Festival da Utopia promove shows e debates em Maricá

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Os tempos mudaram e algumas estratégias de formação de consciência vão perdendo espaço para outras. A mídia alternativa vai tomando espaço dos jornais impressos, os canais fechados vão se sobrepondo aos canais abertos. Um simples vídeo, transmitido por celular, vem demonstrando um poder de propagação e informação superiores aos comícios, com falas maçantes em cima de um carro de som.
Subitamente, as formas de se comunicar passam por um processo de transição, exigindo que os comunicadores e formadores de opinião se adaptem aos novos modelos.
Mesmo com este bombardeio de inovações, o que nunca perdeu força, nem se tornou obsoleto são as intervenções culturais. É ali, onde pessoas com distintas convicções e linhas de pensamento trocam de forma direta e indireta uma nova concepção de mundo.
E foi assim no Festival da Utopia, em Maricá. O evento conseguiu unificar, harmoniosamente, diversos movimentos sociais, artistas, intelectuais e moradores da região. De forma mais direta, pessoas menos politizadas, atraídas por discursos rasos e conservadores, conviveram no mesmo espaço que membros de movimentos progressistas.
Apesar do choque de realidades e pensamentos, a integração, de uma maneira geral, foi extremamente produtiva e pacífica.
Como havia escrito em crônica anterior, existe uma grande diferença entre o discurso e a realidade. Apesar das minorias estarem, cada vez mais, na mira de programas e ideias excludentes, é muito comum ver o oprimido repetindo o discurso do opressor. Inclusive em pautas ligadas a gênero e raça, onde surgem as mais abjetas e desumanas convicções. Com todo esse abismo entre realidades, muitos músicos e intelectuais conseguiram expor ideias e aproximar antagônicos de forma sútil e, sem dúvidas, fizeram a diferença.
Destacaram-se no evento o cantor Emicida, o grupo de rap Racionais MC´s e a sambista Beth Carvalho. Além de cantarem o melhor de seus repertórios, apresentaram críticas construtivas, com uma ampla capacidade de atingir grupos distintos, de forma tolerante e pacífica. Talvez ali, naquele evento específico, o público admirador das letras musicais que fazem críticas ao sistema socioeconômico consiga fazer uma conexão direta com o atual momento político. E a partir disso, perceba uma incoerência entre o que se sente pela mensagem musical e a repetição de um discurso sistêmico e conservador.
A construção deve ser feita gradativamente, sem incitar o ódio e por meios ligados a nossa história e raiz. Para isso, nada melhor que o bom diálogo e a projeção da música brasileira.
Todo esse movimento acende uma grande chama de esperança capaz de despertar consciências e nos aponta uma saída para um futuro mais harmônico, inclusivo e libertador.
Como dizia Galeano, “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”.
Foto(*): cobertura utópica

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