Aninhamento no presente. Não poucas são as vezes que sinto o que me acontece, aninhado numa soma de lembranças. Não sei se será por causa do tempo já vivido, mas o que vivo está como que contido, guardado, propriamente aninhado, numa coleção de recordações. Isto confere uma solidez e calidez especial ao meu viver.
Já não ando por aí como quem diz, sem raízes nem sem rumo. O meu viver é já mais como que um deslizar, um decorrer. Como um rio de montanha que vai passando pela planura e chega ao mar. Luz na noite. Luz da noite. Este preciso momento, preciso dizer, se aconchega em momentos passados costurados.
A casa dos meus pais em Mendoza, aonde tantas vezes chego quer de dia ou a qualquer momento. Parece-me ver ambos, papai e mamãe, meus irmãos, alguns amigos e amigas que chegaram a frequentar a casa. O tempo já não posso dizer que retroceda, mas se aninha e me aninha no presente.
Isto também me acontece em distintos momentos do dia, quando ando por aí, ou vejo algumas pessoas. Essas pessoas e lugares, esses momentos, são quase já como que umas recordações atualizadas. Como se o tempo unificado que vivo guardasse tudo e a mim. Ontem à noite, por exemplo, e também dias atrás, em reuniões de família e comemorações, o som das canções e a dança, as comemorações, me lembraram e ainda me lembram a festa da minha vida neste país.
Uma festa começada com a travessia da fronteira. Ipês amarelos do lado de cá. Uma aventura. Brasil saía do mapa e entrava pelas narinas. Pelos olhos. Pelos olhares das moças. A rodoviária do Tietê, em São Paulo. A vinda para João Pessoa. A realização dos meus sonhos. Casa. Família. Trabalho. Publicações. Poesia. Pintura. Amizade. Amor. Comunidade. Os sonhos de toda idade e novos sonhos me alcançaram. Habito neles.
Agora mesmo o canto de um passarinho ou passarinha, me alegra no alvorecer do dia. É como se fosse um único dia. A lembrança da minha família dispersa. A presença de quem me ama e me cuida. Os projetos em que prossigo a minha caminhada da vida inteira. Os arco-íris no ar. O luar que já já irá deixar passo ao rei Sol. E por aí vai. Bye bye tristeza, não precisa voltar. Eu não nasci pra sofrer! Vou me acostumando com a felicidade. As calçadas logo mais irão novamente conter meus passos à eternidade.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
