“É URGENTE UMA OPERAÇÃO ‘FICHA LIMPA’ NA MÍDIA BRASILEIRA”

Renato Rovai (editor da revista Fórum), Ubiraci Oliveira, o Bira (da CGTB), Guto (do Sindicato dos Jornalistas) e Miro (do Centro Barão de Itararé). Foto: Jadson Oliveira.

O inverno está indo embora e os paulistanos viveram uma quinta-feira, dia 23, de calor. Daí que cerca de 300 pessoas se apertaram e suaram muito no Auditório Vladimir Herzog (jornalista morto sob tortura durante a ditadura), do Sindicato dos Jornalistas em São Paulo – com capacidade para 120 pessoas sentadas – para mostrar sua indignação contra o que consideram uma campanha suja e desesperada da velha mídia brasileira, que busca levar a disputa presidencial para o segundo turno, diante da provável vitória no próximo dia 3 da candidata do governo Lula, a ex-ministra Dilma Rousseff (da coligação liderada pelo PT), conforme preveem todos os institutos de pesquisa.
A frase-título acima está na mensagem Pela mais ampla liberdade de expressão, lida – e interrompida seguidamente pelos aplausos – por Altamiro Borges, o Miro, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, entidade organizadora da manifestação: “Solicitar, através de pedidos individuais e coletivos, que a vice-procuradora regional eleitoral, Dra. Sandra Cureau, peça a abertura dos contratos e contas de publicidade de outras empresas de comunicação – Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo –, a exemplo do que fez recentemente com a revista CartaCapital. É urgente uma operação “ficha limpa” na mídia brasileira”.
Aprovadas cinco propostas do Centro Barão de Itararé

Miro dirigiu o ato (atrás Gilmar Mauro, do MST, e ao lado Nivaldo Santana, da CTB). Foto: Jadson Oliveira.

Esta foi uma das cinco propostas feitas pelo Centro Barão de Itararé e aprovadas com entusiasmo pela plateia. Foi uma decorrência da primeira: “Desencadear de imediato uma campanha de solidariedade à revista CartaCapital, que está sendo alvo de investida recente de intimidação”. Foi ressaltada a necessidade de fortalecimento dos chamados veículos alternativos e sugerida uma campanha de assinaturas entre as pessoas comprometidas com a democracia e os movimentos sociais de publicações como Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Revista do Brasil, jornal Brasil de Fato, jornal Hora do Povo, entre outros, “que sofrem de inúmeras dificuldades para expressar suas idéias, enquanto os monopólios midiáticos abocanham quase todo o recurso publicitário”.
Outra proposta : “Deflagrar uma campanha nacional em apoio à banda larga, que vise universalizar este direito e melhorar o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) recentemente apresentado pelo governo federal”, com o pedido de “pressão social” neste sentido. Decidiu-se também apoiar a proposta do jurista Fábio Konder Comparato, que prepara uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) por omissão do Congresso Nacional na regulamentação dos artigos da Constituição que versam sobre comunicação, inclusive proibindo os monopólios.
A última proposta foi a redação de um documento, “assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras e o papel que a chamada grande imprensa tem jogado neste processo decisivo para o país. Ele deverá ser amplamente divulgado em nossos veículos e será encaminhado à imprensa internacional”.
“Os inimigos da democracia não estão no Auditório Vladimir Herzog”
A mensagem lida por Miro se ocupou ainda em explicar que aquele ato “adquiriu uma dimensão inesperada”, acrescentando: – Alguns veículos da chamada grande imprensa atacaram esta iniciativa de maneira caluniosa e agressiva. Afirmaram que o protesto é “chapa branca”, promovido pelos “partidos governistas” e por centrais sindicais e movimentos sociais “financiados pelo governo Lula”. De maneira torpe e desonesta, estamparam em suas manchetes que o ato é “contra a imprensa”. E retrucou que, na verdade, ali estavam os comprometidos com a democracia, com a verdadeira liberdade de imprensa, ao contrário da grande mídia, que apoiou o golpe militar de 1964, apoiou a censura, apoiou a tortura.
Cerca de 300 pessoas se apertaram no auditório do sindicato dos jornalistas. Foto: Jadson Oliveira.

