“Esse modelo do Lula nos trouxe até aqui, mas temos que buscar algo mais avançado”

Por Eduardo Sá, Gabriel Bernardo e Jean Oliveira

Rodrigo Vianna é um dos blogueiros políticos independentes mais reconhecidos atualmente no Brasil. Seu Escrevinhador chegou a ter 30 mil visitas diárias nas últimas eleições. Mesmo sendo um profissional do mercado, ele tem várias críticas às grandes empresas de comunicação. Trabalhou mais de 10 anos na Globo e hoje está na Record, que, segundo ele, curiosamente surgiu como um espaço de contraponto na televisão nacional. Na entrevista ao Fazendo Media ele conta como os blogueiros vêm se organizando e analisa a mídia brasileira.
Começando pela sua experiência profissional, hoje você está na Caros Amigos e na Record?
Na Caros Amigos é uma coluna mensal, e na televisão eu sou repórter do Jornal da Record. Eu faço reportagem especial, séries que entram de segunda a sexta-feira com um assunto. Sou apresentador de um programa da Record News, às segundas-feiras, sobre temas internacionais. Estou na emissora desde o começo de 2007, e tenho o blog.  Antes disso, trabalhei 12 anos na Globo, em São Paulo e no Rio. Trabalhei também na TV Cultura de São Paulo durante três anos, que foi onde eu aprendi a fazer televisão. E trabalhei três anos na Folha de São Paulo no final dos anos 80, foi o meu primeiro trabalho.
Como é que foi sua saída traumática da Globo para depois arrumar emprego?
A impressão que eu tive, e foi mais do que uma impressão, é o que chamam nos Estados Unidos de “assassinato de reputação”. Eles tentaram espalhar que eu tinha sido demitido por razões profissionais, para não divulgar a questão política. Fizeram uma carta inclusive, ou seja, passaram o recado de que esse cara não serve para trabalhar. Porque eu fiz uma carta, divulgada internamente para os colegas, em que eu descrevia por que eu tinha entrado em choque com a empresa. Eles responderam de uma maneira mais concisa com essa ideia embutida, e depois plantaram notas pela imprensa falando mal. Então eu tinha o risco de ficar marcado como um cara que tinha brigado com a Globo. Se não existisse a Record com a expectativa de fazer um contraponto à Globo, eu podia ter tido muita dificuldade. Na época eu tive convites para trabalhar em alguns lugares, e acabei aceitando esse da Record, que me pareceu interessante. Eu fui e está dando certo.
Você pode nos explicar qual a razão política da criação do seu blog Escrevinhador e a parte técnica também?
O Escrevinhador vai fazer três anos. Ele começou um pouco por insistência do [Luiz Carlos] Azenha que já fazia um blog [Vi o mundo]. No começo eu fui tocando de maneira muito simples, e em 2010 teve um momento de pico. Acho que os blogs em geral tiveram um papel importante no período da eleição. Mais de 30 mil pessoas acessaram por dia. É muita coisa se você pensar num blog feito por uma pessoa. Eu tenho alguém que me ajuda, mas não é uma funcionária. É a Juliana Sada, que toca no período da manhã enquanto eu vou fazendo minhas coisas.
Depois das eleições houve uma queda acentuada no acesso de todos os blogs de linha política, e agora em alguns momentos ele volta a subir muito. Nesse episódio do Celso Amorim a audiência subiu tanto que a empresa que estava hospedando o blog não conseguiu suportar a carga de visitas no mesmo momento. Mas, desses 30 mil do ano passado, eu posso dizer que caiu para talvez menos de 1/3 disso. Nunca me dediquei integralmente. Sempre conciliei com o meu trabalho na Record, e não tenho nenhum retorno financeiro.
