
Na linguagem da política internacional, tornou-se comum classificar os regimes políticos em dois grupos: Estados teocráticos e Estados laicos.
Por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva / Jornal GGN, 06/03/26 • 11:41
Resumo
A classificação dos regimes políticos entre Estados teocráticos e Estados seculares tornou-se um lugar-comum da análise política contemporânea. Contudo, essa distinção repousa em critérios formais que frequentemente ocultam a realidade concreta da relação entre religião e poder. Este ensaio examina a plausibilidade dessa divisão binária a partir de sua evolução histórica e de sua aplicação a casos contemporâneos. Tomando como fio condutor o contraste frequentemente apresentado entre Irã e Israel, argumenta-se que a influência religiosa sobre a política opera, na prática, em graus variados e dificilmente se encaixa em categorias absolutas.
- O ponto de partida: a distinção binária
Na linguagem corrente da política internacional, tornou-se habitual classificar os regimes políticos em dois grupos: Estados teocráticos e Estados laicos. A distinção parece simples. No primeiro caso, a autoridade política derivaria diretamente da religião; no segundo, a esfera política funcionaria de forma autônoma em relação às crenças religiosas.
Assim, o Irã costuma ser apresentado como exemplo típico de teocracia, enquanto Israel aparece frequentemente como uma democracia parlamentar secular.
Essa classificação repousa principalmente em um critério institucional: quem detém a autoridade constitucional final. No caso iraniano, a constituição estabelece a supremacia do jurista islâmico, princípio conhecido como velayat-e faqih. Já em Israel, o poder formal pertence ao parlamento e às instituições civis.
A distinção parece clara. Mas é justamente essa clareza que começa a se desfazer quando se observa a prática política.
- O problema da realidade
A primeira dificuldade surge quando se examina o funcionamento concreto das sociedades.
No Irã, frequentemente apresentado como teocracia, a autoridade religiosa não possui a estrutura hierárquica rígida que caracteriza instituições como a Igreja Católica. Um aiatolá não governa simplesmente por ocupar um cargo religioso. Sua autoridade depende do reconhecimento de seguidores que escolhem adotar sua interpretação da lei islâmica. Trata-se de um sistema de autoridade que, historicamente, possui forte componente social e intelectual.
Essa característica produz efeitos interessantes. A interpretação da lei religiosa evolui ao longo do tempo, acompanhando transformações sociais. Um exemplo frequentemente ignorado nas análises simplificadas é o papel crescente das mulheres na educação superior iraniana. Em muitas universidades do país, elas representam parcela significativa dos estudantes e exercem profissões qualificadas após a formação.
Esse fenômeno é particularmente revelador porque costuma ser apresentado, em outras sociedades, como indicador clássico de emancipação feminina. A ampliação do acesso das mulheres ao ensino superior e ao mercado de trabalho é frequentemente citada como prova do avanço de sociedades consideradas seculares ou liberais.
No entanto, o mesmo processo ocorre também no Irã. A presença feminina em universidades, laboratórios e profissões especializadas mostra que transformações sociais profundas podem ocorrer mesmo em sistemas políticos onde a religião desempenha papel institucional relevante.
A emancipação feminina, portanto, não se distribui segundo as classificações simplificadas frequentemente utilizadas no debate político.
- O outro lado do espelho
Se o caso iraniano revela nuances pouco mencionadas, o exemplo de Israel levanta questões ainda mais desconfortáveis para a classificação tradicional.
Formalmente, Israel é uma democracia parlamentar. Entretanto, o próprio Estado define-se juridicamente como um Estado judeu. Em áreas fundamentais da vida civil, como casamento e divórcio, a jurisdição pertence a tribunais rabínicos. Partidos religiosos desempenham papel decisivo na formação de coalizões governamentais e frequentemente condicionam políticas públicas.
A própria narrativa fundadora do Estado está profundamente ligada a interpretações religiosas da história e da geografia. O conceito de “terra prometida” permeia não apenas o imaginário religioso, mas também o discurso político de setores importantes da sociedade israelense.
