Equador: nova prova de fogo para os governos progressistas

Ex-vice-presidente Lenín Moreno, candidato a presidente pela Aliança País (Foto: Página/12).
Ex-vice-presidente Lenín Moreno, candidato a presidente pela Aliança País (Foto: Página/12).

A continuidade do governo da Aliança País (partido liderado pelo presidente Rafael Correa) tem uma projeção continental que excede o âmbito estritamente equatoriano. Uma nova derrota das forças progressistas e de esquerda no Equador ratificaria o esgotamento do impulso ascendente das lutas populares na América Latina, isolaria os governos de Evo Morales e Nicolás Maduro, e robusteceria as esperanças das forças de direita.
Por Atilio Boron (*) – do jornal argentino Página/12, edição de 14/01/2017 – Tradução: Jadson Oliveira (o título e o destaque acima, bem como os intertítulos e a disposição dos parágrafos, são desta edição; título original: Ecuador debe mirar al Sur)
No dia 19 de fevereiro próximo serão realizadas eleições presidenciais no Equador. Será uma nova e decisiva prova de fogo para os processos progressistas e de esquerda que se abriram na América Latina desde finais do século passado. No último ano tais processos sofreram várias derrotas a partir do aziago momento em que pouco mais da metade do eleitorado argentino decidiu que era necessário mudar – sem se perguntar em que direção e sob qual liderança – e dar uma oportunidade a uma aliança de direita que, na campanha eleitoral, havia jurado que manteria “tudo de bom” feito pelo kirchnerismo e corrigiria o que estava ruim.
O que ocorreu em seguida desmascarou o caráter absolutamente demagógico dessas promessas porque, uma vez na Casa Rosada, o governo de Mauricio Macri pôs em marcha um programa encaminhado a desandar o caminho transitado nos 12 anos anteriores. A bem conhecida “restauração conservadora”, que hoje esmaga e oprime o povo argentino.
A derrota do kirchnerismo, em novembro de 2015, foi o prelúdio de um perverso “efeito dominó”, cujas principais marcas foram o revés sofrido pelo governo bolivariano da Venezuela nas eleições da Assembleia (Congresso) Nacional de dezembro de 2015; o que experimentara o presidente Evo Morales no referendo de fevereiro de 2016 e o inesperado – e lamentável – resultado do convocado pelo presidente Juan Manuel Santos pela paz na Colômbia, em outubro do ano passado.
Esta sucessão de tropeços adquire uma dimensão desoladora quando a eles se soma o “golpe institucional”, ou “golpe brando”, desferido contra o governo de Dilma Rousseff no Brasil, apelando a diversos dispositivos de caráter pseudo-legal e francamente inconstitucionais, os quais, no entanto, não impediram a destituição da presidenta brasileira, afundando o país numa crise política e moral que potencia a já por si gravíssima crise econômica.
O ferrão das ferozes oligarquias
Neste cenário, a iminente eleição equatoriana adquire uma importância transcendental. Muitos latino-americanos confiamos em que uma vitória da candidatura da Aliança País (partido governista), presidida por Lenín Moreno, poderia marcar o princípio da derrocada da contraofensiva reacionária orquestrada a partir de Washington e cujo objetivo é voltar à situação em que a América Latina e o Caribe se encontravam ao anoitecer de 31 de dezembro de 1958, véspera do triunfo da Revolução Cubana. Esse é o objetivo estratégico – expressado com uso e abuso de eufemismos para ocultar tão inconfessáveis desígnios – em diversos documentos oficiais do governo dos Estados Unidos quando, com melíflua linguagem, falam de “restabelecer a paz e a segurança” no Hemisfério Americano.
É por isso que a continuidade do governo da Aliança País tem uma projeção continental que excede o âmbito estritamente equatoriano. Uma nova derrota das forças progressistas e de esquerda no Equador ratificaria o esgotamento do impulso ascendente das lutas populares, isolaria os governos de Evo Morales e Nicolás Maduro, e robusteceria as esperanças daqueles que, a partir da direita e com o concurso de alguma esquerda que faz tempo perdeu a bússola, profetizam com o apoio dos meios de comunicação do império o “fim do ciclo progressista” e nos empurram para um salto no vazio, optando por uma “mudança” aparentemente inocente, mas que nos colocaria, mais uma vez, debaixo do ferrão das ferozes oligarquias da região.
