Entre uma crise e outra, segue o sistema

A greve é um direito conquistado ao longo do último século sob muito custo. A história é bem documentada e não cabe aqui mais sobre isso. O que vale destacar é a fragilidade da nossa ‘democracia’ e, pior, deste modelo de democracia que tenta se impor pelo mundo de cima pra baixo.

Qualquer categoria de trabalhadores têm (ou teria, na teoria) o direito de reivindicar direitos. No limite, a greve é um recurso. No entanto, a nossa atual democracia pressupõe que o Estado (com ‘E’ maiúsculo) tem o monopólio da força. Perguntamo-nos, então: e quando os responsáveis, lá na ponta, por este monopólio decidem fazer, eles próprios, uma greve? E quando o Estado – ou a própria categoria organizada – não consegue ter o controle pleno destes ‘responsáveis pelo monopólio da força’?

Ora, este não é (apenas) um problema daqueles que, na ponta, acabam por esquecer o Estado de Direito e pegar nas armas do Estado para realizarem o que quer que seja. Este é um problema do próprio Estado de Direito. O problema, parece evidente, é anterior. Nasce de uma falha de não responder adequadamente esta questão e, mesmo assim, tentar resolver um modelo falho.

Antes de discutir os valores morais de quem quer que seja, ou mesmo produzir matérias sensacionalistas sobre o drama na Bahia (ou do Rio, da Paraíba etc etc), é preciso urgentemente olhar para o contexto – a insatisfação em diversas categorias com o pouco reconhecimento por parte do Estado.

Enquanto o Estado continuar dirigindo recursos para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública federal (em 2011, R$ 708 bilhões ou 45% do Orçamento Geral da União), ficará difícil melhorar o salário de profissionais tão importantes para o futuro do país, como os professores, os médicos e profissionais da saúde ou os profissionais da segurança.

Enquanto estagiários de alguns setores continuarem ganhando mais do que o professor ou o policial, ocorrerão certamente estas “crises” – que nem são, aliás, exatamente crises, pois seguem um padrão recorrente e poderiam ser consideradas, portanto, um desenvolvimento perfeitamente previsível.

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