Espectro Nocauteador

aldo
Essa é uma história que, sem dúvidas, muito deve se repetir nos lares, por todos os cantos do Brasil. Em um país de amplas oportunidades para poucos e quase nenhuma oportunidade para muitos é comum citarmos os casos de superação e êxito, sem levar em consideração que a grande maioria, sem oportunidade alguma e sem o mínimo de dignidade, jamais chega a lugar algum.
Escrita há alguns anos, ela foi reeditada, aproximando-se, ao menos na parte dramática, da história do campeão de MMA José Aldo Junior, mostrada no filme Mais Forte que o Mundo.
O Brasil que, cada vez mais vem andando para trás, vai se aproximando da sua antiga sina: um país para poucos, que achata, oprime e tira qualquer chance de crescimento dos mais pobres. Quando nos deparamos com essas histórias emocionantes de vitória sobre as dificuldades, veneramos a estrela e passamos a acreditar que com muito suor se chega lá. Mas, a verdade é que menos de 1% alcança essa posição confortável. A grande maioria apenas sobrevive.
Carlos Junior, o protagonista dessa história, ficou conhecido pela região do Catete como “canela de aço”. Apesar da fama de problemático que foi se construindo ao longo dos anos, quem teve a oportunidade de conhecê-lo intimamente pode perceber o imenso tamanho do seu coração. De longe, a cara fechada, marcada por uma enorme cicatriz no supercílio esquerdo, camuflava seu lado humano e carinhoso.
A pequena família, composta pelos pais e um irmão mais novo, saíra do interior de Minas à procura de uma vida melhor no Rio de Janeiro. O pai, mestre de obras, apesar de muito trabalhador, dividia-se entre a dura rotina de trabalho e o bar. O alcoolismo tornara-se o seu maior inimigo. Era comum, depois de vastas bebedeiras, fazer daquele pequeno lar na favela do Catete um verdadeiro inferno.
A mãe, empregada doméstica, fazia de tudo para segurar a barra do marido, na tentativa de não deixar aquele transtorno, quase que diário, abalar a frágil e corroída estrutura familiar. No afã de conter a fúria de Carlos, o pai, muitas vezes tornou-se alvo de sua agressividade.
As dificuldades, impostas por uma vida pobre e cheia de dramas, eram mais um motivo para que os pais sonhassem com uma vida melhor para Junior. Exigiam que ele estudasse para, quem sabe um dia, livrar-se daquela dramática história de pobreza, que se perpetuava de geração em geração.
Mas, com toda aquela rotina miserável e repleta de agressões, estudar tornou-se uma missão impossível para o garoto. A cabeça, quase sempre no mundo da lua, não atingia a concentração necessária para avançar.
Depois de repetir a mesma série duas vezes, motivo de profundo desgosto para os pais, o jovem resolveu trabalhar, numa tentativa de melhorar as condições de vida da família e de se afastar um pouco de casa.
Na adolescência o drama familiar só aumentou. A ansiedade do pai crescia na mesma proporção que sua agressividade. Como Junior não correspondia às suas expectativas, a distância e o silêncio passaram a marcar a relação entre os dois.
O tempo passou e a única coisa que se sabia era que Junior tinha se tornado um adolescente agressivo. Ninguém sabia descrever com precisão o verdadeiro motivo. O que muito se ouvia eram julgamentos perversos sobre o jovem.
Foi nessa época que se iniciou a tal fama de problemático: a cada fim de semana uma nova história de briga chegava até a casa da família.
A mãe, sem saber o que fazer, depositou na fé a esperança de uma vida melhor para o garoto. O pai, enterrado no alcoolismo, optou pelo desprezo, deixando o menino de lado. Para ele, era um desgosto profundo ver que o filho não servia para os estudos.
Todas essas decepções familiares, somadas à agressividade paterna geraram um desconforto muito grande em Junior. Com apenas 16 anos, o menino estava perdido, sem saber que rumo daria para sua vida.
Passou a ser muito comum vê-lo com uma expressão triste pelas ruas. Em casa, o menino só dormia e nos poucos momentos que ficava acordado quase não se comunicava. Quando alguém puxava algum assunto relacionado ao pai ou ao futuro, Junior fechava os punhos e franzia o cenho. Era uma expressão de raiva, que eliminava qualquer possibilidade de continuar a conversa.
Pouco depois, soube-se que o menino começou a lutar. Muay thai era a modalidade oferecida pelo projeto social, próximo de casa. Desde quando ele iniciara no projeto, as histórias de briga diminuíram, mas ainda assim não era suficiente para acalmar o anseio dos pais.
Junior se encantou com a luta. Em pouco tempo aprendeu os movimentos e rapidamente começou a se destacar nos treinos de combate. Apesar de franzino, ele partia para dentro de lutadores mais pesados e experientes. Foi lutando que ele se descobriu determinado, corajoso e extremamente estratégico.
Seu professor percebendo o talento e a coragem resolveu investir na carreira do jovem.
Não vou descrever aqui como foram os duelos em cada campeonato, mas posso dizer que em toda região ele ficou conhecido como “canela de aço”, apelido concedido por aplicar nocautes, com potentes chutes de direita, na coxa de seus adversários.
Apesar da euforia pelo desempenho nas lutas e por ter melhorado um pouco seu comportamento, algo estranho estava acontecendo com Junior. Toda vez que o menino ia fazer algum exercício no saco de pancada ou quando subia no ringue para algum combate, ele dizia ver um rosto espectral nos alvos em que batia.
Isso se tornou cada vez mais comum e Junior começou a ganhar fama de maluco entre os colegas de treino. Ninguém conseguia entender o que é que ele tanto via.
A verdade é que só um grande amigo o escutava com compaixão, mas mesmo assim não conseguira decifrar a suposta maluquice. Os demais colegas, como já foi dito, quando não riam, o chamavam de louco.
O problema fora se agravando. Foi se tornando comum ver Junior, no meio de uma combinação de socos e chutes, desabar em um choro profundo. E quando não era choro, eram gritos assustadores.
A mãe foi chamada no projeto. Sem jeito, o professor relatou os fatos timidamente. Segundo ele, não havia muito que fazer. Desesperada, a mãe procurou ajuda da patroa, médica, que recomendou um hospital psiquiátrico. Pinel foi o destino do lutador.
Desde então, a única coisa que se sabe é que nesta sexta-feira faz dez anos que Junior está internado. O pai, praticamente um indigente, tornou-se pedinte. Com o trocado que arruma passa o dia bebendo. A mãe, envelhecida pela dor, mantem-se trabalhando, mesmo sem ter nenhuma condição física e psicológica. É o único jeito de sobreviver.
E aqui no Catete, ninguém mais se lembra do nosso campeão, “canela de aço”.
Foto(*): blogcascagrossa.wordpress.com

Um comentário sobre “Espectro Nocauteador”

  1. Não gosto de exceções. As oportunidades deveriam ser a mesma nesse país . O final desta história se repete todos os dias neste país. Essa que a pessoa A deu e certo pelo seu esforço e a pessoa B não foi bem sucedida pelo fato de não ser esforçada é comum ,infelizmente.

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