Economia da Longevidade

No decorrer do século XXI, o Brasil ainda apresenta uma faceta de problemas econômicos e sociais típicos do século XIX. Essa marca arcaica, talvez fruto da tardia transição entre a sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial, é verificada nos indicadores socioeconômicos que apontam dedo em riste para a consolidação do que há de pior em termos de desigualdade: a pobreza extrema. Pobreza marcada pela fome de mais de 15 milhões de brasileiros largados à própria sorte, situados abaixo da linha de pobreza extrema. Essa patologia social é típica do subdesenvolvimento – é o sinal mais agudo da exclusão social que ganha contornos marcantes quando se pensa que a economia brasileira – pujante de um lado (o econômico), mas cambaleante, de outro (o social) – faz do crescimento econômico apenas moeda de troca para benefício de uns poucos, à medida que convive pacificamente com uma das mais vexatórias concentrações da renda do planeta.
O que poderia atenuar a miséria desse século XXI nesse Brasil de vastas terras ociosas característica, aliás, de 400 anos de latifúndio, são as conhecidas e esquecidas reformas estruturais que ainda não foram feitas. As reformas? Primeiramente, a tributária (livrando o enorme peso sobre as costas daqueles que ganham baixos salários, o que impossibilita consolidar uma estrutura progressiva, pois, atualmente, quem ganha muito paga pouco e quem ganha pouco paga muito); a social (que ainda não consolidou o estado de bem-estar social, em que pese avanços assegurados desde a Constituição de 1988), e, por fim, a agrária (que mantém intacta a estrutura fundiária, cuja característica maior é ser muito concentrada). Fazer essas reformas e amenizar a chaga social da desigualdade é o desafio maior a ser enfrentado por qualquer governo.
Soma-se a esses problemas outro desafio: preparar desde o presente momento a estrutura econômica para enfrentar a escassez de mão-de-obra que acontecerá daqui a 18 anos. Isso mesmo: o Brasil que sempre teve mão-de-obra abundante para os serviços mais simples sofrerá uma reversão. Os serviços considerados mais simples, cuja baixa remuneração dispensa qualificação mais apurada, serão diminutos em 2030. Isso decorre de uma situação inusitada: de acordo com os demógrafos haverá uma considerável redução da nação. Daqui a 18 anos, portanto, em 2030, o número de nascidos será bem menor do que o número de mortes. A estimativa é que teremos uma população em 2030 de 207 milhões, ante os 240 milhões que estavam previstos por estudos realizados pela demografia no início dos anos 1990.
Isso se relaciona ao processo de envelhecimento da nação e, por conseguinte, aumenta a dificuldade na formação e capacitação de força nova no mercado de trabalho. Lembremos, nesse pormenor, que em 2008 havia no Brasil 3 milhões de pessoas com 80 anos ou mais; em 2030, confirmando as estimativas, esse contingente será superior a 20 milhões. Até 2025, o Brasil, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), ocupará o sexto lugar no mundo entre os países com o maior número de pessoas idosas.
No que toca ao perfil da população, em especial ao envelhecimento populacional, hoje mesmo já não há política pública social adequada para lidar com esse fato. Faltam as mais singelas condições de acessibilidade aos idosos. Não há políticas focadas para a sociabilidade mínima que se exige num país que pretende ser chamado de “país sério”. Cabe também às ciências econômicas atentar para o estudo desse fato. Metodologicamente, já há estudos interessados nessa perspectiva, chamando essa área do conhecimento de “Economia da Longevidade”.
Conquanto, se hoje as políticas desenhadas pela economia da longevidade são ainda incipientes, espera-se que numa situação onde teremos mais idosos, como será o caso em 2030, vários problemas estejam amenizados.
É desnecessário salientar que o tamanho de uma economia, com todas suas necessidades e potencialidades, está diretamente relacionada ao tamanho e ao perfil de sua população. Cabe lembrar, todavia, que, segundo projeções, em 2030 o Brasil estará entre as cinco maiores economias do mundo, acumulando um PIB de US$ 3,2 trilhões. O PIB, de hoje até lá, crescerá 150%, apontando um crescimento médio de 4% a 4,5% ao ano. Seremos, em 2030, o quarto ou quinto maior mercado consumidor do mundo.
Pelas políticas públicas, a nossa concepção sempre foi a de cultuar a juventude. Chegou a hora agora de pensarmos no “clube da terceira idade” – a da melhor idade – e propor a essa geração que tanto contribuiu com o País, políticas de sociabilidade adequadas.
Em recente entrevista, o economista Márcio Pochmann aponta bem essa problemática: “Um país com uma sociabilidade mínima exigiria centros de entretenimento, de lazer, de cultura de grande envergadura. Hoje, infelizmente, o nosso centro de integração é o shopping-center. Isso aí não é integração alguma, isso aí é mercantilização do tempo livre”.
Como podemos notar, os desafios continuam presentes. Resta-nos esperar e fazer votos que esse e os próximos governos se sensibilizem, de fato e de direito, em relação a esse assunto e, passem a desenhar políticas públicas para reverter a situação de descaso hoje verificada para com a geração da melhor idade. O tempo passa rápido. É hora de agir! 2030 está logo aí!
(*) Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário. Mestre pela USP em Integração da América Latina, especialista em Política Internacional (FESP), com passagem pela Universidad de La Habana (Cuba). prof.marcuseduardo@bol.com.br

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