Europa por Isaac Bigio (2004)

Nasce oca a ‘nova UE’?

LONDRES, 10/12/2004. Duhalde, promotor da Comunidade Sul-Americana, quer que ela se inspire na União Européia e tenha até um parlamento, mercado e moeda comuns.

A América do Sul tem quase o mesmo número de habitantes da UE, mas território e recursos naturais quatro vezes maiores. Não conhece guerras mundiais e há mais de um século nenhuma de suas capitais é invadida. Em relação à Europa, é mais homogênea em seu idioma, religião, cultura e história.

O grande nó sul-americano é o atraso de sua economia e sociedade. Suas 12 repúblicas nunca foram potências e comercializam mais com o Hemisfério Norte do que com seus vizinhos. Ainda são muito dependentes do dólar e de capitais e poderes estrangeiros.

O que deu força à UE foi o fato de ter começado como um acordo comercial, que logo se expandiu e deu ao bloco unidade política. A Comunidade Sul-Americana quer fazer o caminho oposto. Mas só avançará uniformizando taxas e políticas econômicas.

UE: Nova Constituição

LONDRES, 1/11/2004. Foi firmada a Constituição da União Européia. Com ela, a UE é mais do que um mercado comum — mas menos do que um Estado federativo.

Os Estados nacionais mantêm sua independência e suas autoridades, ainda que cedam certa soberania em áreas como pesca, agricultura, comércio interno e externo e ecologia. A UE se perfila, de certa forma, como contrapeso aos EUA. Não é uma confrontação direta como a que criou a Alemanha em 1914-1945, ou a URSS, até 1991. Mas diversos países da América Latina, África e Ásia poderão se valer da UE para renegociar melhores acordos comerciais ou relações com Washington.

A UE dificilmente poderá se constituir num novo Estado com uma só política exterior. A guerra no Iraque tem mostrado fortes divisões internas nas quais muitos sócios novos adotaram uma posição pró-Bush frente à do bloco anti-guerra dos fundadores. Alguns Estados não adotam o euro como moeda e poderão rechaçar a nova constituição em referendos.

A marcha anti-guerra

LONDRES, 30/10/2004. A apenas quinze dias das eleições presidenciais norte-americanas, mais de 100 mil pessoas sairam às ruas de Londres, a capital do maior aliado dos EUA, em uma manifestação contra Bush que também exigia a retirada das tropas britânicas do Iraque.

Com esta manifestação culminou o Fórum Social Europeu, que foi promovido pela prefeitura londrina e que reuniu cerca de 20 mil ativistas anti-guerra de todo o mundo durante três dias.

O protesto tem lugar em um momento difícil para Blair. Até o momento os quase nove mil soldados britânicos responderam a seus próprios chefes permanecendo ao sul do Iraque, mas agora Bush quer que algumas tropas inglesas passem a ficar sob o comando norte-americano nas zonas próximas à Bagdá. Muitos britânicos (incluindo setores pró-guerra) resistem à essa idéia pois temem parecer subordinados à estratégia dura do Pentágono, além do receio de que tal medida aumente as baixas entre seus soldados.

Bush quer mostrar ao eleitorado norte-americano que ele não está isolado internacionalmente. Blair pode querer não aceitar tal solicitação, mas se não seguir a pauta de Bush pode afetar seu sócio e passar uma imagem de desunião para a Coalizão.

Os falsos informes de Blair

LONDRES, outubro/2004. Na última conferência trabalhista, Tony Blair reconheceu como falsos os informes que indicavam que Saddam tinha armas de destruição em massa. Apesar de aceitar que o argumento principal para atacar o Iraque estava errado, Blair defendeu a invasão dizendo que ela era necessária para remover o ditador iraquiano do poder.

Com sua “auto-crítica”, o primeiro-ministro tentou salvar sua imagem e unir o partido para ganhar um terceiro mandato, mas esta atitude pode acabar afetando seus aliados Bush e Howard que estão no meio de suas campanhas para a reeleição. E também pode minar ainda mais sua autoridade frente suas próprias bases trabalhistas, que solicitarão um pedido de perdão por haver lançado o país nesta aventura.

