Entre o desastre aéreo e outras mortes silenciosas

fabio nogueiraO mundo compadeceu com o desastre aéreo que resultou na morte de setenta e seis pessoas, dentre as quais quase todo o time do Chapecoense. Só se salvaram três da tragédia. Eram jovens com carreiras promissoras em qualquer time do mundo, uma pena.
Na mesma proporção, oitenta jovens pobres, moradores de favelas, morrem todos os dias em todo território nacional. São mortes onde o silêncio impera nesses lugares e sempre as mesmíssimas estatísticas: homens, jovens entre 15 e 29, moradores de favelas e a maioria negros. Mesmo sem passagem na polícia, são assassinados com fama de marginal.
Colocando na ponta do lápis são 2.400 jovens mortos por mês e no final do ano essa estimativa bate número semelhante ao de países em conflitos de guerras, que chega a mais de 28.800. Para você, leitor despercebido dos fatos, pode gerar o seguinte pensamento, segundo o senso comum:
__”devem ser marginais e tem que matar mesmo”
Eu retruco respondendo:
__ “mais de 28 mil? Será que é tudo bandido mesmo?”
Por mais que sejam justificáveis essas mortes, é estranho que a cada ano o número de vítimas ou padrão de cor negra tem aumentado enquanto os números de vítimas jovens brancas diminuem a cada ano. O sociólogo e especialista em violência urbana, Ignacio Cano, destaca o uso da força policial do Estado e que o número de mortos por parte desses agentes pode ser maior ainda. Ainda há pouco não havia, por exemplo, ouvidoria da polícia ou grupos que trabalham diretamente com esta questão. Mesmo assim os números são assustadores, e o abismo pode ser ainda maior que imaginamos.
O leitor que tem o hábito de contemplar o meu texto, talvez esteja dizendo que está cansado de ler artigos ligados às questões raciais. Ok! Você não é obrigado a ler ou concordar. No entanto, o fato existe e é preciso tomar providências. Pais estão sendo obrigados a enterrarem seus filhos, interrompendo o processo natural da vida.
Vamos trabalhar com geo-história e raciocinar: Onde são os locais de assassinatos praticados por esses agentes do Estado? Quem são em maioria os mortos praticados por esses agentes?
Não seremos loucos em afirmar que todos os policiais militares são homicidas. Há milhares que honram a farda, não generalizaremos tudo no mesmo bojo. Historicamente, a fundação de guarda militar veio com a refúgio da família real no Brasil. Criou-se a guarda com objetivo de proteger as elites sociais portuguesas, e conter as revoltas dos escravos, o que incluía até a pena de morte .
O historiador da Unicamp Ricardo Figueiredo Pirola ,autor do livro Senzala Insurgente, reforça esta tese:
“_Havia pena de morte para os livres que cometiam homicídio, mas para eles a legislação continuou como antes, com alternativas à forca. O endurecimento afetou só os cativos. De 1835 em diante, escravo condenado era escravo enforcado: ‘lance-se logo a corda e pendure-se o réu'”.
Documentos históricos mantidos sob a guarda do Arquivo do?Senado, em Brasília, mostram que o projeto da lei de 1835 foi proposto pela Regência como forma de?conter as crescentes rebeliões escravas. “A Regência foi o governo-tampão da conturbada década de 1830, entre a abdicação de Pedro I e a maioridade de Pedro II.”
Quando o assunto é o genocídio de jovens negros e favelados, o Brasil aparece entre os primeiros da lista. As taxas de homicídios entre negros e brancos, mesmo pobres, é altíssima. Especialmente nos Estados do Norte/Nordeste.
PESQUISA APRESENTA DADOS SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA NEGROS
Fonte: Fonte: IPEA_ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada/ Igualdade Racial
Alagoas, Espírito Santo e Paraíba concentram maior número de negros vítimas de homicídio
Em Alagoas, os homicídios reduziram em quatro anos a expectativa de vida de homens negros. Entre não negros, a perda é de apenas três meses e meio. O estado nordestino apresentou o pior resultado entre todas as Unidades da Federação, de acordo com um estudo divulgado pelo Ipea nesta terça-feira, 19, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra. A Nota Técnica Vidas Perdidas e Racismo no Brasil calculou, para cada estado do país, os impactos de mortes violentas (acidentes de trânsito, homicídio, suicídio, entre outros) na expectativa de vida de negro e não negros, com base no Sistema de informações sobre Mortalidade (SIM/MS) e no Censo Demográfico do IBGE de 2010.
“Enquanto a simples contagem da taxa de mortos por ações violentas não leva em conta o momento em que se deu a vitimização, a perda de expectativa de vida é tanto maior quanto mais jovem for a vítima. Em segundo lugar, a expectativa de vida ao nascer é um dos principais indicadores associados ao desenvolvimento socioeconômico dos países”, explica o texto da pesquisa.
O estudo, de autoria do diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e Democracia (Ipea), Daniel Cerqueira, e de Rodrigo Leandro de Moura, da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), analisou ainda em que medida as diferenças nos índices de mortes violentas podem estar relacionadas a disparidades econômicas, demográficas, e ao racismo. De acordo com os autores, “o componente de racismo não pode ser rejeitado para explicar o diferencial de vitimização por homicídios entre homens negros e não negros no país”.
Taxa de homicídio
Considerando apenas o universo dos indivíduos que sofreram morte violenta no país entre 1996 e 2010, constatou-se que, para além das características socioeconômicas – como escolaridade, gênero, idade e estado civil –, a cor da pele da vítima, quando preta ou parda, faz aumentar a probabilidade do mesmo ter sofrido homicídio em cerca de oito pontos percentuais.
Novamente Alagoas é o local onde a diferença entre negros e não negros é mais acentuada – a taxa de homicídio para população negra atingiu, em 2010, 80 a cada 100 mil indivíduos. No estado, morrem assassinados 17,4 negros para cada vítima de outra cor. Espírito Santo e Paraíba também são destaques negativos no ranking elaborado pelo Ipea, com, respectivamente, 65 e 60 homicídios de negros a cada 100 mil habitantes (no Espírito Santo os assassinatos diminuem a expectativa de vida dos homens negros em 2,97 anos; na Paraíba, em 2,81 anos).
“O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele. Tais discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros vis-à-vis o resto da população”, afirma o documento.

Um comentário sobre “Entre o desastre aéreo e outras mortes silenciosas”

  1. Excelente texto retrata a nossa sociedade que sê formou por mais de 300 anos em torno do castigo. Hoje legítima a caça de inimigos re/produzindo o discurso da criminalização das populações pobres e negras de todas as favelas e periferias do país, em detrimento da visão crítica de um sistema judicial criminal fragilizado e uma política pública de segurança ineficiente. Legitimando o extermínio de crianças e jovens negros invisíveis para o estado e a sociedade sem possibilidades de políticas públicas que contemplem esta parcela da população. Parabéns Fabio mais uma vez pela contribuição de seus textos tão pertinentes à reflexões.

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