"Eles desconhecem: os engravatados estão lá dentro dos seus escritórios, a visão é extremamente estereotipada"

Por Eduardo Sá e Gabriel Bernardo

Entrevista com Hilaine Yaccoub, na Casa França Brasil, local onde a antropóloga já trabalhou como guia de exposição. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Hilaine Yaccoub é antropóloga, morou 8 meses num bairro pobre de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, para analisar o consumo indevido de energia elétrica nas camadas populares da sociedade. Hilaine fez ciências sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), trabalhou em várias ONG’s, e foi fazer um mestrado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBE) em estudos populacionais e pesquisas sociais. Trabalhava a mensuração do terceiro setor no Brasil, e apareceu um trabalho de analista social na Ampla [Energia S.A], concessionária de Niterói.
Assim que ela enveredou nos estudos dos vulgos “gatos” nas comunidades populares, adquiriu conhecimento na área também participando de atividades do setor e hoje pretende passar alguns anos no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, fazendo uma pesquisa para seu doutorado em antropologia do consumo. Yaccoub não poupa críticas ao setor, evidenciando suas mazelas, e aponta alternativas para a redução do roubo de energia no país.
Como foi sua experiência na Ampla?
Eles tinham um projeto chamado Guardiões da Comunidade, e o diretor era um visionário, queria entender quem era o cliente dele. Na entrevista, me perguntou: por que os meus clientes fazem gato? Não sei, a resposta que vem a cabeça é por malandragem ou necessidade, mas eu acho que isso é muito superficial. Até porque as próprias pessoas que fazem não têm consciência, elas não racionalizam o porquê delas fazerem: está dentro do inconsciente coletivo.
Desde que eu me entendo por gente sempre existe, principalmente na época da estatal, acho que foi estatizada em 1996. Eu disse: existe um método de pesquisa da antropologia chamado etnografia e observação participante, que é você se misturar no contexto do seu nativo, na realidade dele.  Porque não adianta eu interpretar o que ele faz, o comportamento dele, se eu não estou compartilhando dos mesmos valores e do seu contexto. Você continua sendo você com os seus valores e suas regras, na verdade você compara…
E compreende...
E compreende daquela realidade. E ele falou assim: Você moraria numa comunidade? Moraria. Eu achava muito interessante, porque era o Guardiões da Comunidade só que ninguém atuava em comunidade nenhuma. Eram bairros muito pobres, mas não era favela, e todos os executivos da empresa falavam comunidade no sentido de favela.
Você morava aonde antes?
Eu morava em Icaraí, na Moreira César, uma área bem nobre de Niterói. Eles ensinam tudo para você, qual é o produto deles, quem é a empresa, eu passei três dias imersa em várias áreas da empresa: subestação, produção, distribuição, Rh, etc. Depois de quatro meses lá o diretor disse que tinha uma grana e me pediu para ver quanto ia sair o orçamento de eu ir morar lá. A Ampla bancou tudo, acho que a casa e a infraestrutura ficou em torno de R$ 40 mil os oito meses na comunidade.
Eu tinha que ficar disfarçada no lugar, mas na verdade eu não delatei ninguém que furtava, eu só acompanhava o consumo deles. Até porque o próprio projeto Guardiões da Comunidade não cortava ninguém, eles acreditavam que através do diálogo e do relacionamento íntimo você poderia modificar a cabeça da pessoa num trabalho bem sócio educativo. Mas isso não era bem visto pela empresa, porque eles queriam algo muito mais imediato e o corte tem ganho imediato.
Mas, no final das contas, qual que era o propósito disso?
Entender as motivações e os valores das pessoas, e por que elas faziam gato. Porque na verdade eu trabalhava paralelo ao projeto Guardiões da Comunidade, e encheria eles de insumos para elaborarem políticas sócio educativas. Se eu não me engano, eram nove bairros que 18 guardiões atuavam. Eu fiquei numa comunidade chamada Coelho, onde não tem tráfico organizado mas tem justiceiros atuando no local.
