
“Termino estes meus versos, lembrando de Rui Barbosa,
brasileiro inteligente e que tinha a melhor prosa.
Dizia que a Política é a arte do bem comum,
mas já a politicagem, não ajuda homem algum.”
Quando terminei este cordel, POLÍTICA É ARTE; POLITICALHA, DESASTRE, com inspiração no grande Rui Barbosa, meu desejo foi logo de tirar muitas cópias e espalhar para todo mundo, pois, diante desse quadro de analfabetismo político, poder colaborar com o nosso povo, ajudando a acender uma luzinha na mente dessa nossa gente tão sofrida e explorada, é uma verdadeira missão. Isto, para mim, tem sido uma exigente tarefa. Particularmente, sinto compaixão dos nossos jovens, pois percebo que a maioria anda indiferente, alheia, alienada mesmo; não estão “nem aí” e nem querem ouvir falar de tal assunto, o que, a meu ver, piora ainda mais a situação.
Meu pai sempre me dizia que “ficar em cima do muro” nunca ajudou e nem ajuda a ninguém. Pobre das coisas, mas rica em consciência, foi sempre assim minha família, por isso, tomei um susto ao ver nossa diarista, Anita, metida naquela situação. Chegando perto de sua rua, já ouvia gritos de mulher e uma das vozes, com certeza, era a dela:
– Socorro! Socorro!
– Socorro, ô Socorro?
– Corrinha?… Abre essa porta, mulher!
– O que é isso, gente? O mundo tá se acabando, é? O que deu em vocês, me acordando assim tão cedo?
– Assim tão cedo, é? Já é quase meio-dia! Criatura, essa tua porta passa o dia fechada. Tu farra de noite e dorme de dia, né, sem-vergonha?
– E o que tu tem com isso, Anita, cara de marmita? Cuida da tua vida, mulher!
– Tu não merece, mas eu peguei pra tu essa cesta básica. A gente ganhou até frango de marca. Olha, vem numa sacolinha e diz que faz a vida ficar mais sadia.
– Ôxe! Frango de marca? E é roupa, é? Agora deu mesmo! Mas, quem diabo deu isso a vocês?
– Dona Samanta!
– Quem? Dona Somonta? Ah?!…
– Samanta, Corrinha, Dona Samanta! Presta atenção! Acorda, mulher!
– Então, entrem pra dentro e me contem essa história.
– Tu não se lembras de Dona Samanta?…
E aí a conversa delas foi um pouco longa, entre cafezinhos, muita risada e grande admiração por Anita, conhecida como Anita Marmitex, diarista e vendedora de quentinhas daquela periferia, também ter recebido de D. Samantha uma cesta básica e aquele bendito frango. Estavam tão empolgadas que nem perceberam minha presença, tampouco quando me retirei e saí a meditar, caminhando por aquelas ruas e calçadas. Não, meu Deus, de novo não! Mais uma vez esse pesadelo está começando! Não, meu Pai, “afasta de nós esse cale-se!”
Fui relembrando da nossa sofrida história, da história da nossa pequena e querida cidade. Impossível não lembrar da famosa família Camargo, herdeira de quase todas as terras dessa nossa região; que vive numa eterna briguinha politiqueira com a famigerada família Pedrosa. A situação por aqui sempre foi assim: entre Pedrosas e Camargos, nosso povo sobrevivendo; alguns se vendendo; outros, resistindo… Até quando?
Para todo o povo daqui, sempre foi uma grande incógnita a posse de tantas terras por parte de uma só família, considerada “imperial”. Como conseguiram tantos títulos e patentes? Vai saber! De coronel a marechal; de capitão a doutor, sem passar por nenhuma universidade; de vigário a monsenhor, quando se tratava de elementos do clero; enfim, todos “com a cara da riqueza”: senhores, senhoras, sinhozinhos e sinhazinhas da casa grande. Antes, tinham escravos; hoje, capachos. Quase toda rua levava o nome de algum parente da tão “nobre” família Camargo que, por meio da politicalha, ia conseguindo, ao longo de séculos, eleger seus membros aos mais altos cargos do Município, do Estado e da Nação. Eita gente danada!
Vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, governadores, senadores… A grande ambição era de alguém chegar à presidência da república. E por que não?… Século dezenove, século vinte, século vinte e um já às portas. E chega a vez de eleger o jovem Cornélio Camargo, advogado bonito e inteligente, porém, um pouco tímido, aos mais altos postos da política: de deputado estadual a governador; de deputado federal a senador e quando já se preparava para ser candidato a presidente… Hum! Ai, meu Deus!