Você falou do estímulo do Azenha, mas não sentiu também sua motivação pessoal para escrever? Essa coisa de faltar um espaço para se expressar…
Quando eu saí da Globo, em 2006,  percebi também o papel estratégico que a internet tem. Naqueles episódios dos aloprados, o Azenha conseguiu e jogou em seu blog a íntegra da fala do delegado em que ele combinava com os jornalistas o vazamento daquelas fotografias. A partir disso a Carta Capital fez uma matéria e a revista vendeu bastante, mas a repercussão na internet foi brutal. Então eu reparei que a internet podia ter esse papel estratégico nesses momentos muito agudos de disputa. Em 1982, na época do Brizola e das diretas, você não tinha pra onde correr: se a imprensa toda se fechasse em torno de uma tese, era difícil você quebrar aquele pensamento hegemônico.
Você acha que o perfil do cidadão hoje procura esse tipo de informação ou é uma coisa mais segmentada?
Eu acho que é segmentado sim, falamos com um público mais politizado. A gente tem dificuldade de sair desse nicho. Você cumpre um papel importante, porque é uma turma que 10 anos atrás não tinha para onde correr. No Rio de Janeiro ainda teve um período que tinha o Jornal do Brasil, mas depois você perdeu isso. O nosso desafio é falar um pouco mais para fora. Nos momentos de eleição até falamos um pouco mais, porque os textos começam a circular pelas redes sociais, listas de e-mail etc. Existe gente que está lendo o seu texto e você não tem a menor ideia.
Você e os blogueiros têm pensado em alguma forma de ampliar essa gama de leitores?
Há muitas estratégias. Eu acho que, para você conseguir falar com um público mais geral, precisa ter menos comentário. Hoje a gente comenta as notícias que os outros produzem, é o “metajornalismo”. Para você conquistar um público um pouco mais geral tem que ter produção própria de conteúdo. Precisa ter repórter, porque as pessoas querem informação. A gente até faz contraponto, mas é preciso reconhecer que dificilmente conseguimos estabelecer uma pauta. Temos discutido e há alguns projetos. Eu acho que o que pega as pessoas é a cobertura local. Por incrível que pareça, a internet serve para você conhecer o mundo, mas ainda tem espaço para o site que fala da cidade. Ninguém cobre bem o noticiário local aqui em São Paulo, por exemplo. Os jornais cobrem muito Brasília e o governo federal porque fazem oposição. E tem uma avenida aberta para cobrir não só questões políticas, mas também comunitárias, a cobertura do dia-a-dia. É fácil fazer esse diagnóstico, mas é difícil montar porque tem que ter recursos. Uma equipe de cinco pessoas, no mínimo, pra começar. Eu acho que, daqui a pouco, os grandes meios vão começar a fazer isso, segmentar, porque têm capital para isso. A gente ouve falar nas reuniões de blogueiros que, em muitas cidades do interior, alguns blogs são o principal veículo de comunicação.
Hoje você enxerga uma possibilidade de vida inteligente, crítica e mais ou menos independente na grande imprensa?
Acho que ainda tem alguns espaços, mas não está fácil não. Eu não gosto de generalizar também, tem gente boa nesses veículos, e nem tudo é política. Tem momentos em que há a cobertura local, em que os controles são um pouco menores. Então tem algum espaço. Mas é difícil, o quadro é um pouco desanimador. Não é só no Brasil, você viu o que aconteceu agora na Inglaterra com essa história do Murdoch. E essa concentração dos meios também, esse cruzamento de interesses de grandes corporações com jornais. Você não sabe mais onde é negócio e onde é entretenimento, onde é informação, mistura tudo nos EUA e na Europa. Na França tem aquela questão da indústria de arma Dassault que é dona da revista L’Éxpress, que é semanal. Então vai tudo se misturando e eu acho que este é um momento muito difícil para fazer jornalismo.
Qual a sua participação nesse movimento dos blogueiros? Em que estágio está a organização?
A gente tem duas instâncias.  O Centro de Estudos Barão de Itararé, que é uma entidade com diretoria e tudo, teve um papel de organizar os encontros dos blogueiros. E, para organizar os encontros nacionais, criamos uma comissão nacional ampla, e agora no terceiro encontro trouxemos mais gente. Haverá um encontro internacional em Foz do Iguaçu. Este tem o apoio do Barão de Itararé e da Altercom, que é outra associação de pequenos empreendedores de comunicação, junto com algumas editoras de pequeno porte, com o apoio de Itaipu para o evento por lá. Mas eu não estou acompanhando de perto.
