Escolas de formação missionária: avançando no caminho, superando obstáculos de percurso.

Enquanto escrevemos estas linhas, sentimo-nos mergulhados em uma conjuntura de grande complexidade. Sobram-nos desafios. Não bastassem as provações pelas quais vimos atravessando, em decorrência da emergência climática – com catástrofes vitimando populações do nosso País (Bahía, Minas Gerais, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro – especialmente Petrópolis e região serrana – ), eis que nos sobrevêm o desencadeamento da Guerra entre OTAN e Rússia (que não começou agora!), tendo na Ucrânia o centro dos embates. Cabe-nos, em um caso e outro, solidarizar-nos com as vítimas, ao mesmo tempo empenhado-nos para combater as verdadeiras raízes do mal. 

Provisoriedade, incertezas, inseguranças são marcas conhecidas em toda experiência humana, inclusive de peregrinação. Reconhecer e saber lidar com este traço do nosso inacabamento nos inspiram e fortalecem a confiança no grande protagonista de nossa missão de discípulos e discípulas do Caminho. Isto vale tanto para nossa caminhada das Escolas de Formação Missionária quanto para o acompanhamento mais de perto de outras experiências eclesiais em curso em âmbito universal (o Sínodo da Sinodalidade), em âmbito continental (Assembléia Eclesial), em âmbito nacional (XV Encontro das CEBS).

Tendo seus primeiros núcleos fundadores em Tacaimbó – PE e em Salgado de São Félix – PB, em 1969, a Teologia da Enxada constituiu-se tal como uma dezena de experiências similares que a têm marcado (dentre as quais as Escolas de Formação Missionárias, uma das expressões eclesiais latino-americana das mais frutuosas).

Como tantas outras experiências eclesiais, as Escolas de Formação Missionárias, por estarem impregnadas das vicissitudes históricas, se movem na provisoriedade. Eis por que, em seus trinta e três anos, para assegurarem sua continuidade, tiveram que fazer ajustes internos à sua realidade conjuntural, respeitando porém seus eixos fundantes, mas antes focando em diversos pontos de sua modalidade organizativa. Quem tem acompanhado de perto esta caminhada, pode lembrar-se da lucidez e ousadia com que Pe. José Comblin enfrentava tais desafios.

No que toca especificamente (mas não exclusivamente) à Escola de Santa Fé, temos observado, já há alguns anos, as dificuldades de manutenção de turmas de tamanho razoável. Não obstante o sério empenho de sua coordenação, as turmas vêm apresentando um persistente “déficit” de participantes. Nas avaliações realizadas, um ponto recorrente que aparece, tem a ver com a duração presencial de cada período de formação: trinta dias.

Por certo, não fora casual a exigência do período de um mês a duração dos encontros formativos das Escolas. Estava ancorada em sólidos argumentos pedagógicos. Uma formação missionária com aquelas características requeria uma convivência mais densa, que passasse um conhecimento mais firme entre os participantes, de modo a fortalecer os elos fraternos voltados aos alicerces missionários. De fato, enquanto se pôde cumprir esse requisito, há de se reconhecer a propriedade daquele requisito. Sucede que também este critério está sujeito às descontinuidades conjunturais. As instabilidades do emprego, das relações familiares, dos estudos e principalmente da pandemia.

Intercorrência deste tipo faz parte de nossa caminhada eclesial. Ao longo de tantos anos de trabalho e atividades comunitárias, tivemos que enfrentar e superar suas dificuldades.

Ensaiando passos de superação

Em um primeiro momento parece compreensível, diante das primeiras manifestações do problema (no caso) a progressiva redução de membros das turmas, certa resistência da parte de algumas pessoas, com a reiteração do problema e das avaliações acaba por despertar-se para o enfrentamento do problema. É nesse sentido, que ousamos trazer à consideração das pessoas envolvidas, alguns passos concretos:

