
Além de escritor de realismo mágico, Gabriel García Márquez era ativista político e jornalista: vale a pena conhecer o autor para além da literatura.
Em agosto de 2024, o último lançamento (feito postumamente) de uma obra de Gabriel García Márquez, que unia rascunhos escritos por ele nos últimos anos de sua vida, culminou no romance Em agosto nos vemos, organizado pelos filhos do autor.
Ele nem queria que a obra fosse lançada: teria dito aos filhos, Rodrigo e Gonzalo, que o livro “não funcionava” e “deveria ser destruído”.
Antes de falecer de pneumonia em abril de 2014, um dos maiores nomes do realismo fantástico e o célebre autor da obra-prima Cem anos de solidão sofreu de demência, o que o fez paralisar sua escrita. Mas deixou um legado significativo: foi, além de escritor de uma literatura latina “mágica”, com livros internacionalmente reconhecidos (vencedor do Nobel de Literatura de 1982), também ativista político e jornalista.
O autor para além da ficção: a obra jornalística de Gabriel García Márquez

Créditos: Humanidades/ divulgação
Sua obra jornalística está compilada em quatro volumes, que dividem os relatos cronologicamente: os “Textos caribenhos”, escritos de 1948 a 1952; os “Textos andinos”, de 1954 a 1955; “Da Europa e da América”, de 1955 a 1960; e, enfim, as “Reportagens políticas”, de 1974 a 1995.
“O jornalismo é a melhor profissão do mundo”, diria ele. É uma “paixão insaciável”, que só pode ser “dignificada e humanizada” por sua confrontação com a realidade.
Os relatos jornalísticos de Gabriel García Márquez, como suas obras, são também permeados de uma visão de mundo sensível, que evidencia a condição humana numa escrita perspicaz e poética, coloquial, figurando personagens periféricos e seus modos de vida.
Seus textos caribenhos, escritos na primeira fase da carreira jornalística, narram o retorno à sua terra natal após o assassinato do político Jorge Eliecer Gaitán, em Bogotá, que desencadeou uma onda de violência entre a população naquela que ficou conhecida, posteriormente, como “época da violência na Colômbia”, ou “El Bogotazo”.
Mas, na verdade, narram muito mais: o recebimento de uma carta sobre amor de uma leitora, a disputa longínqua do Ministro das Relações Exteriores paquistanês pela Caxemira (conflito que voltou a se fazer presente nos últimos dias); o uso de composições musicais para o tratamento de doenças pela Associação Médica Norte-Americana e mais.
Nos textos andinos, fase de sua produção enquanto correspondente do jornal colombiano El Espectador, sediado em Bogotá, ele publica reportagens mais investigativas, como aquela que dá início ao Relato de um náufrago: uma investigação em forma de novela sobre Luis Alejandro Velasco, marinheiro que sobreviveu à deriva após um naufrágio. Foi o relato que lhe deu fama internacional.
A coluna que escrevia no El Espectador, Día a día, era descrita como “uma leitura descomprometida”, mas mesmo aí já se encontravam vestígios claros do estilo de Márquez.
Com 27 anos, escritor e jornalista, ele escrevia de duas formas: por interesse e por obrigação. E, de acordo com Jacques Gilard, autor do prólogo de suas coletâneas jornalísticas, podia não tomar autoria daquilo que, escrevendo por obrigação, “não lhe parecesse bem escrito”. Esse era o poder de escrever uma coluna em parcial anonimato.
Nas reportagens andinas, ele passa por temas como o hino do carnaval colombiano, El Torito: “Enquanto vai à fábrica, descarrega um navio ou realiza um negócio, o barranquillero por nascimento, por aclimatação ou por contágio está desejando secretamente, em qualquer época do ano, que as coisas acabem bem para ter um bom Carnaval.”
Também fala muito de cinema colombiano (e espanhol), de obras literárias e de temas sociais mais graves, como deslizamentos de terra fatais.
Entre 1955 e 1960, durante seu exílio voluntário na Europa, em meio à ditadura colombiana de Rojas Pinilla, Márquez começou a escrever suas crônicas de viagem, com observações jornalísticas e culturais sobre a Europa do pós-Guerra.
Ele consolida uma espécie de “olhar latino-americano sobre o Velho Mundo”, evidenciando seu sentimento anti-imperialista e falando, também, da situação de Cuba nos anos prévios e posteriores à revolução (ele que era próximo dos ideais revolucionários e de figuras do próprio país). É um tema que vai se intensificar mais tarde, nas suas Reportagens políticas.
Escritas entre 1974 e 1995, essas reportagens feitas por Márquez de maneira mais estruturada, mas com o mesmo estilo dotado de sensibilidade literária, são tornadas mais ricas pelo acesso direto a líderes políticos, como Fidel Castro, e sua presença em países latino-americanos para narrar a situação política local.
Temas como o golpe de Estado chileno, a influência norte-americana na política latina, o bloqueio estadunidense a Cuba (em Cuba de cabo a rabo, um retrato emocionante do “socialismo que se toca com as mãos”), o debate sobre as drogas e diversas entrevistas marcam a obra — a compilação da genialidade política de Márquez.
Vale a pena conhecer o autor para além da literatura.
Foto de capa: Gabriel García Márquez. Créditos: Humanidades/ divulgação