A idéia era essa. Mas depois de 8 meses que eu estava lá, com um 1 ano e 3 meses de Ampla, a empresa foi vendida para um capital italiano e esse diretor com todo o guarda chuva embaixo foi desfeito. O Guardião das Comunidades melhorou demais a imagem da empresa nas localidades que eles tinham, existia até um movimento “Fora Ampla” que é de um vereador chamado [Ricardo] Pericar (PMDB). Esse movimento chegou a apedrejar a Ampla.
Por que esse movimento foi criado?
Por causa do chip de controle do relógio que não tinha sido validado pelo Inmetro, e mesmo assim a Ampla em caráter experimental instalou 300 mil chips em várias casas. As pessoas que pagavam R$ 100,00 passaram a pagar cerca de R$ 500,00.
Esse sistema de chip é moderno também…
É moderno, só nas cidades que a Ampla atua. Eles instalam chips aonde tem muito furto, para eles o ganho é muito bom apesar de ser caro. Porque as pessoas muito pobres não têm consciência de lutar contra aquilo, não fazem uma ação judicial então eles acabam ganhando muito.
Em relação ao tratamento da mídia sobre o 'gato', Hilaine diz que há "o tempo inteiro criminalização da pobreza, as fotos são sempre de favelas iluminadas". Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Você tem idéia de quanto custa esses equipamentos?
Não tenho. Na minha dissertação explica esses contextos, tem uma capítulo que eu chamo de “Atirando o pau no gato, como são as políticas de combate ao furto de energia pela Ampla”. Eles aumentaram o poste de 6m para 9m, tem postes de até 12m. O povo se revoltou, uma das formas do furto é você ligar o gancho de cobre diretamente na rede. Tem lugares que não tem como botar o chip. E também tem uma coisa, o grande problema da empresa não é só o gato, é a inadimplência porque eles têm de ter fluxo de caixa e quando você protela…
Fale mais sobre o seu trabalho
Meu propósito de trabalho era dar voz ao nativo, ao consumidor, porque tudo o que eu vi na mídia desde a privatização era sempre a fala da concessionária, dos órgãos públicos, da Aneel ou Eletrobras: é sempre o de fora falando dos contextos internos, só que ninguém parou para estudar a dinâmica. Eu entendo que a energia é um produto sóciotécnico.
Como assim?
A energia elétrica não é um recurso, existe uma linha de produção cara e é um produto sócio técnico porque ela o tempo inteiro está sendo usada e manipulada pela sociedade. O gato é a manipulação da energia elétrica, é a apropriação de um produto sócio técnico.
Você tem lá um produto com complexos de produção enormes, e aí chega a energia na minha casa, aquela energia que está ali é só pegar no fio. Então eu me aproprio daquilo de diferentes formas, eu faço gato, eu torno o que é público privado. O Roberto DaMatta fala que nós temos diferentes comportamentos em relação à casa e a rua, então eu me apodero do que é rua dentro da minha casa para me beneficiar. Agora, a imagem que se tem disso, aí tem todo um contexto de cidadania…
O excesso de crédito que o governo tem dado para parcelar ar condicionado, energia elétrica, etc, isso não favorece…?
Muito. Imagina, na mesma época que o Plano Real estava bombando foi quando a energia elétrica foi privatizada. Existe todo um conceito pensado: se você perguntar para qualquer classe C, classe B, o que é ter conforto? As pessoas falam, “eu quero dar conforto para os meus filhos”. Dar conforto não é dar o ar puro para ele, não é dar comida, é dar danone e biscoito de marca, é refrigerante de marca. Então foi feito um trabalho intenso da publicidade, dos produtores em geral, com todo esse marketing de disseminação do que é conforto. O conforto não é você ter uma casa, ter qualidade de vida de morar perto de onde você trabalha: não, ter conforto é ter tudo dentro de casa.