Não se trata de afirmar que Israel seja uma teocracia no sentido clássico. Mas também não é possível ignorar que a religião ocupa ali um espaço estrutural na definição da identidade estatal.
- A persistência do religioso no mundo moderno
O problema torna-se ainda mais evidente quando se ampliam os exemplos.
Nos Estados Unidos, frequentemente citados como paradigma do Estado secular, referências religiosas aparecem em elementos centrais da vida pública. Testemunhas juram dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia. As notas de dólar exibem a inscrição “In God We Trust”. Presidentes encerram discursos invocando bênçãos divinas sobre a nação.
No Reino Unido, o chefe de Estado é simultaneamente o chefe formal da Igreja Anglicana. O hino nacional, entoado em cerimônias oficiais, pede a proteção divina ao monarca.
No Brasil, o crescimento da mobilização política de grupos religiosos produziu fenômenos como a chamada bancada evangélica, cuja influência sobre o processo legislativo tornou-se inegável.
Mesmo na França, frequentemente apresentada como modelo de laicidade, a proibição do uso de véus islâmicos em espaços públicos revela que o Estado não é indiferente à religião, mas intervém ativamente na regulação de sua presença na esfera pública.
Esses exemplos mostram que a relação entre religião e política não desapareceu com a modernidade. Ela apenas mudou de forma.
- A herança histórica esquecida
Talvez a persistência dessa influência não devesse surpreender tanto. Durante grande parte da história ocidental, religião e poder político foram inseparáveis.
As Cruzadas medievais foram convocadas pelo papa Urbano II como guerras conduzidas em nome da vontade divina. A expressão Deus vult — “Deus o quer” — ressoava nas praças europeias quando se convocavam exércitos para marchar ao Oriente.
Nas monarquias cristãs, o direito canônico coexistia com a legislação secular e frequentemente exercia profunda influência sobre ela. Sistemas jurídicos como as ordenações portuguesas não podem ser compreendidos sem levar em conta o papel da teologia e da autoridade eclesiástica.
A separação entre religião e política, frequentemente tratada como princípio universal, é na verdade um produto relativamente recente da história europeia, associado ao pensamento iluminista.
- Conclusão: um espectro, não uma dicotomia
A análise sugere que a distinção binária entre Estados teocráticos e Estados seculares funciona melhor como abstração teórica do que como descrição da realidade.
O caso do Irã mostra que regimes classificados como teocráticos podem apresentar dinâmicas sociais e institucionais mais complexas do que se costuma admitir. O caso de Israel, por sua vez, demonstra que democracias parlamentares podem incorporar elementos religiosos estruturais em sua identidade política.
Quando se observam outros países, torna-se ainda mais evidente que a influência religiosa sobre o poder político opera em graus variados.
Em vez de dois modelos opostos, talvez seja mais adequado imaginar um espectro que vai da plena integração entre religião e Estado até formas mais completas de secularização institucional.
A dificuldade em reconhecer essa gradação revela menos sobre a realidade política e mais sobre a persistência de categorias herdadas do debate intelectual do século XVIII.
O mundo contemporâneo parece, cada vez mais, escapar dessas simplificações.
Essa característica produz efeitos interessantes. A interpretação da lei religiosa evolui ao longo do tempo, acompanhando transformações sociais. Um exemplo frequentemente ignorado nas análises simplificadas é o papel crescente das mulheres na educação superior iraniana. Em muitas universidades do país, elas representam parcela significativa dos estudantes e exercem profissões qualificadas após a formação.
Esse fenômeno é particularmente revelador porque costuma ser apresentado, em outras sociedades, como indicador clássico de emancipação feminina. A ampliação do acesso das mulheres ao ensino superior e ao mercado de trabalho é frequentemente citada como prova do avanço de sociedades consideradas seculares ou liberais.
No entanto, o mesmo processo ocorre também no Irã. A presença feminina em universidades, laboratórios e profissões especializadas mostra que transformações sociais profundas podem ocorrer mesmo em sistemas políticos onde a religião desempenha papel institucional relevante.
