
Onde havia solo morto no Semiárido brasileiro, sistemas agroflorestais inspirados em Ernst Götsch estão revertendo a desertificação, recuperando água e vida em apenas três anos.
Publicado em 02/02/2026 às 12:03
Pouca gente associa o Semiárido brasileiro à ideia de floresta. A imagem mais comum é a de solo rachado, vegetação rala e longos períodos sem chuva. Mas, em áreas onde o processo de desertificação já dava sinais claros de avanço, agricultores estão provando que esse destino não é inevitável. Em vez de abandonar a terra ou insistir em modelos que esgotam o solo, eles passaram a copiar o funcionamento da própria natureza e os resultados começaram a aparecer em tempo surpreendentemente curto.
O ponto de partida é aceitar uma mudança radical de perspectiva. Não se trata de “dominar” o ambiente, mas de reconhecer que o solo, as plantas, os microrganismos, os animais e a água fazem parte de um sistema integrado. A degradação que hoje ameaça cerca de 13% das terras do Semiárido brasileiro, segundo dados do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas, é consequência direta de décadas de desmatamento, uso intensivo do solo, queimadas e pastagens mal manejadas.
É justamente nesse cenário que a agrofloresta surge como resposta prática a um problema histórico.
A lógica da agricultura sintrópica e o fim da ideia de “combater” a natureza
A base do sistema adotado nessas áreas vem da agricultura sintrópica, método difundido no Brasil pelo suíço Ernst Götsch desde os anos 1980.
A ideia central é simples e, ao mesmo tempo, profunda: a natureza já passou por bilhões de anos de evolução testando soluções eficientes. Copiar essa lógica é mais inteligente do que tentar forçar plantas e animais a sobreviverem em condições cada vez piores.
Em vez de monoculturas expostas ao sol intenso e à erosão, o sistema agroflorestal reproduz os “andares” de um ecossistema natural. Árvores altas, espécies médias, arbustos, plantas rasteiras e culturas agrícolas convivem no mesmo espaço, cada uma cumprindo uma função ecológica. Algumas produzem alimento, outras fornecem sombra, matéria orgânica, cobertura do solo ou suporte à biodiversidade.
Insetos, fungos e bactérias deixam de ser vistos como inimigos. No método sintrópico, eles são indicadores de desequilíbrio. Quando aparecem em excesso, o problema não é o organismo em si, mas a falha no sistema que precisa ser corrigida.
Do pasto degradado ao “oásis” verde no Semiárido
No Semiárido, esse conceito ganhou forma prática em propriedades que estavam à beira da desertificação. Um dos exemplos mais emblemáticos envolve uma área de 1,8 hectare — equivalente a cerca de dois campos de futebol — que havia sido usada por anos como roça de milho, mandioca e, depois, como pastagem para gado. O resultado foi previsível: solo compactado, empobrecido e praticamente sem vida.
O primeiro passo para a recuperação não foi plantar árvores, mas preparar o terreno para receber água. Foram abertas valetas ao longo das curvas de nível, permitindo que a água da chuva infiltrasse no solo em vez de escorrer superficialmente e levar consigo a pouca fertilidade restante.
Esse detalhe técnico é decisivo em regiões semiáridas, onde cada milímetro de chuva precisa ser aproveitado ao máximo.
Em seguida, veio o plantio intensivo e planejado. Espécies adaptadas à Caatinga, como palma, sisal, mandacaru, umburana, aveloz e apiteira, foram combinadas em espaçamentos de aproximadamente um metro e meio. Essas plantas formam o que os agricultores chamam de “matriz fotossintética”: espécies capazes de realizar fotossíntese durante todo o ano, independentemente do regime de chuvas.
Três anos depois: solo vivo, fauna de volta e verde permanente
O resultado começou a aparecer em apenas três anos. Onde antes havia solo duro e nu, passou a existir cobertura vegetal permanente.
A matéria orgânica acumulada pelas podas frequentes — parte essencial do método — criou uma camada rica em nutrientes, semelhante à terra preta encontrada em florestas maduras.
Essa cobertura protege o solo do calor extremo, reduz a evaporação e cria um microclima mais úmido. Cogumelos, microrganismos e pequenos animais voltaram a ocupar o espaço, sinal claro de que o solo deixou de ser um substrato morto.
“Plantar água”: como a floresta faz a água voltar
Um dos conceitos mais repetidos por Ernst Götsch e seus seguidores é o de que “água se planta”. A afirmação pode soar estranha à primeira vista, mas tem base ecológica sólida. Florestas aumentam a infiltração da água no solo, alimentam lençóis freáticos e reduzem a erosão. Com o tempo, isso permite que nascentes e riachos voltem a correr de forma permanente.
Em áreas degradadas onde antes riachos haviam desaparecido, a recomposição da vegetação original levou à recuperação do fluxo de água ao longo de todo o ano. No Semiárido, esse efeito é ainda mais valioso, pois diminui a dependência exclusiva das chuvas concentradas em poucos meses.
O orvalho noturno, chamado localmente de “valho”, também passa a ter papel importante. A vegetação densa cria condições para que essa umidade seja captada diariamente, contribuindo para o balanço hídrico do sistema mesmo em períodos sem chuva significativa.
Um modelo que começa a escalar e atrair grandes empresas
O sucesso dessas experiências não ficou restrito a pequenas propriedades. O trabalho de Ernst Götsch em sua fazenda de 500 hectares em Piraí do Norte, no sul da Bahia, transformou uma área altamente degradada em referência internacional de recuperação ambiental produtiva.
Esse resultado chamou a atenção de grandes empresas. Grupos como Michelin e Pão de Açúcar já recorreram ao método para orientar projetos de produção agrícola e de borracha em larga escala, seguindo os princípios da agricultura sintrópica.
Produção, conservação e futuro no Semiárido brasileiro
O que essas áreas demonstram é que produção agrícola e recuperação ambiental não são opostos. Ao contrário, quando o sistema é bem desenhado, a produtividade surge como consequência da saúde do ecossistema.
A agrofloresta dispensa agrotóxicos e adubos químicos, reduz custos de produção e cria sistemas mais resilientes às mudanças climáticas. Em um contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes, essa resiliência pode ser a diferença entre manter a terra produtiva ou perdê-la definitivamente.
No Semiárido brasileiro, onde o risco de desertificação é real e crescente, essas florestas jovens mostram que o deserto não é um destino inevitável. Ao copiar a inteligência do sistema natural, agricultores estão provando que é possível regenerar o solo, recuperar a água e garantir produção com saldo ambiental positivo.
A pergunta que fica não é se esse modelo funciona — os resultados já estão à vista — mas até que ponto ele será adotado em escala suficiente para mudar o futuro de uma das regiões mais desafiadas do país.
