"Encerrei uma etapa e comecei outra"

Ezequiel: “Eu pensava que queriam revanche e vingança e no final não tinha nada a ver". Foto: Reprodução.

O “neto 102” recuperado por “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio: Ezequiel trabalhava na Força Aérea quando confirmou que era filho de desaparecidos. Depois de se opor aos exames de DNA, fala do encontro com sua família. Hoje diz que seu objetivo é “somar”.
(“Neto 102” significa que é o penúltimo bebê roubado durante a ditadura argentina a ser identificado como filho de desaparecidos. O último, no caso a última, a “neta 103”, foi identificada no mês passado, conforme nota postada neste blog no dia 14/maio).
Por Victoria Ginzberg, do jornal Página/12 – edição de 10/04/2011
Durante 10 anos resistiu a se submeter ao exame de DNA para determinar se era ou não filho de desaparecidos. Deram busca em sua casa e levaram peças de roupa, mas isso não deu resultado. Foi abordado na rua, levado ao tribunal, lhe pediram a camisa e outras peças de roupa e então sim, se descobriu que seus pais eram Maria Graciela Tauro e Jorge Daniel Rochistein, sequestrados em julho de 1977. A confirmação deste resultado não lhe deu um juiz, mas a então ministra da Defesa, Nilda Garré (hoje ministra da Segurança). É que Ezequiel Vázquez Sarmiento trabalhava na Força Aérea. É o “neto 102” recuperado por “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio e é a primeira vez que dá uma entrevista. Na verdade, proposta por ele. “Quero agradecer”, explica: “Eu pensava que queriam revanche e vingança e no final não tinha nada a ver. Depois que a gente fala com as pessoas de lá, vê que só há conforto e afeto. Para mim, entrar em contato com as pessoas de ‘Abuelas’ foi muito importante para acabar os preconceitos”.
A particularidade mais marcante do caso de Ezequiel é que no momento da confirmação de que era filho de desaparecidos e durante boa parte do processo judicial para estabelecer sua identidade, ele trabalhava na Força Aérea. É o primeiro neto recuperado que é empregado das Forças Armadas. Seu apropriador, um oficial da Aeronáutica, está foragido desde 2003. Ezequiel usa seu sobrenome e não quer modificar esta situação, ao menos por enquanto. Ele não diz apropriador. Diz “meu pai” ou “a pessoa que considero meu pai”.
Ezequiel vive com a mulher que o criou, sua esposa e suas três filhas e incorporou à sua vida seus dois parentes biológicos mais próximos: sua avó materna e sua tia. Além disso, outras duas mulheres participaram neste processo: a ministra da Segurança (na época da Defesa) e a presidenta Cristina Kirchner.
Em setembro do ano passado, o jovem foi convocado ao gabinete de Nilda Garré. Não conhecia a ministra pessoalmente e pensou que havia feito algo errado, ainda que não soubesse o que poderia ser. Se preparou para uma repreensão: “Foi um diálogo muito ameno, ela me queria adiantar e contar o resultado do DNA, mas me confortando e respeitando minha posição. Me disse que conhecia meu caso e estivemos falando bastante, até de temas familiares. Foi a primeira pessoa com quem tive uma conversa assim”.
Logo depois veio o anúncio das “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio. Ezequiel preferiu se manter à parte. Mas a distância durou pouco. Em seguida decidiu falar com sua família biológica: queria lhes contar o que sentia, dar explicações. Foi a Mar del Plata para conhecer sua tia e sua avó: “Desci do avião e no aeroporto me esperava minha tia, a reconheci porque era a única mulher que estava chorando”. Tempo depois elas vieram a Buenos Aires. Ezequiel lhes apresentou a mulher que chama “mãe” ou “velha”. “Quando as cumprimentou, minha mãe começou a chorar e minha tia e minha avó biológica a abraçaram, a consolaram. Isso foi muito forte para mim. Elas não tinham rancor nem raiva”.
– Você entende que é um pouco paradoxal, não?
– Por que você diz paradoxal?
Porque sua tia e sua avó são as vítimas, juntamente com você e seus pais, claro.
– Para mim foi como dizer “apesar do passado não temos raiva de você”. Elas começaram a falar, a perguntar, e minha velha lhes contava coisas de minha infância.
– O que você disse a suas filhas?
– São pequenas. A maior tem agora seis anos. Quando em novembro fomos festejar meu aniversário em Mar del Plata, estavam minhas primas, suas filhas. Minha filha mais velha me diz “agora tenho mais primas”. Eu somente lhes disse: “Ela é a avó Nely, ela é a tia Pato”, creio que é difícil de entender. Ainda que elas o tomassem como algo natural.
Como você tomou conhecimento de que não era filho biológico de quem pensava que eram seus pais?
– Soube em 2001. Falando com minha mãe, antes de chegar a notificação judicial. Eu tinha 24 anos, estudava Economia. Tenho toda a carreira cursada em El Salvador, mas ao final disse não, isto é uma mentira…
– Ah… e estudou Direito, que é algo sério.
– (Sorri) Bem, isso deixemos para outro momento. Ela me contou que eu não era filho biológico dela. Eu lhe disse “quero que me conte só até aqui”. Agora seguiremos na causa judicial.
Por que não quis saber detalhes?
– Me contou que ela também não sabia de onde eu era, que com o passar do tempo poderia se saber mais. Tampouco tive necessidade de continuar indagando porque minha principal preocupação era que não acontecesse nada a ela.
– A ela.
– Sim, a ela. Na realidade aos dois, mas a ela em primeiro lugar.
Dor
María Graciela Tauro e Jorge Rochistein militavam em Montoneros (grupo de guerrilha urbana muito ativo no início da década de 70) e estudavam na Universidade Nacional do Sul. Ele, Ciências Econômicas. Ela, Bioquímica. Assim se conheceram. Se casaram em 30 de janeiro de 1976, após muito tempo de namoro, e foram sequestrados em 15 de maio de 1977 em Hurlingham (cidade da província de Buenos Aires). Graciela estava grávida. Foram levados à Delegacia 3 de Castelar (outra cidade), em seguida à Mansão Seré, centro clandestino dirigido pela Aeronáutica, e à Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), onde Ezequiel nasceu.
Juan Carlos Vázquez Sarmiento é oficial da Força Aérea. Sua foto, com o boné de aviador e bigodes grossos, pode ser vista em algum dos avisos que o então Ministério da Justiça, Segurança e Direitos Humanos (foi desmembrado) publicou oferecendo 100 mil pesos a quem dê informações que ajudem a encontrá-lo. Está foragido desde 2003. As denúncias no processo indicam que foi membro da Regional Buenos Aires de Inteligência (RIBA) da Força Aérea. Ezequiel o defende das acusações sobre sua possível participação em uma força-tarefa.
– Como convive com o fato de que quem considera seu pai está foragido?
– Em seu momento se tomam decisões… eu não o considero responsável. Eu trabalhei na Força Aérea e conheço a responsabilidade numa situação dessa e mais ainda naquela época. Para mim é doloroso. Mas já com a visão de militar e com o boné na cabeça se sabia que não havia muita alternativa.
– Não crê que ele deveria se apresentar e enfrentar a acusação?
– Por uma questão de preservação dele, eu não tenho contato. É mais doloroso vê-lo preso do que não vê-lo.
– Ter conhecido a verdade da forma como ocorreu, foi bom para você?