A emancipação feminina, portanto, não se distribui segundo as classificações simplificadas frequentemente utilizadas no debate político.
- O outro lado do espelho
Se o caso iraniano revela nuances pouco mencionadas, o exemplo de Israel levanta questões ainda mais desconfortáveis para a classificação tradicional.
Formalmente, Israel é uma democracia parlamentar. Entretanto, o próprio Estado define-se juridicamente como um Estado judeu. Em áreas fundamentais da vida civil, como casamento e divórcio, a jurisdição pertence a tribunais rabínicos. Partidos religiosos desempenham papel decisivo na formação de coalizões governamentais e frequentemente condicionam políticas públicas.
A própria narrativa fundadora do Estado está profundamente ligada a interpretações religiosas da história e da geografia. O conceito de “terra prometida” permeia não apenas o imaginário religioso, mas também o discurso político de setores importantes da sociedade israelense.
Não se trata de afirmar que Israel seja uma teocracia no sentido clássico. Mas também não é possível ignorar que a religião ocupa ali um espaço estrutural na definição da identidade estatal.
- A persistência do religioso no mundo moderno
O problema torna-se ainda mais evidente quando se ampliam os exemplos.
Nos Estados Unidos, frequentemente citados como paradigma do Estado secular, referências religiosas aparecem em elementos centrais da vida pública. Testemunhas juram dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia. As notas de dólar exibem a inscrição “In God We Trust”. Presidentes encerram discursos invocando bênçãos divinas sobre a nação.
No Reino Unido, o chefe de Estado é simultaneamente o chefe formal da Igreja Anglicana. O hino nacional, entoado em cerimônias oficiais, pede a proteção divina ao monarca.
No Brasil, o crescimento da mobilização política de grupos religiosos produziu fenômenos como a chamada bancada evangélica, cuja influência sobre o processo legislativo tornou-se inegável.
Mesmo na França, frequentemente apresentada como modelo de laicidade, a proibição do uso de véus islâmicos em espaços públicos revela que o Estado não é indiferente à religião, mas intervém ativamente na regulação de sua presença na esfera pública.
Esses exemplos mostram que a relação entre religião e política não desapareceu com a modernidade. Ela apenas mudou de forma.
- A herança histórica esquecida
Talvez a persistência dessa influência não devesse surpreender tanto. Durante grande parte da história ocidental, religião e poder político foram inseparáveis.
As Cruzadas medievais foram convocadas pelo papa Urbano II como guerras conduzidas em nome da vontade divina. A expressão Deus vult — “Deus o quer” — ressoava nas praças europeias quando se convocavam exércitos para marchar ao Oriente.
Nas monarquias cristãs, o direito canônico coexistia com a legislação secular e frequentemente exercia profunda influência sobre ela. Sistemas jurídicos como as ordenações portuguesas não podem ser compreendidos sem levar em conta o papel da teologia e da autoridade eclesiástica.
A separação entre religião e política, frequentemente tratada como princípio universal, é na verdade um produto relativamente recente da história europeia, associado ao pensamento iluminista.
- Conclusão: um espectro, não uma dicotomia
A análise sugere que a distinção binária entre Estados teocráticos e Estados seculares funciona melhor como abstração teórica do que como descrição da realidade.
O caso do Irã mostra que regimes classificados como teocráticos podem apresentar dinâmicas sociais e institucionais mais complexas do que se costuma admitir. O caso de Israel, por sua vez, demonstra que democracias parlamentares podem incorporar elementos religiosos estruturais em sua identidade política.
Quando se observam outros países, torna-se ainda mais evidente que a influência religiosa sobre o poder político opera em graus variados.
Em vez de dois modelos opostos, talvez seja mais adequado imaginar um espectro que vai da plena integração entre religião e Estado até formas mais completas de secularização institucional.
A dificuldade em reconhecer essa gradação revela menos sobre a realidade política e mais sobre a persistência de categorias herdadas do debate intelectual do século XVIII.
O mundo contemporâneo parece, cada vez mais, escapar dessas simplificações.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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