E o bombardeio desse tipo de publicidade é muito grande nesse lugares…
E aí tem uma coisa no Brasil que é muito pertinente comentar, o consumo é uma forma de inclusão social. Você se sente cidadão, gente, indivíduo, se você consome. Por isso essa história do crediário de ter registro da casa, de ter uma conta de luz, de ter um medidor, o comprovante de residência é tão importante porque através dele você consegue abrir crediário e passa a consumir. As mães parcelavam em mil vezes os celulares que tocam músicas porque o filho não pode ser diferente dos outros, ele tem de ser incluído naquele grupo. Fazem planejamento de crediário: depois que eu terminar de pagar eu vou tirar um armário, eu vou tirar um eletrodoméstico. É tudo muito pautado no consumo individual, a minha televisão, o meu dvd, o meu computador. Então ter tudo é isso, é tudo ter eletrodoméstico. Imagina o dilema do consumidor, de um lado tem uma empresa vigiando e punindo e do outro ele é bombardeado o tempo inteiro a comprar, ter conforto, dê o melhor para o seu filho. Você vê as Casas Bahia botando 18 vezes de R$ 30,00, aí você já pensa que cabe no seu orçamento e vai lá e compra. As pessoas compram muito.
E como é que isso casa com a questão da energia?
Eu acho que na verdade as pessoas começaram a consumir muito, elas não tinham muita noção do gasto da energia. Imagina: na mesma época do Plano Real, da privatização, eu tenho um cálculo de que o IPCA [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo]  tinha subido 230% no plano geral e a energia elétrica no mesmo período 454%. Eu acho que o gato é uma coisa que sempre existiu, mesmo antes da privatização, só que antes a imagem era o que é público é de todo mundo e é meu; se é do governo está ali para pegar. Não existia na Cerj [Companhia de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro] políticas combativas, muito pelo contrário, eram todos funcionários públicos. Inclusive tem casos das pessoas me contarem que o próprio funcionário da Cerj fazia o gato.
A tecnologia de chip é muito cara, ela é somente para o gato?
Gato e para combater a inadimplência, porque você corta a pessoa. A equipe de corte é muito cara, para você manter uma na rua é gasolina, o salário deles, etc. Agora, imagina se você tem um sistema eletrônico de medição e corte que uma pessoa pode cortar centenas de pessoas com um botão dentro do escritório? É isso. Então a longo prazo eles acabam lucrando muito com esse tipo de tecnologia, só que tem muito erro. Eu aconselharia a vocês olharem na internet a CPI da Ampla, principalmente a da Alerj, é incrível. Porque o chip também tem isso, ele vai lá e coloca na sua casa sem te perguntar nada, simplesmente você passou a ter chip. E mesmo sem você ter gato, de repente sua conta que era R$ 100,00 vem R$ 230,00 e você não sabe o que é que foi. E para eles na empresa você é furtador, porque você tinha um gato.
"Eu acho que devia de ter uma política sócio educativa em relação a isso, mas ao mesmo tempo não cair no estereótipo de criminalizar quem faz", diz Yaccoub em relação ao uso indevido de energia elétrica. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

E como é que resolvia essa questão?
Na justiça, deixavam de pagar eles eram cortados, tinha muitos erros no sistema. Na CPI dizia que o Inmetro constatou vários erros e eles conseguiram ser beneficiados pela Aneel, que na verdade é o atual diretor da Light, o Jerson Kelman. Eles davam, privilegiavam o tempo inteiro. A Aneel não tem representatividade nenhuma para a população, ela foi criada para mediar essa relação e é totalmente ausente.
Você acha que o órgão fiscalizador não cumpre a função pública, mas cumpre a relação contratual entre empresa e governo numa relação mercadológica?