  • Consultar os egressos e egressas de nossas Escolas Missionárias

Não se trata de recorrermos a tantos e tantas que passaram pela formação inicial de nossas Escolas Missionárias apenas em função deste desafio. Em verdade, a proposta de formação de nossas Escolas Missionárias se faz fortemente pela continuidade dos estudos e das atividades, durante toda a vida, e portanto, para muito além do período inicial de formação. Não obstante, com muito mais razão, devemos recorrer ao conjunto das várias gerações que já passaram por nossas Escolas, diante do atual desafio. Nós nos associamos, nesse sentido, a diversas figuras de nossa caminhada que já vêm acenando para este apelo, inclusive como atividade preparatória para a III Romaria Pe. José Comblin, a realizar-se, em Santa Fé, de 24 a 26 de março de 2023, como comemoração aos 100 anos de vida de Pe. José Comblin

  • Ensaiar passos de parceria com outros grupos de caminhada

A despeito da conhecida especificidade do processo formativo de nossas Escolas Missionárias, devemos reconhecer que iniciativas de parceria desde que firmadas em critérios condizentes com o nosso processo formativo, não apenas não resultariam nocivas como poderão representar ganhos valiosos e comuns. Estamos conscientes de que deste mesmo processo formativo participam, ainda que cada grupo a seu modo, várias outras comunidades unidas pelo mesmo propósito. Por exemplo, como negar tantos pontos comuns que podemos observar na caminhada de grupos, associações e movimentos integrantes da Igreja na Base? Deste amplo conjunto fazem parte coletivos tais como o CIMI, a CPT, a PJMP, o SPM, as CEBs, as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular, o CEBI, entre tantos outros. Isto não quer dizer que vamos propor parceria com todos eles, ou mesmo com alguns, sem um necessário discernimento na tomada de iniciativa.

  • Combinar encontros presenciais com encontros virtuais

Um dos modos que encontramos para lidar com a pandemia, a restringir encontros presenciais, foi o de organizar encontros virtuais, graças aos quais pudemos manter nossos trabalhos. Sabemos que tal recurso não constitui o ideal. Os encontros presenciais são vitais para uma formação comunitária de missionários e missionárias. Não obstante esses limites, não podemos nos queixar – muito pelo contrário – dos recursos virtuais, mesmo quando o estado de pandemia ficar para trás.

Neste sentido, sugerimos, ao lado dos encontros presenciais periódicos (a cada 3 meses?), que recorramos aos encontros virtuais de formação como complemento do processo.

  • Aprimorar nosso processo formativo, seja nos conteúdos, seja na metodologia

Como acima mencionado, faz parte do nosso processo formativo o compromisso de contínuo aprimoramento, seja na forma, seja no conteúdo. No que toca ao conteúdo, ainda que já venha sendo seguida uma diversidade temática, em substituição às “disciplinas”, podemos aprofundar este procedimento, sob alguns aspectos: selecionar melhor, em uma ampla lista de temas, aqueles (uma meia dúzia) que forem mais capazes de responder melhor aos atuais desafios da Missão. Ao mesmo tempo, nesse exercício de discernimento, optar por temas mais abrangentes, capazes de conter assuntos correlatos, seja quanto aos critérios axiais do nosso processo formativo (missão; realidade social; bíblia – com maior destaque para os textos neotestamentários sem exclusão do antigo testamento; História da Igreja; celebrações litúrgicas; entre outros), seja no tocante à metodologia de estudos. Neste último caso, mantendo, por um lado, o que já vem sendo vivenciado, e, por outro lado, acentuando-se dois procedimentos:

  • Sublinhar, em cada tema trabalhado, suas íntimas conexões com os demais temas. Por exemplo, nos estudos bíblicos, explorar cada assunto tomando-se em consideração suas ligações com todos os demais temas;

  • Assegurar, entre os estudos de cada mês, tarefas individuais e comunitárias, a serem apresentadas e avaliadas, no mês seguinte;

  • Viabilizar a qualidade dos estudos propostos para além da formação inicial. Tendo em vista as comemorações do centenário do Pe. José Comblin, propomos tomá-lo como um tema específico, em nosso processo formativo, por meio inclusive, de seminários sobre a figura de missionário e de educador do Pe. José.

Eis, em breve, algumas propostas que submetemos a reflexão de quantos e quantas protagonizam o processo de formação missionária, em nossa região.

João Pessoa, 02 de março de 2022.

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