Diferentemente de Espanha, Austrália e EUA, Blair não compete com um líder anti-guerra. Seus opositores conservadores estão desacreditados e são tradicionalmente mais duros na política externa.

A conferência demonstrou um Blair que deixou de lado os símbolos do “novo trabalhismo” para reviver o trabalhismo histórico. Ele tem elogiado Brown, seu rival interno, como o melhor tesoureiro britânico da história. A cumplicidade entre os dois tenta evitar um racha interno que acabe com as chances de seu partido permanecer no poder depois de 2005, o que não elimina a possibilidade de um futuro choque entre eles. Brown exige um peso maior no partido para logo poder substituir Blair na cadeira de primeiro-ministro.

Guerra contra a Fome

LONDRES, outubro/2004. Esta semana, que começou com a realização da I reunião da ONU contra a fome, terminou com um dia sagrado para os judeus: o dia em que eles jejuam como forma de pedir perdão.

O problema é que um sétimo da população mundial (cerca de 850 milhões de pessoas) jejuam involuntariamente. Com tanto avanço tecnológico, não se pode perdoar que a desnutrição persista e que cada ano mate 700 mil pessoas.

Da reunião citada acima não participou o presidente do país anfitrião, os EUA, mas sim 55 mandatários incluindo Lula, Chirac (França), Lagos (Chile), Zapatero (Espanha) e Annan (ONU). Para eles, a maior guerra a ser encarada não é contra o Iraque, mas contra o flagelo da fome, que deve ser erradicado em 11 anos.

A verba destinada para a batalha contra esta verdadeira “arma de destruição em massa” equivale a 10% do investimento bélico dos norte-americanos. Propostas para incrementar os fundos destinados ao combate à fome surgem sobre a forma de impostos sobre o comércio de armas, a cobrança de 0,01% sobre os bilhões de dólares produzidos em transações financeiras diárias e a redução do custo de envio de dinheiro de imigrantes do hemisfério Norte para o Sul (U$86 bilhões).

Guerra ilegal

LONDRES, outubro/2004. Kofi Annan tem afirmado categoricamente que a invasão do Iraque foi ilegal. O Secretário Geral das Nações Unidas tem tentado demonstrar que não é uma marionete nas mãos de Washington. E ele pode influir sobre as próximas eleições na Austrália e nos EUA.

Quando Aznar deixou o poder em Madri, a revista “The Economist” presumiu que havia caído o primeiro dos quatro “ases” que lideraram o ataque a Bagdá. Em 9 de outubro pode cair o segundo: Howard, primeiro-ministro australiano desde 1996. O terceiro “ás” (Bush) pode cair nas eleições presidenciais de 2 de novembro e o quarto (Blair) poderia ser defenestrado por seu partido se seu descrédito se aprofundar.

Kerry usa as declarações de Annan para atacar Bush e vai tirar proveito de uma possível derrota de Howard. Bush, que acredita ter o poder de intervir em outros países, poderia perder o poder devido à “intervenção” de distintas pressões externas sobre os EUA.

Violência animal

LONDRES, setembro/2004. Na quarta-feira (15/09), pela primeira vez manifestantes entraram no parlamento britânico, enquanto do lado de fora deste recinto correu muito sangue. Os manifestantes exigiam que fosse mantida a caça à raposa enquanto lá dentro se aprovava uma lei que a abolia.

Setores conservadores decidiram transformar a defesa desta aristocrática forma de recreação em sua principal arma para mobilizar massas e ativistas contra o trabalhismo. 75% dos britânicos apoiam vetar este sanguinário esporte, pois os ingleses são amantes dos animais. Todo bicho de estimação, antes de entrar no país, deve passar por uma quarentena a fim de evitar a transmissão de doenças. As touradas e brigas de galo, inclusive, estão proibidas e o único “terrorismo” nitidamente britânico que existe é o dos “defendores de animais”.

Abandeirar a preservação desta caça é algo que não permitirá aos conservadores uma sustentação popular, mas criará, isso sim, uma base militante no setor rural.

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