Sim, muito mercadológica. Para você ter idéia, as pessoas nem sabem o que é Aneel na rua. Não está claro como o Procon, que do mais pobre ao mais rico sabe o que é; mas a Aneel ninguém sabe. Foi criado um órgão para justamente fazer essa mediação. Quando existem conselhos dentro da Aneel, os consumidores que vão lá para reclamar são escolhidos pela concessionária. Tem uma tese de mestrado da ciência política da UNB que a pesquisadora acompanhou durante vários anos todos os encontros e ela coloca que as reuniões são super técnicas, demoradas, e dão 15 minutos no final para os clientes falarem. Ninguém entende nada.
Você chegou a fazer uma análise de mídia em relação ao tratamento do gato?
O tempo inteiro criminalização da pobreza, as fotos são sempre de favelas iluminadas.
Mas e nas empresas, não há gato?   
Dados da Ampla: classe média e média alta são 15% do gato; comércio e indústria 40%, e as classes mais pobres 45%. O que acontece? Os ricos e as indústrias têm menos gente fazendo, mas o consumo é muito maior. Existem diferentes tipos de gato. O gato de pobre é mais fácil de ser percebido, é o que está na favela, é o emaranhado, é o medidor que não tem lacre ou o dorminhoco que não registra. Isso até eu percebo, é o que eu vejo na Maré hoje. Mas os gatos de rico são bem aprimorados, feitos dentro do muro, e esse não dá para pegar. 
O rico se beneficia porque o cara que vai cortar é um terceirizado que ganha R$ 500,00 por mês, fodido toda vida, pobre, e chega: Com quem você pensa que está falando? Ele pega e dá um telefonema para um juiz, um amigo, e como é que ele vai provar? Então fica o dito pelo não dito, e eles acabam não conseguindo pegar. Você vai lá e tem um cara de terno e gravata, com cara de rico sabendo falar, o cara cresce, entendeu? Ele se beneficia da posição social dele.
Quando você se refere ao gateiro, tem casos de técnicos que dominam esse conhecimento de instalação e fazem uns bicos por fora?
A equipe da Ampla é muito assediada para fazer gato, e tem gente que faz. Eu entrevistei três gateiros terceirizados, quem me indicou foi uma pessoa que tem uma empresa e tem gato. Na verdade ele se mantém. Existe a estratégia e a tática, as empresas trabalham no conceito de estratégia. A estratégia não muda, ela é muito fechada porque ela demora muito a ser produzida e colocada em prática obedece a rigores de sistema inflexível. O processo de trabalho para se criar uma estratégia é muito duro por causa das amarras burocráticas das empresas, só que a tática é flexível, muda, age conforme a estratégia, trabalha na passividade, não é impositiva, muito pelo contrário.
Então o gateiro tem a tática. A situação do trabalho do terceirizado é como se fosse um tiro no pé que a própria empresa deu, porque eles fizeram uma economia tercerizando mas ao mesmo tempo criaram os próprios inimigos dele. Com a tecnologia que a Ampla empregou não dá mais para um curioso fazer o gato, tem que ser alguém que entende e que entenda o sistema da Ampla. Então o chip já tem gato, custa R$ 150,00, tem tabela de preço: o gato vagabundo custa R$ 50,00, e o de rico dentro do muro custa R$ 500,00, porque não é pego.
Isso você atribui então às relações trabalhistas, má remuneração?
Relações trabalhistas, má remuneração… Eu trabalhava num escritório que tinha uma secretária que era terceirizada, e na campanha de vacinação da empresa eu era vacinada e ela não. Coisas pequenas, isso acaba contaminando até os colegas de trabalho, a relação dos terceirizados com os funcionários da Ampla é extremamente complicada. E o sonho do terceirizado é se tornar Ampla, porque tem muitos benefícios. São 32 empresas, hoje a Ampla tem mil e poucos funcionários e 6 mil e tantos terceirizados.
Você está na Maré há quanto tempo?
