no momento da despedida entre os que ficam e o corpo que se enterra, Michel confere o relógio e percebe que tem pouco tempo para pegar a banca aberta. Pressionado pelo tempo, não pensou duas vezes, estimulou seus sentimentos de tristeza e forjou um tímido choro. Ao chamar atenção dos demais, Michel aproxima-se da viúva e diz:
– É muito doloroso para mim. Prefiro partir antes de fecharem a cova.
Como parte da estratégia, deu um longo abraço na viúva, seguido de palavras carinhosas no pé do ouvido. Há de se destacar que o voluptuoso abraço de Michel T. tinha algo a mais. Mas, segundo ele, era apenas uma forma de transmitir bons fluidos. Isso ele dizia para si mesmo, num exercício de convencimento e defesa contra suas próprias indiscrições.
Michel T. correu para fora do cemitério, com a cabeça nos números da sepultura. Chegou esbaforido a banca, passando toda a grana que tinha nos bolsos e exigindo:
– Amigo, joga tudo no 7734. Vai dar cobra, boto fé!
Em seguida, olhou para o céu e fez três vezes o sinal da cruz. As repetições dos sinais eram mais um de suas manias e fora com estes mesmos gestos que ganhara três mil na morte de uma tia, tempos atrás.
E por incrível que pareça, mais uma vez deu tudo certo. Botando sete mil no bolso, o metódico Michel T., completou seu ritual exercendo o papel de “amigo solidário”. Convidou a viúva para espairecer a mente na casa de um primo, no interior de São Paulo:
– Querida, sei que o momento é de dor. Quero muito o seu bem e a sua libertação. O que acha de passarmos um fim de semana no interior de São Paulo? Vai ser bom, você precisa espairecer.
Timidamente ela responde:
– Oh Michelzinho, não precisa se preocupar. Vou superando como posso. Com relação ao convite, acho que seria uma boa sim. Você tem se demonstrado um grande companheiro.
Foram. A viagem era agradável. Além do suporte psicológico dado, Michel T. conseguiu convencê-la a investir parte do dinheiro herdado em um negócio teoricamente rentável. Como havia dito, o moderado funcionário público só tinha coragem para investir com o que era do outro.
Como a viúva precisava de novos desafios para vida, topara entrar na aventura, acreditando plenamente no seu futuro sócio. Inclusive parte da papelada já havia sido assinada lá mesmo, na casa de São Paulo. Coisa que nem eu sabia. Mas Michel T., com muito conhecimento na justiça, astutamente levara tudo de forma organizada, pronto para pegar a viúva no momento de relaxamento e descontração.
Na volta de São Paulo, há de se destacar que nem ele, nem ela falavam mais do falecido.
O que ninguém esperava é que na rodovia 77 , quilômetro 34, um caminhão perderia o controle e num golpe fatal pegaria de frente o motorista.
Michel T. morreu. Ela, ilesa, marcou o enterro do quase sócio, no Cemitério do Caju, às três horas.
Foto(*): maishoroscopo.com.br

Deixe uma resposta