Deu no jornal O Globo desta sexta-feira (18/1):
“Em Macaé, ‘50 tons de cinza’ na prateleira, só se tiver lacre”
“Cabral aprova lei da moral e dos bons costumes”
A primeira reportagem trata da determinação de um juiz da 2ª Vara de Família, da Infância, da Juventude e do Idoso de Macaé (RJ) de que todos os exemplares da trilogia Cinquenta tons de cinza”, “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”, da autora E. L. James, sejam recolhidos das livrarias da cidade. O magistrado considerou esses livros e outras publicações “impróprias” e, por isso, decidiu que elas não podem ser expostas nos estabelecimentos sem lacre.
Já a segunda matéria refere-se à aprovação do projeto de lei (PL) “Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais”, de autoria da deputada Myrian Rios (PSD), que visa “promover o resgate da cidadania, o fortalecimento das relações humanas e a valorização da família, da escola e da comunidade como um todo (sic)”.
Não por acaso publicadas na mesma página do jornal, as reportagens trazem à tona aspectos que apontam para um misto de conservadorismo, nostalgia e falta de noção de realidade que permeiam determinados discursos, os quais acabam carecendo de pragmatismo.
Dentre os dois casos, o primeiro é, certamente, o menos grave, mas, nem por isso, deixa de ser digno de algumas observações.
Embora honrável, o argumento do Juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos – “Uma criança ou um adolescente pode pegar um dos livros em uma prateleira e ter acesso a um conteúdo inapropriado para sua idade. Eles precisam ser protegidos.” – , parece não levar em conta que, na prática, qualquer criança tem acesso a imagens e vídeos muito mais “ofensivos”, por assim dizer, na internet.
E será que o magistrado não poderia considerar que, dado o imenso e praticamente incontrolável fluxo de informações que circula nas diversas mídias – é bom lembrar que programas de TV não se cansam de exibir mulheres rebolando de biquíni, enquanto peças publicitárias seguem fazendo apologias e insinuações sexuais aos montes –, ter acesso a um conteúdo erótico por meio de uma obra literária seja talvez a melhor das opções?
A pergunta é capciosa e chega a conter certo teor de derrotismo (já que perdemos a batalha contra a erotização do mundo, acatemos, ao menos, essa alternativa), mas é válida como questionamento. Afinal, o tema é delicado e controverso e, por isso mesmo, precisa ser debatido.
Quanto ao PL da deputada Myrian Rios, o próprio autor da matéria adiantou parcialmente o trabalho de análise crítica ao publicar um texto nitidamente irônico, tirando, para isso, uma espécie de licença das sempre almejadas neutralidade e objetividade jornalísticas. O primeiro parágrafo da reportagem comprova tal análise:
“O nome é pomposo e, pela extensão e conteúdo que sugere, vai exigir um esforço sem precedentes do governo do Rio: ‘Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais’. Sancionado na quinta-feira pelo governador Sérgio Cabral, o projeto de lei, de autoria da deputada Myrian Rios (PSD), tem a finalidade ‘promover o resgate da cidadania, o fortalecimento das relações humanas e a valorização da família, da escola e da comunidade como um todo’. Explicação muito genérica?”, questiona o jornalista, aparentemente certo da gargalhada que seu leitor médio dará.
Bem, além de obviamente desprovido de foco e viés prático – o que provavelmente dificultará em muito sua aplicação e, por consequência, a obtenção de resultados que impliquem em transformações sociais –, o PL é, em sua essência, altamente questionável, tendo em vista suas propostas e objetivos finalísticos.
Para começo de conversa, parece que a deputada busca resolver, em um só projeto, problemas que vêm sendo, de uma forma ou de outra, debatidos há, pelo menos, 2.700 anos (desde os pré-socráticos), e que, até hoje carecem de uma solução ou resposta única.
Por isso, chega a ser pretensioso o PL de Myriam Rios, que, para piorar, ainda carrega insalubres níveis de conservadorismo. Na realidade, o projeto flerta com o autoritarismo, uma vez que, para ser executada, a proposta demandará que instituições públicas passem a ter ainda mais ingerência sobre o tipo de orientação que os cidadãos deverão adotar para balizar suas decisões, tendo como base o que foi previamente definido como certo ou errado. E “ponto final”.
O caso se torna ainda mais grave pelo caráter nostálgico que o cerca. Pois não é, em absoluto, certo que, no passado, a sociedade era mais feliz. Pode até ser que os “bons costumes e a espiritualidade” fossem mais celebrados (o que é diferente de serem efetivamente cumpridos), mas, em contrapartida, a fachada, a hipocrisia, o preconceito e a repressão também estavam muito mais presentes.
No fim das contas, o que acontecia antigamente era que as pessoas, principalmente as mulheres, se viam obrigadas a ocultar ou sublimar desejos tidos por obscenos e despudorados pela sociedade. Ou seja, ninguém era mais santo há cinquenta anos atrás.
Dito isso, fica o alerta: está faltando bom senso e pragmatismo e sobrando boas intenções. Só que, como diz o ditado, “de boas intenções…”.
