Equipe Poderosa, Furacão 2000, e Quem Não Gostou…

furacao
Voltemos à eleição passada, ou melhor, duas atrás. A disputa se dividia entre um suposto programa neoliberal, com viés excludente, e um programa progressista, que pretendia estender a equiparação social.
Da oposição ouviam-se críticas ao crescimento do Estado e denúncias contra programas sociais. A artilharia mais pesada voltava-se contra a corrupção, mesmo com a grande maioria sendo beneficiária dela. Obviamente jamais ousaram debater uma mudança no sistema. Nunca foi essa a intenção do lado de lá.
A linha dura da oposição não era encarada pelo governo vitorioso. Optava-se por um Brasil unido, sem adentrar na linha preconceituosa aderida pela direita, que pretendia dividir e colocar tudo a risco.
Enquanto alguns criticavam o Programa Mais Médicos, com palavras racistas direcionadas a médico cubanos, o governo ia diminuindo a mortalidade infantil no interior do país.
Enquanto diziam que o Bolsa Família era programa assistencialista que visava apenas angariar votos, vimos o emponderamento da mulher e uma nova realidade do jovem pobre, que passava a frequentar a escola ao invés de ir trabalhar. A expressão “tem que ensinar a pescar e não dar o peixe” era deixada de lado, como se nela não houvesse teor de preconceito.
O sistema de cotas foi outro absurdamente criticado. Fizeram oposição, afirmando que o programa enaltecia o preconceito e denunciando o uso do benefício por quem não precisava. Fingiam uma linha crítico-construtiva, omitindo-se do atraso histórico da escravidão. Valia tudo para desqualificar o sistema.
E o governo ia passando por cima, evitando a todo custo perder tempo com as críticas destrutivas ou embarcar na polarização. Precisava-se de um Brasil unido e de certa forma cego para a divisão classista e todo o racismo cultural. E assim ia se tocando o barco para frente.
Fomos andando, avançando, inclusive entubando o fato de beneficiários dos programas sociais como Fies, Prouni e Ciências sem Fronteiras serem críticos ferrenhos do governo, fortalecendo a oposição.
O tempo foi passando e cada vez mais o perfil mesquinho de parte dos brasileiros ficou evidente. A crítica moralista mostrou-se protegida por um cobertor curto que deixava descoberto o ódio racista, classista.
E chegamos aos dias atuais, onde o Brasil, além de parado, corre o risco de retroceder em suas conquistas históricas.
O grito da oposição, que se fortalecia com as denúncias de corrupção, caíra no descrédito. Praticamente toda a base golpista está envolvida em maracutaias. Mas isso não parece empecilho e freio para uma militância que diz querer o fim da corrupção, mas não se importa que a linha sucessória seja Temer/Cunha. Já imaginaram os dois juntos “lutando” pelo fim da corrupção e pelo “aprimoramento” da Lava Jato?
O trabalhador, que se via com um pé nas classes altas, não enxergava de onde vinha todo aquele avanço. Creditavam à ascensão social que possibilitou o consumo, estudo e a tão sonhada casa própria a um passo de mágica. O velho barbudo era demonizado junto a sua sucessora, que sofria duramente os traços misóginos da sociedade brasileira.Eram vistos como corruptos incapazes e jamais como benfeitores.
Mas se antes o oprimido não se via como tal, as coisas começam a mudar também. Aos poucos muitas coisas vão aparecendo e muitos vão percebendo que o programa da direita exclui grande parte da sociedade do processo de melhora. Os preconceitos vão ficando cada vez mais evidentes.
A informação e a agressão vão chegando gradativamente. E cada um vai se enxergando como verdadeiramente é e não como gostaria de ser. E a famosa luta de classes, descrita por Karl Marx, se mostra mais atual que nunca. Como uma estrutura diferente, partindo do princípio que aqui o racismo cultural fala muito mais alto.
E se até então muitos não tinham visto de perto ou fingiam não ver as diferenças, teremos a possibilidade de mostrar, em território hostil, que o preconceito odioso está mais vivo do que nunca e é a base de tudo.
A luta contra o golpe embarcará nas praias da Zona Sul, entoados pelo funk carioca. E, talvez agora, o oprimido, politicamente desavisado, irá perceber o que a turma de verde amarelo deseja para ele. Vamos ver até onde vai a tolerância dos que se opõem ao governo. Veremos se o preconceito é contra o funk ou contra o funkeiro de raiz, normalmente de origem pobre, historicamente oprimido e marginalizado.
E por mais que tenha se evitado que as feridas da diferença ficassem expostas, a tentativa de golpe e toda a retórica preconceituosa e excludente inflamou a sociedade e agora, os golpistas vão ter que aturar a furiosa Furacão 2000 e toda a tribo do funk, nas areias de Copacabana.
E como diz o grito de guerra da Furacão: “Equipe poderosa, Furação 2000. E quem não gostou…”.

