Entre um dia e outro

Da escuta de si

Da visão de si

Ver a si mesmo, a si mesma

Escutar a mim. Me escutar.

Abrir as oiças para o que o meu corpo e a minha historia têm a me dizer

Desde que me conheço por gente –lá se vão já mais de 68 anos—havia sempre alguém a dizer o que devia ser feito. O que era o que. Como deviam ser as coisas.

Desfazer esta invasão e recuperar a mim mesmo, é tarefa para o dia a dia.

Escutar a mim mesmo é ver a mim mesmo.

Parar, deter o hábito de agir continuamente, fazer, fazer, fazer e fazer.

Parar um pouco e ver.

Como aqueles sinais que diziam, ao lado do cruzamento da ferrovia: Pare, olhe, escute. Cuidado com os trens.

Os trens foram passando, até que se foram. Ficaram as rodovias, mas a velocidade é a mesma. A mesma pressão. Rápido, vai logo, não há tempo.

Agora tenho tempo para olhar, ver, escutar. Tomar cuidado com as repetições automáticas, que forçam para uma semi-vida, de tanto inconsciente.

Vejo que vida em si mesma mudou bem pouco, conquanto tenha mudado muitíssimo. Mudou e não mudou.

No âmbito interno, no acordar e no dormir, continua a ser mais ou menos a mesma coisa. Uma fragilidade que fortalece. Um ir por entre as brechas.

No âmbito maior, esse que nos chega de tantos lados ao mesmo tempo, que atordoa, as coisas são também parecidas a como eram antes.

Guerras, exploração, destrato, violência, abuso, impunidade, atropelo, desrazão, descuido. Eu não posso mudar isto, apenas, como tenho feito, enfrentar e passar.

Seguir adiante.

Não é indiferença. Apenas uma questão de alcance. O que é que está ao meu alcance? Isto posso tocar, posso melhorar, posso deixar a minha marca.

Tenho deixado marcas, e também recebido marcas.

Marcas são a vida. Cicatrizes, sentimentos que devo acolher dia a dia. Página a página. Folha a folha.

Ver o que é, e ter paciência comigo mesmo. Isso já passou. Agora é outro tempo.

Ocorre que o bombardeio é tão intenso e frequente, que não deixam tempo para que possamos respirar.

Querem nos culpar pela desigualdade social, pela corrupção, pela delinquência política institucionalizada, pela catástrofe ambiental e social.

Isto é uma canalhada!

Temos o direito de desfrutar da vida, descansar, ver as flores crescerem, como não queriam. Desabafo estes sentimentos na certeza de que não estou sozinho.

Entre um dia e outro dia, entre uma folha e outra folha, entre uma hora e outra, minuto a minuto, a vida continua a passar.

Amanhã vai ser outro dia.

Faço meu lugar escrevendo. Nunca a minha escrita deixa de ser um grito, um canto de esperança.

Um espaço que ocupo todo dia, como quem faz e refaz o castelo à beira do mar, mesmo sabendo que será inevitavelmente destruído pelas ondas.

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