– Ultimamente me coloco o fato de somar. Vejo a situação como experiência de vida. Se o assunto não tivesse ido para a Justiça suponho que tivesse querido saber antes… mas hoje, sim, hoje tenho a sorte de que tanto minha velha como minha família biológica são pessoas maravilhosas, e pela questão judicial por aí perdi 10 anos, mas é isso. Para mim é importante que tenham me procurado e a forma como fizeram sem querer me prejudicar.
– Pensava que as “Abuelas” queriam prejudicar você?
– Não. Eu nunca tive contato com elas antes. Era uma questão judicial. Mas no imaginário… a gente pensava que era “revanche e vingança”, e no final não tinha nada a ver. Depois que a gente fala com as pessoas de lá, vê que só há conforto e afeto. Para mim, entrar em contato com as pessoas de ‘Abuelas’ foi muito importante para acabar os preconceitos”.
A presidenta
Há 20 dias um grupo de “Abuelas” da Praça de Maio e netos recuperados foi visitar a presidenta, que os recebeu para felicitá-los pelo prêmio que a Unesco outorgou à instituição. Estela Carlotto (presidenta de “Abuelas”) convidou Ezequiel, que aceitou de bom grado. “A gente não conhece todos os dias um presidente”. O encontro, que talvez imaginava protocolar, o surpreendeu: “Éramos um grupo de 20 pessoas. Nos recebem no gabinete dela. Eu seria o sétimo ou oitavo na fila de cumprimentos… então Estela dá a volta e me diz ‘a cumprimentou? lhe disse quem você é?’. Me pega e lhe diz: ‘Presidenta, este é Ezequiel’ e começa a lhe contar. Ela deixa de cumprimentar todo mundo e começa a falar comigo. Me disse: ‘Queria conhecer você mas não queríamos que isso gerasse uma pressão, por isso naquele dia com Nilda (Nilda Garré) não o trouxemos aqui, para que eu pudesse falar com você, mas estava interessada em seu caso. Estou muito contente que esteja aqui’. Se lembrava como havia sido o processo. Eu lhe agradeci. Para mim foi muito importante. Estela lhe diz em um momento: ‘Ele é muito formal’… eu sou o empertigado. Quando nos sentamos à mesa voltou a falar comigo. Imagina todos os problemas que tem e se preocupava comigo, não como presidenta, mas como pessoa. Também lhe agradeci o conforto que Nilda me havia dispensado, foi uma pessoa que me confortou nos piores momentos. Não tinha obrigação. Foi algo humano e algo muito genuíno. Saí muito emocionado dessa experiência na Casa Rosada” (palácio do governo).
A verdade
– Como você sentiu quando soube da verdade?