Esta aposta pela continuidade do governo da Aliança País não significa ignorar as conquistas ainda pendentes, ou os erros e problemas suscitados na gestão governamental ao longo destes anos – tema sobre o qual o heterogêneo arco opositor matraca sem cessar. Porém, mesmo reconhecendo este aspecto, é preciso se perguntar, com total honestidade, qual o governo neste mundo está isento de críticas?
Maquiavel dizia de modo velhaco em O Príncipe que nem sequer os principados eclesiásticos, que contavam com a proteção direta de Deus, estavam a salvo dos males da política. Como poderia um principado terreno, comum, estar isento deles? Por isso é preciso valorizar as importantes mudanças que tiveram lugar nos últimos anos no Equador. Os que há muitas décadas visitamos esse país comprovamos que mudou muito, e para melhor, e que seria imperdoável que essas transformações não fossem resguardadas e fortalecidas, jogando-as fora em busca duma “mudança” que todos sabemos para onde se dirige: reconstruir a velha trama social da desigualdade, iniquidade e opressão que caracterizou esse país durante séculos.
Olhem o que ocorre na Argentina e Brasil
E aqueles que tenham dúvidas, olhem o Sul. Olhem o que está ocorrendo na Argentina ou no Brasil e verão, nesses tenebrosos espelhos, o que poderia esperar o Equador no caso da direita voltar ao governo. No Equador de hoje pouco ou nada tem a ver com o que conhecemos no passado. Seu governo é um exemplo de que mesmo um país com uma economia pequena, altamente vulnerável, carente de moeda própria (e, portanto, sem poder lançar mão de um instrumento fundamental de manejo macroeconômico: a política monetária) e rodeado de vizinhos que se submeteram sem chiar à hegemonia norte-americana e firmaram gravosos tratados de livre comércio que prejudicaram a competição das exportações equatorianas e com um governo acossado sistematicamente pelo império, através dum enxame de organizações sociais, falsas ONGs, forças políticas e meios de comunicação que atacaram duramente o presidente Rafael Correa;
Mesmo sob tais condições, dizíamos, o governo da Aliança País demonstrou que foi possível construir uma sociedade melhor – reduzindo significativamente a pobreza, garantindo o acesso à saúde, educação e mobilidade a setores secularmente privados de tais direitos, desenvolvendo uma impressionante infraestrutura de transporte e comunicações e exercendo uma política exterior latino-americanista e independente – e que, por isso, não se deve poupar esforço algum para garantir a continuação e aprofundamento deste processo vital.
A crença de que, sobre a base de maximizar os equívocos e insuficiências que tem todo processo político real, uma mudança política possa ser para melhor no Equador; que a oposição atuará patrioticamente, sem ânimo revanchista e sem intenções de reverter algumas das maiores conquistas do governo do presidente Rafael Correa, e que, como prometeu Mauricio Macri na Argentina, se consolidaria “o que estava bem” e se “corrigiria o que estava mal”; uma tal crença, em síntese, é uma mostra de pura inocência, no melhor dos casos.
Por isso exorto meus amigos e amigas equatorianas, vários dos quais me fizeram conhecer sua insatisfação com o governo atual, que olhem o que nos está ocorrendo no Sul. Por trás duma linguagem edulcorada essa direita equatoriana e seus mandantes do império têm o perverso propósito de fazer voltar o relógio da história ao passado, encobrindo tão sinistros desígnios com um oco palavrório progressista e republicano que enganou muita gente na Argentina e Brasil e que agora, vendo o monstro em ação destruindo metodicamente as conquistas da última década, está arrependida por haver caído no ardil de que “tudo é igual. Que Dilma era a mesma coisa de Aécio. Que Scioli era a mesma coisa de Macri”. E não era assim, não foi assim, e agora está pagando as consequências de tão funesto erro.
Espero que nesse querido país que se chama Equador não se reitere o ocorrido no Sul. Os candidatos podem, vamos admitir como uma hipótese, parecer iguais, mas não o são porque personificam processos históricos e forças sociais muito diferentes, e seria um equívoco fatal ignorar tal coisa. Por isso, pelo Equador e seu futuro; pela América Latina e seu futuro é imprescindível assegurar a vitória da Aliança País em 19 de fevereiro. Seria, tenho essa esperança, o início duma contraofensiva popular destinada a erigir um dique à “restauração conservadora” do império.
(*) Atilio A. Boron é sociólogo e cientista político. É argentino e se diz latino-americano por convicção.

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