Filmes de Robert Altman são destaque do CCBB

Começou no dia 27 de maio no Rio uma mostra com todos (ou quase) os filmes do memorável diretor de cinema, Robert Altman – uma declaração de amor à arte. Uma homenagem simples, direta e sem grandes ornamentos desnecessários àqueles que se jogam na profissão artística de corpo e alma. Por Raquel Gandra (*), repórter cultural da Revista Consciência.Net, da redação.

Começou no dia 27 de maio (até 15 de junho), no CCBB do Rio de Janeiro, uma mostra com todos (ou quase) os filmes do memorável diretor de cinema, Robert Altman, que morreu em novembro de 2006. Muitos deles são inéditos no Brasil e quase todos em película. Uma oportunidade única para quem quer conhecer um pouco mais o trabalho deste, que era um sensível investigador das emoções humanas. Altman era um diretor de atores, de personagens.

Na quarta-feira (28) fui ver o penúltimo filme dele (2003), traduzido para o português como “De corpo e alma”. Em inglês, um nome muito mais apropriado: “The Company”.

Um pouco como Fellini, em “Ensaio de Orquestra”, este filme me pareceu uma homenagem à profissão artística, podendo esta ser a dança ou a música orquestrada, equiparáveis ao cinema. A questão do trabalho em equipe, dos contratempos, do ensaio mesmo. Todas aquelas pessoas, aqueles equipamentos, TUDO e TODOS trabalhando em uníssono para que o resultado final seja como o esperado.

“The Company” é um filme simples. Trata da realidade de uma cia de dança e tem como fio condutor dois personagens:

Loretta (Neve Campbell) – dançarina desde pequena que sonha em ter papéis mais centrais, ama o que faz e tem que trabalhar como garçonete para se manter.

Sr. A (Malcolm McDowell) – dono da companhia, que parece irritar a todos com suas decisões unilaterais, mas acaba fazendo tudo funcionar. Chega para observar os ensaios em sua cadeira branca, como quem não quer nada, e acaba opinando em toda e qualquer coisa.

O filme é constantemente perpassado por ensaios, pequenas situações das vidas pessoais de alguns, mostrando convivências, afinidades e desafinidades, etc e, claro, as apresentações. Sejam elas solo, em dupla ou com o grupo todo.

As apresentações de dança são lindas e muito bem filmadas. Há planos de diversos ângulos e a edição soube montá-los de forma fluida e sem incômodos na imagem, nos mostrando de forma privilegiada o que estava acontecendo no palco. Todas belíssimas. São como pequenos momentos em que o mundo pára. Em que a realidade dá lugar à fantasia e tudo é bom. Eu saí do cinema querendo ser dançarina. Ser leve e forte ao mesmo tempo. Saber flutuar.

Dentre as muitas deliciosas músicas que ouvimos ao longo do filme, estas fazendo ou não parte dos repertórios das danças, a canção “My Funny Valentine” é um ótimo pano de fundo em diversas partes. Ilustra principalmente as situações amorosas da protagonista.

Neve Campbell está ótima e faz um belo trabalho como dançarina. Alguns podem não saber, mas ela já fez parte de uma companhia de dança quando era mais jovem, mas largou devido a machucados. Sua participação no filme foi muito além de mera atriz. Neve teve a idéia original da história e desenvolveu o roteiro com Bárbara Turner. Além disso, ainda foi uma das produtoras de “De corpo e alma”.

James Franco faz bem o papel de par romântico e está uma graça. E McDowell, lembrado sempre para mim como Alex, de Laranja Mecânica, rouba a cena com seu jeito mandão e autoritário ainda que gentil e simpático. Perdoamos sua antipatia pelo amor que ele tem pelo que faz.

Em relação ao desenvolvimento da narrativa, é muito bom poder identificar os problemas de relacionamento entre mãe e filha, um casal se apaixonando, um desconforto entre uns e outros, inveja ou contentamento apenas através dos olhares. Como sempre, nos filmes de Altman, observamos várias pessoas, mas sem necessariamente nos aprofundarmos nelas. Ficamos sabendo de pequenos pedaços de suas vidas e isso nos basta. É como se por duas horas estivéssemos com elas. A tela está sempre repleta de gente expressando emoções e sentimentos. Pesca quem quiser. Quem souber prestar atenção.

“The Company” é uma de suas últimas obras, que parecem mesmo uma despedida deste diretor, que morreu aos 80 anos, após ter dirigido mais de 40 filmes. É lindo observar essa história, que mostra de modo muito real a vida dessas pessoas dedicadas ao que fazem, que se sacrificam todos os dias pelo amor à arte.

Uma declaração de amor à arte. Uma homenagem simples, direta e sem grandes ornamentos desnecessários àqueles que se jogam de cabeça na profissão artística, ou melhor, que se jogam nela de corpo e alma.

Programação no CCBB
Rio de Janeiro – de 27 de maio a 15 de junho;
São Paulo – 04 a 22 de junho;
Brasília – 10 de junho a 29 de junho.

(*) Raquel Gandra é repórter cultural da Revista Consciência.Net na área de cinema.

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