Três meses, mas não estou morando lá. Agora eu estou entrando na Light para a minha pesquisa, não dá para eu falar ainda. Comecei a fazer meu contato, o trabalho de campo, na Nova Holanda, são 16 comunidades, eu pretendo morar em três diferentes.
Qual a sua impressão até então em relação à energia elétrica na Maré?
A impressão é da completa ausência do poder público e das concessionárias, eu acho que nem todo mundo faz gato porque quer fazer por causa de malandragem ou levar vantagem. É o caminho, não tem outro jeito. Se você aluga uma casa, como é que você vai chamar a light para fazer um medidor se os seus vizinhos em volta estão todos no gato e a parte de baixo também? Ou então você constrói um barraco, como é que você liga para pedir um medidor se a Light não entra nem para fazer isso por causa da criminalidade?
"Cada vez mais as pessoas estão utilizando dessa energia, e cada vez mais o governo tem que gastar dinheiro para produzir energia, e cada vez mais matas, florestas, comunidades nativas são cada vez mais prejudicadas. E essa energia não é para aquela comunidade que está sendo afetada", afirma a antropóloga. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Em termos de soluções, você é uma entusiasta das UPPs? Porque a proposta do governo é entrar com a segurança e depois os serviços.
Não tenho idéia formada sobre a UPP. Eu acho que a energia deve ser regularizada, não sou adepta ao gato, precisa ter um contexto de que não pode ser a mesma tarifa para todo mundo. A favela tinha que ter uma tarifa diferenciada, menor. Teria de ser uma campanha gradativa para que as pessoas comecem a se apropriar do pagamento desse serviço, porque eles nunca pagaram, culturalmente é muito diferente pra eles.
Você acha que é difícil estimular essa cultura?
Não é difícil, acho que precisa ter campanha, uma política pública do governo. Essa coisa de deixar tudo na mão das concessionárias é um absurdo. Precisa ter uma postura do governo não só quanto à tarifa social, mas de fazer políticas públicas mesmo. De pegar essas pesquisas e lançar ações sociais dentro das escolas, medidas sócio educativas, fazer parcerias com ONG’s e trabalhar nesse contexto.
Eu assisti alguns cortes. A energia é a segurança delas porque em muitas ruas não têm iluminação pública, então elas colocam. O que o corte afeta? A sensação de insegurança: mexe com o conforto, porque são lugares que têm muitos rios, são casas insalubres em sua maioria, as pessoas constroem quadrados que não têm ventilação, são puxadinhos, não só em favelas mas bairros pobres. Mexe com a comida, quando a geladeira descongela, nossa, perdeu a comida do mês. E mexe com o único entretenimento que eles têm, que é a televisão com a novela. Eles mexem em quatro esferas muito ricas e muito caras, então é um drama, fora a vergonha de ser cortado.
Tem o risco de incêndio também…
Demais, dá medo. Eu tenho mais medo de estar morando lá e ter um incêndio do que bala perdida. As ruelas, lambe tudo, e da bala te pegar é mais difícil. Isso é questão de segurança pública, e ninguém se atenta. O discurso do empresariado é o tempo inteiro na idéia do lucro, mas existem outras coisas que são tão mais importantes quanto.
Quando você vai em eventos  [o Fazendo Media acompanhou uma atividade, e com a exposição da antropóloga em meio a autoridades da área, a contatou para uma entrevista] com especialistas e tecnocratas da área, nota-se que apesar dos caras falarem com muita propriedade vê se um certo distanciamento da realidade.
É tudo muito técnico. Se é para fazer, faça alguma coisa conhecendo a realidade deles. Uma vez a Light fez na Maré um bingo, as pessoas riram disso: “Para quem bingo? Coisa de velho…” Quer dizer, às vezes até as próprias políticas de marketing social deles é muito fora da realidade. Trabalham coisas muito tecnológicas, eu acho que o caminho é fazer parcerias com ONG’s locais, atuantes. Eles desconhecem: os engravatados estão lá dentro dos seus escritórios, a visão é extremamente estereotipada. O problema todo é que como só eles são ouvidos, isso é reproduzido e sedimentado na sociedade.