Interessante é lembrar agora que, desde o comecinho, por ocasião da primeira campanha a deputado estadual, além de tanto dinheiro gasto na compra de votos, muito contribuiu para a vitória a simpatia, beleza e o bom coração do jovem Cornélio. Também no meio da lama, dos charcos e pedras nascem belas flores. Difícil de acreditar, mas tudo é possível neste mundo de meu Deus.
Pois bem, simpático, belo e bom, eis o homem: Dr. Cornélio Camargo de Vasconcelos. Exceção àquela regra, saiu-se um bom homem, tão sem preconceito e tabus que veio a se engraçar de uma jovenzinha muito linda, mas espertinha que só ela. Hoje diríamos de tal criatura: uma verdadeira “periguete”. Pois não é que o Dr. Cornélio, encantado e cheio de amores, não se contentando em apenas tirá-la do bordel, chega a se casar com a dita cuja! Casar-se sim, senhor! Pasmem. De papel passado e tudo. Antes, porém, a família fizera o maior escândalo, abominando aquela “pé rapado”, aquela desqualificada, aquela teúda “samanteúda”. Cornélio, no entanto, com seu jeitinho manso e não amargo, consegue amansar os Camargos. Trabalho de um verdadeiro cavalheiro. Só sendo mesmo a joia rara da família!
Bela, esperta e assanhada, eis a mulher: Dona Samantha (agora com h) Camargo de Vasconcelos. Logicamente, o sobrenome Silva ficara relegado, após tão nobre casamento. Pobreza agora, nem pensar! Pense apenas numa mulher esperta, espertíssima! Logo, logo cativou toda a família, pois foi se mostrando uma verdadeira raposa na arte da política; perdão, melhor dizendo, no desastre da politicalha. Passou a ser um excelente cabo eleitoral em todas as campanhas do jovem marido, foram vitórias e mais vitórias: deputado federal, senador, governador do Estado. Uma primeira-dama e tanto!
Diziam as más línguas, meu Deus, cala-te boca, que enquanto o Dr. Cornélio pronunciava seus belos e comoventes discursos, Dona Samantha estendia sua velha e conhecida manta, cobrindo a cabeça do pobre homem de uns belos e indesejáveis galhos, caracterizando-o com um adjetivo muito pertinente ao seu nome. E no meio de toda essa “galhardia”, o grande sonho de Dona Samantha era mesmo que o maridinho chegasse a ser Presidente da República. Presidente sim, senhor! E por que não? Já pensou Dona “Samantheúda” primeira-dama do país?
Não chegou a realizar tais pretensões. Ainda como senador, o pobre marido veio a falecer, de repente enfartou. E agora?…
Calma, gente! Nem tudo está perdido. É que a essas alturas, o casal já tinha um filho, um filhinho muito lindo que, desde criancinha, vinha sendo preparado para seguir os passos do pai. Pai?… Qual pai?… Abafa o caso! Silêncio! Cuidado com essa história! Era o que se ouvia por todo lugar.
Sem direito à escolha, pois Dona Samantha era quem sempre decidia tudo, eis o jovem Adolfo Camargo de Vasconcelos, rapaz muitíssimo confuseiro, fanfarrão e machista, enfrentando sua primeira campanha a deputado estadual. Meu Deus do céu, quanta diferença do pai! Dona Samantha e toda família imperial ficavam bastante preocupados. Melhor fingir que aquela agressividade esquisita não existia. Vamos à luta! O importante era que Adolfo — Ado, ou Adinho, na intimidade — fosse eleito a todo custo. Na verdade, toda aquela fachada de “machão” era só aparência.
Dona Samantha, e todos da nobre família, cada vez mais empenhados naquela vitória, não mediam esforços, abrindo as portas do casarão, os bolsos e até os sorrisos naquelas caras-de-pau. Vereadores que não veem as dores do povo e diversas lideranças políticas da região recebiam valiosas quantias, a fim de comprar o voto dos empobrecidos. Valia tudo: saco de cimento, telhas, próteses dentárias, óculos, camisas, chinelos e as famosas cestas básicas de Dona Samantha, com o respectivo frango. Há cada quatro anos, essa turma volta à cena e está aí por toda parte, entregando coisas e comprando votos até nas caladas da noite. E isso porque é crime eleitoral. Imagina se não fosse! De quatro em quatro anos, esses politiqueiros saem às ruas, principalmente nos lugares mais pobres, nas favelas e sítios. Um verdadeiro desrespeito! Até quando, meu Deus?