Esse grupo está começando a articular mecanismos para o autofinanciamento desses projetos que já estão consolidados?
Essa questão da grana a gente chegou a conversar um pouco, mas é complicado você fazer uma ação unificada. Tem blogueiros que são profissionais de comunicação, tem outros que têm um caráter mais militante. Conheço gente que fala que não quer ter remuneração, que diz “eu quero poder falar o que eu quiser de qualquer um”. Então é muito difícil, é caso a caso. Tem outros que já estão vendendo espaço e ganhando algum dinheiro. Os de maior visibilidade, como o Paulo Henrique Amorim e o [Luis] Nassif, têm uma estrutura profissional mesmo, de venda de anúncio, de espaço, e assim vão conseguindo sobreviver e até montar equipes para trabalhar nos blogs. O restante vai tocando do jeito que dá. É um trabalho mais voluntário do que profissionalizado. Eles têm uma articulação política mais do que financeira, mas que também não tem unificação.
Você pode falar sobre a sua denúncia em relação à imediata reação da mídia sobre a entrada do Celso Amorim no Ministério da Defesa?
O que aconteceu é que eu recebi um telefonema de um antigo colega da Globo, que me ligou muito indignado. Não é um amigo, é um cara com quem eu trabalhei. Ele desabafou, dizendo que não sabia mais o que fazer na emissora, porque a situação estava cada vez mais complicada. “E agora nesses dias a gente teve a orientação de cobrir o Celso Amorim sempre com uma perspectiva de crise, porque a sua nomeação vai trazer descontentamento entre os militares”, e me contou a história que estava vivendo dentro da TV Globo. Eu publiquei em off, porque ele trabalha lá ainda, então eu não podia revelar o nome. Eu tinha um relato pessoal, mas quem assistiu à TV e leu os jornais viu como foi a cobertura: parecia que com o Celso Amorim nós tínhamos voltado para a guerra fria.
Você gostaria de fazer mais alguma observação em termos de meio de comunicação no Brasil, que foi o foco da nossa entrevista?
Eu acho que, em 2010, houve um acirramento muito grande nas eleições. Depois disso, a Dilma tentou baixar a bola, tirar a fervura. Foi visitar a Folha, a Globo, fez omelete com a Ana Maria Braga, mas a impressão é de que eles continuam os mesmos. Aliás, eu até preciso fazer um post sobre isso. O FHC reuniu os economistas da época dele para um seminário aqui em São Paulo no Instituto Fernando Henrique. Rapaz, eles vieram com a receita de privatizar mais, cortar mais, vender tudo, vender o Estado. Eles continuam os mesmos, a gente não pode se iludir. A Veja continua a mesma, vimos nessa semana [matéria sobre José Dirceu] o que eles fizeram. A Globo eu acho que ainda está ensaiando, pelas informações que a gente tem há um movimento interno de rever um pouco o que eles fizeram nos últimos anos. Não sei até onde vai.
Você acha que esses princípios editoriais da Globo têm alguma relação com a crise do Murdoch na Inglaterra?
Não. O [Octávio] Florisbal, que é o diretor geral da Globo abaixo da família Marinho, deu uma entrevista interessante para o Maurício Stycer, no Uol, em que ele reconhece que a Globo perdeu o pé de falar para a classe C. A Globo tem dificuldade de falar para esse novo Brasil que surgiu. Ele não faz uma leitura política, é de TV, de comunicação. Quando você assiste a alguns telejornais da Globo, a impressão é que é algo um pouco elitizado. Então ele fez essa espécie de autocrítica, de maneira muito suave, e, na prática, eles estão fazendo alguns movimentos internos de mudança. Eu acho que eles reconhecem que erraram na avaliação de que o Lula era um horror, de que ele ia cair em 2005/2006. Quando tentaram empurrar o Alckmin nas eleições, perderam. Passaram o segundo mandato achando que o Lula ia fracassar. Quando teve a crise de 2008 acharam que o Brasil ia quebrar. Eles perderam todas.
(*) Entrevista publicada originalmente na edição impressa de setembro/outubro do Fazendo Media.

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