– Eu sabia da verdade, não sabia de quem era. Sabia que minha origem era duvidosa. Mas minha irmã também era considerada apropriada e em 2005 ela foi voluntariamente fazer o DNA e deu negativo. Ela é filha biológica de quem eu considero que é minha mãe. Eu não sabia se a família que me reclamava judicialmente era realmente a família. Apesar de que esta não era minha preocupação, e sim minha velha. Fiz tudo o que podia fazer e lutei até onde podia lutar. Se não foi voluntário deixa de ser minha responsabilidade. Se me diz se hoje recomendo fazer assim… é meio difícil…
– Mas você entende que não havia outra alternativa?

– Entendia que não havia outra alternativa sob a lógica da defesa apresentada por mim.
E está contente de ter conhecido sua família?

– Sim. Claro. A partir disso encerrei uma etapa e comecei outra. As duas coisas convergem. Para mim, são articuladas. Eu tomei a iniciativa de ir ver minha família biológica em Mar del Plata. Me receberam de braços abertos. A única coisa que disseram foi que não queriam me prejudicar de forma alguma. ‘A única coisa que queremos é encontrar você’, me disseram. Depois eu as acompanhei ao tribunal, porque minha tia e minha avó quiseram expressar isso em juízo.
– O que você sabe sobre seus pais?
– Minha avó me mostrou fotos de quando Graciela era pequena e bebê. Minhas três filhas são como fotocópias e se as coloca ao lado de uma foto dela, não se sabe quem é quem. Do lado paterno não tenho parentes próximos, há um primo que vive nos Estados Unidos e entrou em contato comigo. Se preocuparam comigo, mas é um vínculo mais distante.
Quando você era pequeno, sabia que havia desaparecidos?

– Não. Imagina que eu tenho 33 anos. Fui bem jovem nos anos 80, 90. Aqui houve uma ruptura depois de 2003, com o ressurgimento dos direitos humanos.
– Bem, mas aconteceram coisas antes. Quando dos 20 anos do golpe, em 1996, houve uma mobilização muito importante, por exemplo.
– Os anos 90 foram despolitizados. Não existia a militância que há hoje.
– E como você começou a trabalhar na Força Aérea?

– Eu estudava Economia em El Salvador. Meu velho trabalhava na Força Aérea e comecei a trabalhar aí. A escolha da advocacia tem muito a ver com o processo. Comecei em 2004 a estudar Direito devido à questão judicial e para ter outra atividade remunerada. Agora trabalho no Ministério da Defesa.
– Como era ter o processo sobre sua identidade e trabalhar na Força Aérea?
– Nunca me criaram qualquer problema nem entraves. Respeitaram minha situação. Para mim foi um assunto que eles consideraram privado e me respeitaram e sempre me deram apoio humano, sobretudo as pessoas.
– Como foi o encontro com sua família? Quando os conheceu?

– Eu queria expor a eles minhas razões e minha maneira de sentir. ‘Abuelas’ fez o anúncio numa segunda-feira – e agradeço a forma como o fizeram, respeitaram minha postura – e na quinta-feira tomei a decisão de ir ver minha família biológica em Mar del Plata e expor minhas razões e meus sentimentos, quis dar o primeiro passo. Elas iam respeitar meus tempos, assim que se emocionaram por eu ter querido ir vê-las. Minha tia foi me receber no aeroporto e a reconheci porque era a única mulher que estava chorando.
Você se negou a fazer o DNA e fizeram uma busca em sua casa que resultou negativo. Quer contar o que aconteceu?
– Vieram um dia às 5:45 horas da manhã. Eram dois policiais com um perito do Hospital Durand e duas testemunhas. Levaram peças de roupa que estavam em minha casa, por assim dizer…
– Bem, você não quer contar. Mas depois foram buscá-lo e o levaram ao juiz.
– Afinal se extraiu material para o DNA de minha camisa, que não foi entregue voluntariamente, em juízo.
– Que diria a outros jovens, como no caso dos Noble Herrera, que não querem fazer o exame de DNA?(Referência a Marcela e Felipe, suspeitos de terem sido bebês roubados durante a ditadura. Eles são filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble, dona do grupo de comunicação Clarín, e nos últimos 10 anos têm resistido à pressão judicial para não se submeterem a exames de DNA).
– Se me perguntasse antes desta nova situação… mas hoje, sinceramente, lhes diria ‘não perde nada, trata de somar e se livra da dúvida’. Não somente para eles, para qualquer um que esteja nesta situação. Afinal, não veem com má intenção, é a mesma coisa, eu falo do meu caso pessoal. Devemos tratar de somar na vida.
Tradução: Jadson Oliveira

Deixe uma resposta