Frustração e Fé

jesus
Durante o café da manhã, em tom fraternal, a companheira aconselhou:
– Não se angustie. Ninguém muda o mundo sozinho. Seja e faça exatamente aquilo que você deseja para a humanidade.
Ao ouvir as palavras, abriu um sorriso largo e sincero. Foi uma maneira sutil de não levar o tema adiante e agradecer o nobre conselho. Bebeu o último gole de café e, como na música de Chico Buarque, despediu-se com um beijo longo, enxergando naquele gesto amoroso algum sentido para a vida.
Chegou em casa, ligou o computador e iniciou os trabalhos. Antes de executar qualquer ação, recebeu uma mensagem de uma amiga de trabalho, por SMS.
– E ai, fez os negócios?
Não tinha feito. Passara o tempo todo pensando e fazendo outras coisas, negligenciando aquilo que o sustentava. Subitamente, como se tivesse adivinhado que ele não tinha feito nada, ela o alerta:
– Olha, dá uma pausa no blog, na política. Você não vive disso. O golpe vai passar; o mundo não vai mudar e você vai ficar duro. Não vai sobrar nem o da cerveja com a gata.
Pensou na companheira novamente. Humana, compreensível e disposta a continuar a relação passando por cima de muita coisa. Questionou-se se com pouco dinheiro e pouco lazer, daria para viver. Pensou que sim, mas não teve dúvidas de que tudo seria muito mais difícil.
Concentrou-se nos afazeres da profissão. Organizou os papéis, mandou e-mails, fez planos para uma nova empreitada.
Num piscar de olhos, mais uma vez, mudou de direção e procurou notícias, através de um blog alternativo, sobre o processo de impeachment.
Na primeira imagem, Marta Suplicy de mãos dadas com Anastasia, relator do processo. Na matéria seguinte, Cristóvão Buarque, com falso ar sério e moralista, justificando a traição. Na última matéria, mais uma manobra de Cunha e os valores de caixa 2, arrecadados pela turma que está no poder.
Respirou fundo, sentindo um vazio no peito.
Ligou a tevê. Alternou entre os canais de cultura, mas acabou estacionando no de política. A análise do processo rolava, com todo aquele ritual de formalidades, em vão. Uma enganação. Procurou a discussão, as boas falas. Não vieram.
Como um esquizofrênico, repetiu para o além que o Ministério Público tinha afirmado que não ocorreu operação de crédito no Plano Safra. Prosseguiu, afirmando que não houve parecer do TCU referente às questões orçamentarias de 2015. Rangeu os dentes, fechou os punhos e afirmou: “É golpe”.
Pediu uma solução para os céus:
– E ai?
– E ai nada, golpe é assim. – o inconsciente respondia como se fosse a voz do além.
Trocou de canal. Viu Rafaela Silva chorando e comentando o racismo sofrido nas olimpíadas passada. Pensou no discurso dos sujeitos desprezíveis, afirmando que não foi preciso feminismo, cotas, bolsa e por fim, exaltando o conservadorismo militar. Ou seja, falando com a mesma hipocrisia dos que fingem não haver golpe.
Por impulso, socou a parede. Sentiu dor. Voltou a si, racionalizando o momento. Procurou conter o sentimento de raiva justificando que talvez ninguém soubesse que a atleta iniciara sua trajetória através de um projeto social, recebia bolsa atleta e havia se tornado Sargento da Marinha por um programa do governo.
– E se soubessem, assimilariam? – perguntou novamente de si para si.
– Não. Golpista é golpista. – concluiu de forma incisiva.
Veio a terceira voz, por telefone. Camarada de longa data, mais velho, que em tom de sabedoria orientou:
– Rapaz, isso acontece porque o povo reflete aqueles sujeitos. Eles foram para rua, apoiaram o golpe. O povo tem que mudar e amadurecer. Por mais que o Estado influencie nessa mudança, tem coisas básicas que o sujeito escolhe por si só. Eles pediram o golpe e estão vendo a perversão. O Brasil ainda é isso. A mídia alternativa vai ajudar a mudar. Continue escrevendo.
Consentiu com um sorriso macambuzio e um simples “É”. Despediu-se.
Entrou no carro e rumou para a Tijuca. Tinha um trocado para receber. Ultrapassando o túnel Rebouças, viu pichado no muro, a frase: “Leia a Bíblia.”. Prosseguiu. Chegando próximo à zona portuária, veio outra mensagem religiosa: “Só Jesus expulsa o demônio das pessoas”.
Por um instante tentou sentir o conforto de uma suposta fé. Achou graça de sua fragilidade e lembrou-se que, até então, era Ateu. Pensou nos religiosos e em seguida refletiu sobre os críticos da fé alheia:
– Todos temem o avanço da religião sobre a política. Mas quando invadem países, matam, roubam riquezas, ninguém se manifesta. Depois, fecham fronteiras com medo da imigração, disseminam a xenofobia, ódio e intolerância. Muito dos que se revoltam, tornam-se extremistas, seja no campo político ou religioso. São marginalizados e condenados. Com os brasileiros excluídos é a mesma coisa: exclusão, exploração, preconceitos. Aí, cada um busca refúgio e amparo para suas frustrações.
Foi para o trabalho com a cabeça confusa e o olhar abatido. Foi chamado de depressivo pelo patrão e maluco por camaradas, que nem de longe imaginavam a turbulência e a nobreza dos seus pensamentos.
Aceitou as derrotas momentâneas e resolveu continuar a lutar. Era isso que dava sentido a sua vida, independente das pessoas entenderem ou não aquilo que se passava com ele e com o país.
Foi dormir, sem rezar, mas antes de fechar os olhos disse com convicção e fé: “Vai melhorar, vai melhorar…”.
Foto(*): reprodução internet

Um comentário sobre “Frustração e Fé”

  1. O governo golpistas é o reflexo daqueles que querem a saída de Dilma a todo custo.
    Houve e há momentos de agonia com atual momento político brasileiro,houve momentos que tive defender meus posicionamento de maneira áspera para não cair no senso comum.
    Vale a pena lutar Paulo, mesmo contra maré e contra todos. Eu,já arrumei inimizade, não tenho vergonha de expressar minhas convicções políticas.
    A sociedade brasileira está doente, não há afeto, não há diálogo e idéias. O ego é importante.
    Estamos juntos Paulo!!

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