2 comentários sobre “Equipe Poderosa, Furacão 2000, e Quem Não Gostou…”

  1. Quando o assunto é igualdade e oportunidade para todos, as classes dominantes tem pavor. São palavras que soam como ofensas .
    De um lado está uma minoria que encontra-se no poder há mais de Quinhentos anos e não querem largar a parte nobre da carne. Esse grupo é pequeno ,todavia é poderoso e perverso. Tem o poder nas mãos podendo manipular .
    Do outro lado há um outro grupo que está arrobando a porta da senzala e querendo passagem para ser incluindo na sociedade . Exigindo os mesmos direitos . Dentro desse grupos encontram-se os mesmos atores sociais com suas antigas reivindicações e novas demandas. Parto do principio que estamos numa luta de classe e a classe dominante nunca aceitará ser comparada a classe trabalhadora .
    Sou do segundo grupo . Chega de sermos coadjuvante. Chegou o momento de ocuparmos os mesmos espaços privados até então exclusivo para os dominantes . Para isso temos que sentarmos nas cadeiras universitárias e formarmos novos formadores de opinião e irmos de contra partida ao discurso dominador.
    Fecho com refrão de Tom e Vinicius”_ O morro não tem vez
    E o que ele fez já foi demais
    Mas olhem bem vocês
    Quando derem vez ao morro
    Toda a cidade vai cantar”

  2. Esse assunto até aparenta bastante batido, mas não tem outra forma de se lutar intelectualmente contra a opressão senão pelo debate e pela voz ativa dos oprimidos. Quem está do outro lado nada vai fazer para mudar o estado de coisas que só o beneficia nem vai ligar para o clamor dos sofridos. Eu também faço parte dessa minoria, que na verdade é maioria, por isso sinto na carne esse problema. Não na parte da exclusão por classe econômica pois sou servidor público, mas quanto à cor e à sexualidade sempre sofri muito e essa opressão se manifesta das mais atrozes maneiras e sempre há conotação psicológica e muitas vezes o opressor nem percebe que está cometendo os atos que repete de outros e este de outros, por séculos. Sempre sou visto como alguém que tem que justificar os seus atos mínimos, cada palavra, cada gesto, até a aparência é analisada e julgada de forma opressora, mesmo que nada possam fazer quanto à minha formação moral e intelectual, mas cheguei a essa conclusão recentemente, depois de passar a vida toda tendo que me explicar e afirmar pelas mínimas coisas. Este grito aqui parece de uma voz só, mas sei que é o mesmo de todos que se encontram na minha situação e muito longe encontra-se de ser vitimização ou exagero. Por isso que só tem esta saída aqui de lutar como pudemos, é luta de classes mesmo, como bem analisado pelo cronista. Temos que fazer essa militância intelectual aqui nesta poderosa ferramenta midiática, assim como sair às ruas e agir em movimentos e organizações de defesa das minorias, militar pela abertura da mente de quem ainda encontra-se na alienação quanto ao poder maléfico social desse sistema capitalista extremado e a direita política de linha econômica neoliberal que só excluem mais os excluídos e só favorecem que detém o capital e o poder de ditar regras a todos. Vamos à luta todos e atentem-se que as minorias precisam mesmo de proteção real e empoderamento para fomentar o equilíbrio de forças com a elite e compensar e corrigir injustiças históricas.

Deixe uma resposta