“Os inimigos da democracia não estão no Auditório Vladimir Herzog”, proclamou, arrancando palmas e muita emoção especialmente entre os assistentes mais idosos, que viveram os tenebrosos dias da ditadura. Lembrou que “o movimento social sabe que a democracia é vital para o avanço de suas lutas e para conquista de seus direitos. Por isso, está aqui! Ele não se intimida mais diante do terrorismo midiático”, arrematando: “Não propomos um “controle da mídia”, termo que já foi estigmatizado pelos impérios midiáticos, mas sim que a sociedade possa participar democraticamente na construção de uma comunicação mais democrática e pluralista”.
Logo em seguida, José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e secretário geral da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), leu o manifesto Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação, falando do aviltamento do trabalho dos profissionais da redação diante da tirania das empresas. Destacou que “a liberdade de imprensa é o principal instrumento do jornalista profissional. Não é propriedade dos proprietários dos meios de comunicação”. E esclareceu: “Os jornalistas perderam força e importância no processo de elaboração da informação no interior das empresas. Cada vez menos jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública. Ela passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a dita orientação editorial são penalizados”.
Os manifestantes expressaram sua indignação contra o "denuncismo" partidarizado da mídia. Foto: Jadson Oliveira.

O espírito do ato “contra o golpismo midiático e em defesa da democracia” foi, portanto, a exaltação da democratização da mídia, pela liberdade de expressão, e críticas veementes aos “latifúndios” da chamada grande imprensa e ao “denuncismo” partidarizado. A todo momento alguém gritava entre os participantes algum dito em favor de Dilma e contra o candidato da oposição, o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB-DEM). E também contra publicações da cada vez mais conhecida como “velha mídia”, “mídia gorda” ou PIG (Partido da Imprensa Golpista), designação já consagrada entre blogueiros e internautas. Um cartaz aberto na platéia escancarava: “Folha mente”.
“O próximo governo tem de investir na democratização da mídia”
Este mesmo espírito impregnou os pronunciamentos dos representantes de partidos, centrais sindicais e entidades do movimento social. Gilmar Mauro, da direção nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), frisou estar dentro da lógica da luta popular a criminalização dos movimentos sociais por parte da velha mídia. Disse mais ou menos assim: “Se ela começar a falar bem da gente, aí sim devemos nos preocupar, porque certamente estaremos do lado errado ou fazendo algo errado”. E defendeu: “O próximo governo tem de investir na democratização da mídia, na democratização da terra e na democratização da economia”. Falaram também dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), Movimento dos Sem-Mídia (MSM), e dos partidos políticos PC do B, PDT e PSB. ?????
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Os representantes do PT e da UNE (União Nacional dos Estudantes) foram anunciados, mas não chegaram a tempo, pois o ato teve a duração abreviada (pouco mais de uma hora, a partir das 7:15 da noite), devido ao aperto e ao calor. Os discursos foram breves, de acordo com o apelo de Miro, que explicou que os ataques da mídia contra a manifestação chamaram mais gente do que o esperado. Pensou-se até em transferi-la para a porta do sindicato, na Rua Rego Freitas, mas não havia infraestrutura para tal. Além do pessoal comprimido no auditório, muita gente ficou pelos corredores e entrada do prédio.
Luiza Erundina (ao lado Miro) fez o último discurso da noite, o mais exaltado e, claro, muito aplaudido. Foto: Jadson Oliveira.

O último discurso e o mais exaltado – evidentemente aplaudidíssimo – coube à deputada federal Luiza Erundina (PSB), ex-prefeita da capital, que dedica grande parte de sua ação parlamentar à luta pela democratização da mídia. Realçou os avanços representados pela realização da primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em dezembro do ano passado, e enfatizou a iminente vitória de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ser presidente do Brasil, conforme todos os prognósticos. No final foi entoado o Hino Nacional.
(A íntegra dos manifestos do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo está, respectivamente, no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha, e no sítio do sindicato).
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em São Paulo. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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