Você pode desenvolver melhor essa questão de o problema recair em cima do pobre consumidor, que foi o que te levou a falar na palestra?
Porque o tempo inteiro eles estavam em cima desses estereótipos, até porque os departamentos de marketing deles trabalham com sedimentação de mercado. Eles criam personagens, é o pobre, o favelado, o consumidor que consome tanto, eles criam essas identidades de mercado. E o tempo inteiro um pobre, como tem mais quantidade de gente pobre que faz gato, não é quantidade de kw/gasto, é quantidade de gente.
Porque talvez uma indústria pode arrematar a quantidade de toda uma favela, proporcionalmente falando.
Exato, então recaindo muito em cima desse pobre. Por exemplo, lá na Maré eu vejo gente que paga energia. Inclusive, quando eu comecei a fazer as minhas incursões eu falei: pô, tem muito gato: “É, gato? Essa é a imagem que eles têm da gente?” É. “Não, eu não faço gato, nem meus vizinhos, é contra a minha religião”. Tem muito cristão, é uma filosofia cristã. Daí eu falei: é exatamente isso que eu quero desconstruir, essa homogeneização.
Você pode sintetizar o seu pensamento em relação ao gato?
Eu acho que a energia não é tratada, não é vista, não há nenhum esforço dos engenheiros, da técnica, das concessionárias e governo, em ensinar a população que aquilo tem um custo. É um produto de uma linha de produção que é muito cara, que tem ônus para o país, porque afinal de contas represas são construídas: olha quanto investimento humano e econômico para uma represa funcionar. Cada vez mais as pessoas estão utilizando dessa energia, e cada vez mais o governo tem que gastar dinheiro para produzir energia, e cada vez mais matas, florestas, comunidades nativas são cada vez mais prejudicadas. E essa energia não é para aquela comunidade que está sendo afetada. Então cada vez mais é mais energia, mais siderúrgica, mais …. Enquanto que a gente podia trabalhar numa geração de energia muito mais barata que é a conservação, que é mostrar às pessoas como poupar energia.
Ao mesmo tempo, eu vejo que o gato sempre existiu, é algo que foi naturalizado pelas pessoas, eu acho que devia de ter uma política sócio educativa em relação a isso, mas ao mesmo tempo não cair no estereótipo de criminalizar quem faz. Porque eu acho que toda generalização é burra, você acaba criando meios coercitivos que não dão certo. Acabam prejudicando a imagem da empresa, acabam reforçando ainda mais o próprio conceito negativo da prática. A energia não foi universalizada, tem lugar que não tem energia, você não tem extensão de rede. Tem lugares cada vez mais sendo criados e construídos pelas pessoas como invasões e que não têm rede. Como é que você vai ficar sem energia elétrica? Na maioria faz favelas isso tudo foi no mutirão.
As pessoas deveriam pagar, mesmo que fosse pouco, mas deveriam porque quem faz gato não poupa. Eles não têm o conceito de conservação de energia, e eu acho que é muito além do econômico. É preciso começar a pensar na própria prática da cidadania, e a questão ambiental também. Porque cada vez mais a gente produz energia, para quem? Para quê?
(*) Hilaine Yaccoub tem um blog onde posta assuntos relacionados ao consumo: http://www.teiasdoconsumo.blogspot.com/

4 comentários sobre “"Eles desconhecem: os engravatados estão lá dentro dos seus escritórios, a visão é extremamente estereotipada"”

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  2. Gostei dos comentarios apesar de não concordar com todos os argumento. Trabalhei 10 anos na Ampla e atuei no combate ao furto de energia e serviço social. Gostaria de participar dessas discursões, existem mitos que distorcem a visão que se tem sobre estas comunidades.

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