Feira do ódio

leonardoO menino Leonardo tinha 12 anos, era negro, pobre, favelado. Seu único crime fora fazer bagunça numa feira, na Tijuca, bairro da zona norte carioca. Leonardo cometera o terrível pecado de atirar frutas contra um colega. Na verdade, não foi o outro menino que reclamou. Ele também estava brincando. O que se espalhou por aí foi que Leonardo incomodava os feirantes e os consumidores. Esses, com medo de tomar um pedaço de mamão na cabeça, chamaram o capitão Nascimento.
Também espalharam que o segurança da feira, supostamente policial, fora derrubado. Teria sido um rabo de arraia? Mas de um menino? Do algoz enfurecido, Leonardo até que tentou correr, e correu, 100 metros rasos. Se chegou perto do recorde mundial não se sabe. Sabe-se, porém, do desfecho: dois tiros pelas costas, um deles na cabeça, puseram fim à vida de Leonardo.
Logo no início se diz que o único crime de Leonardo fora atirar frutas contra outro menino. Como vêem os caros leitores, uma correção se faz necessária. Além disso, Leonardo era pobre, negro e favelado.
E por ser pobre, negro e favelado, não mereceu a comoção pública do governador, que costuma se mostrar tão indignado quando os mortos são outros. A imprensa oficial, e aqui não me refiro àquela que imprime o Diário Oficial, também mediu a comoção.
A autoridade máxima do Estado, por certo, está muito ocupada. O momento é de articulação política, de mudanças na polícia. Como o governador afirma querer uma corporação mais humana, decidiu nomear um ex-comandante do Bope, justo o Bope, para o cargo de comandante-geral da Polícia Militar. E o comando do Estado Maior foi entregue a um policial que já foi flagrado estapeando a cara de meninos, rendidos, na Cidade de Deus.
A sucessão de fatos, portanto, nos permite uma constatação inequívoca sobre a política de segurança do governo: morte aos meninos armados com frutas, promoção e liberdade aos homens armados com ódio.

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