Voltemos à campanha do nosso Ado. Calma! Tudo estava indo de vento em popa, relativamente fácil; a única coisa que vinha atrapalhando um pouco os planos da família Camargo era a postura do dito cujo candidato. Pense num candidato metido a besta! O próprio povo já se manifestava a respeito de tal assunto, olha só o que diziam:
– Você foi ver Ado?
– Rapaz, você me respeite! Nunca fui, não sou e nem serei!
– Que brabeza é essa? O que foi que eu disse demais?
– Perguntou se eu fui veado.
– Rapaz, eu não falei isso não. Eu perguntei se você foi ver Ado! Pense num político brabo e encrenqueiro!
– Ah! Agora entendi. É aquele que a mãe obrigou a se candidatar? O povo diz que ele não gosta dessa vida não. Ele gosta de outras coisas… Posa de machão, mas é só aparência.
– É esse mesmo. É Adolfo Camargo, que todo mundo chama Ado. Dona Samantha quer porque quer eleger o filho deputado. O rapaz parece que anda meio revoltado. Não tem vocação pra isso não. Ele gosta mesmo é de cachaça, vaquejada e viver na bagunça, torrando o dinheiro da família e gastando tudo em farra.
– Eita! Que cabra mais desmantelado! Será que ele ganha a eleição?
– Ora se ganha! Ganha sim! Mesmo ele tendo aquele jeito agressivo de falar, aquela violência toda, aquela cara de pau, parecendo até que tem o rei na barriga. Dizem que anda sempre armado, mas não passa de um frouxo, e que só tem coragem de fazer discurso depois de tomar umas e outras.
– E a mãe dele, o que diz?
– Não diz. Ela faz. Não para de visitar os pobres, sorrir o tempo todo, abraça todo mundo, coloca as criancinhas catarrentas nos braços, toma café, refrigerante e água em copos plásticos, aperta a mão dos bêbados e prostitutas (depois higieniza com gel), visita casa por casa, não perde novena e procissão. Nesse tempo, não deixa faltar aos pobres o remédio, o transporte e as famosas cestas básicas, com frangos que dizem fazer a vida mais sadia. Que perdição!
– Ah, agora entendi. É por isso que a turma fica nessa maior agitação. Todo mundo ouriçado e numa correria danada por causa de um frango?
– É. Alguns ainda chegam a dizer: melhor dar um frango do que não fazer nada.
– Ei, mas vem cá. Será que esse tal de Ado vai ganhar mesmo?
– Com toda certeza! Não tenha a menor dúvida. Pensando bem, na verdade, não é ele quem vai ganhar a eleição. É o dinheiro da família dele! E o problema não é ser machão, violento, bêbado, estuprador ou farrista. Se tiver dinheiro, até um cachorro ganha a eleição, não é mesmo?
– Rapaz, sei não! Eu ainda acho que só ganha mesmo se Deus quiser…
Pois é, até hoje escutamos estas mesmas estórias: que Fulano, Beltrano e Sicrano ganham as eleições porque Deus quer; que “A voz do povo é a voz de Deus”. Aqui eu me pergunto: Será?… E quando o povo está totalmente enganado e alienado? Muito fácil é jogar a culpa em Deus. Ninguém pensa que o analfabetismo político e a falta de uma educação de qualidade possam estar gerando todas essas mazelas.
Mas voltemos ao caso do Ado, ou, aos casos de Ado. Será que mesmo com toda aquela rejeição, com aquelas musiquinhas de deboche, que em vez de dizer “Ado, Ado, Ado é nosso deputado!”, o povo dizia baixinho: “Ado, Ado, Ado é um cabra safado!” esse rapaz ainda ganhou aquela eleição para Deputado Federal?
O quê? Alguém ainda tem dúvida? Claro que ganhou sim, senhor! Foi o mais votado de toda esta região. Uma vitória esplendorosa, estrondosa, espalhafatosa, com muitos fogos, povo na rua, cachaça de graça para todo mundo. Eita “Vida de gado. Povo marcado, povo feliz!”. Não é assim que diz Zé Ramalho em sua música?
Foi, na verdade, uma vitória com V maiúsculo, regada ao mais caro champanhe e caviar da poderosa família Camargo; família esta que até hoje vem deixando a vida do nosso povo com este gosto tão amargo. E o pesadelo continua, até que chegue a vez da família Pedrosa dominar novamente. Por enquanto são os Camargos, é Ado mais uma vez, e a parada agora é federal!
E Dona Samantha, heim?… Dona Samantha não cabe em si de contente. Já pensou o que é sair do lixo para o luxo de ter um filho DePUTAdo?
PerYaçu
Bananeiras-PB: outubro de 2014
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
