Estupro bárbaro ressuscita pauta das mulheres

NOVA DÉLHI – Em 16 de dezembro, um crime chocou a Índia e o mundo. Em um ônibus, voltando do cinema, uma jovem estudante de 23 anos foi estuprada, diante do namorado, por seis homens – incluindo o motorista. Lançado na estrada, o namorado também sofreu graves ferimentos. Levada ao hospital Mount Elizabeth, em Cingapura, a jovem não suportou e morreu. Desde então, uma onda de protestos contra os estupros tomou o país. Na mídia local, quase um mês depois, a repercussão centraliza o noticiário.
A solidariedade às mulheres vítimas de violência sexual tem partido de todos os setores sociais. Inclusive manifestações predominantemente masculinas têm sido vistas em diversas capitais. Uma grande manifestação está prevista para 26 de janeiro, dia da independência do país. Casos graves de estupro foram revelados inclusive nos altos postos governamentais da Índia. A gravidade das novas histórias reveladas, e os constantes protestos, mantém o assunto no centro da pauta.
Pressionado pela opinião pública internacional, o país discute quais as características da sociedade indiana teriam levado a estatísticas tão preocupantes. As organizações de defesa dos direitos das mulheres, que denunciam há anos os abusos, estão sob atentos holofotes. Segundo suas lideranças, uma das principais causas dos abusos é cultural. Conhecida como “capital do estupro”, Nova Délhi teria a cultura do assédio em locais públicos. Só em 2012, 635 casos de estupro foram reportados, com apenas uma condenação. Houve, ainda, outros 193 casos registrados de assédio.
“É normalmente aceito que os homens digam coisas grosseiras na rua, ou se esfreguem nas mulheres no ônibus. Acontece com absolutamente todas. E sempre se ouvem comentários como ‘olhe como ela está vestida’, ou ‘foi ela que provocou'”, denuncia a ativista social Renana Jhabvala, referência em Nova Délhi da Self-Employed Women’s Association (SEWA), hoje a principal articulação de entidades de defesa das mulheres no país. “Mudar a cultura de Nova Délhi é a tarefa mais árdua, e exige esforços por meses, anos ou até décadas”, conclui.
As organizações estão, agora, ampliando o estímulo para que as mulheres façam a denúncia. Não acreditam que as estatísticas de estupro, mesmo muito elevadas, sejam reais. Afirmam que as mulheres ainda se sentem muito constrangidas em falar. Por isso, proclama-se o apoio dos homens, e uma polícia mais pró-ativa. No caso da jovem estudante, considerado emblemático, os policiais teriam levado mais de 24 horas para agir. “Mesmo alguns juízes ainda consideram muitos casos de estupro culpa da mulher”, complementa Renana.
“Quem tem que sentir vergonha é quem estupra, e não quem é estuprado”, sintetiza a feminista Mirai Chatterjee, que também coordena a SEWA, mas em Ahmedabad, e compõe o Conselho Consultivo Nacional (NAC) do primeiro-ministro indiano. “Esse caso tem elementos positivos. As denúncias de estupro estão aumentando. As pessoas saíram às ruas como nunca para protestar. E a mídia também está dando uma cobertura grande, benéfica ao estímulo do debate”, diz.
Organizações de defesa dos direitos da mulher tentam aproveitar o momento para promover a discussão pedagógica na sociedade. Elas estão indo às escolas para conversar, principalmente, com os meninos. Estão convencidas de que a essência do trabalho está na luta contra o machismo, profundamente enraizado na sociedade indiana. “Também estamos estimulando a conversa com a vizinhança, o debate no ambiente religioso. E promovendo o empoderamento econômico das mulheres, mais importante do que se imagina”, afirma Mirai.
Reivindicações
As medidas a serem tomadas para combater o assédio sexual na Índia, no entanto, dependem sobretudo da vontade política dos governos. E as organizações estão cientes de que esse momento, em que a sociedade debate amplamente os crimes, é o instante de se cobrar ação. Patrulha policial, implantação de câmeras de segurança, iluminação das ruas à noite – muito escassa na Índia –, e uso de GPS em ônibus e trens são algumas das exigências mais imediatas.
“Essa atitude bárbara dos estupradores, que em parte revela o que há de pior na nossa sociedade, pode servir como estímulo ao próprio aprimoramento dela”, conclui Usha Thakkar, coordenadora da organização Mani Bhavan.
A pauta das mulheres tem, ainda, outras reivindicações. A implantação de um serviço telefônico para denúncias, a instalação de cabines policiais nas proximidades de escolas e universidades, e aplicação de multas por assédio são algumas das sugestões. Campanhas de conscientização para que se denuncie têm sido recomendadas para os governos e as empresas. “No entanto, nada é tão importante quanto à cooperação dos cidadãos e da polícia nas denúncias”, lembra Renana.
De maneira geral, as mulheres descartam qualquer tentativa de relacionar a religiosidade do povo indiano e os casos de estupro. “Isso é um simplismo que não cabe na complexidade da sociedade indiana”, diz Mirai. Ao chamar a atenção do mundo para os efeitos nocivos do machismo na Índia, o caso bárbaro de Nova Délhi pode entrar para a história como um divisor de águas no combate ao assédio sexual no país.
(*) Leandro Uchoas é jornalista. Reportagem publicada originalmente na Caros Amigos.

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