É preciso ter arma e munição para a batalha midiática

Foto: Reprodução internet.
Foto: Reprodução internet.

Qual seria o passo à frente a ser dado pelas esquerdas brasileiras? Despertar suas forças para a necessidade da luta pela construção duma poderosa rede de mídias alternativas, que prefiro chamar mídia contra-hegemônica. Desarmados como estamos, é brincar de fazer política. Perdemos em 1954, perdemos em 1964 e voltamos a perder em 2016.
De Salvador-Bahia – Com o título ‘A democracia se tornou uma batalha midiática’, publicamos na semana passada aqui no nosso Fazendo Media artigo do jornalista e professor Washington Uranga que traduzi do jornal Página/12. É uma frase atribuída ao estudioso colombiano Omar Rincón.
O artigo, cujo título original é ‘Os meios de comunicação e a democracia”, ressalta o protagonismo da mídia hegemônica na luta política atualmente na América Latina, fazendo referências ao golpe midiático-parlamentar-judicial no Brasil e à situação da Argentina, onde a direita conseguiu ganhar a presidência através de eleições democráticas.
Tal protagonismo – no caso do Brasil, da Rede Globo e demais monopólios da mídia (TVs, rádios, jornais, revistas semanais – com exceção da Carta Capital -, plataformas digitais e redes) -, especialmente depois da degola de Dilma e com a caçada ora em curso de Lula, é hoje reconhecido e combatido pelas mais diversas forças de esquerda.
O que parece não ser reconhecido pelas mais diversas forças de esquerda – refiro-me especificamente ao Brasil – é a fraqueza das armas e munições para a batalha midiática (repare que deixo de lado outra fundamental frente de luta que são as mobilizações de rua, até agora, na minha opinião, também insuficientes).
Uso o “também” porque está implícito que considero flagrantemente insuficientes as armas e munições que temos para a batalha midiática. Aliás, tal insuficiência já foi reconhecida por um dos maiores estudiosos da matéria no Brasil, o professor Laurindo Lalo Leal Filho, em entrevista ao jornalista argentino Darío Pignotti, do Página/12 e do portal Carta Maior.
Creio que a tendência é esta insuficiência ganhar a cada dia maior reconhecimento entre as forças populares e nacionalistas, na medida mesmo em que os golpistas avancem para a degola de Lula e para a execução das pautas anti-populares e entreguistas, além do incremento da repressão, até agora mais visível em São Paulo, justamente porque lá a mobilização tem se mostrado mais eficiente e a Polícia Militar é comandada diretamente pelos tucanos.
Não é à toa que Lula, nossa liderança maior, sempre refratário diante da necessidade de se enfrentar os monopólios da comunicação, tenha sugerido há poucos dias a criação duma poderosa rede nacional de comunicação popular na Internet, propondo a participação de movimentos sociais e partidos como PT, CUT e MST. Lembrou o exemplo do sucesso da TVT, a TV dos trabalhadores, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.
Como não há – na minha opinião – um franco reconhecimento de nossa fraqueza neste campo, não se avança um passo à frente, a exemplo deste sugerido por Lula, o qual, até agora, pelo que sei, continua uma simples sugestão.
Qual seria este passo à frente? Despertar as forças de esquerda para a necessidade da luta pela construção duma poderosa rede de mídias alternativas, que prefiro chamar mídia contra-hegemônica (o jornalista Mino Carta comentou uma vez num encontro de blogueiros que não gosta desta coisa de “alternativo”; talvez tenha suas razões, passa a ideia dum troço à margem, menor, ineficiente…)
Tancredo: brigo até com o Papa, mas não com a Globo
Então, temos que pensar grande, juntar forças e partir para criar emissoras de TV, de rádio, plataformas na web e até jornais (de papel) e revistas (de papel). Verdadeiros veículos de comunicação de massa para disputar a hegemonia na cabeça e no coração do povo brasileiro, submetido ao massacre permanente do pensamento único, dos “valores” da direita. A Internet vem aumentando sua penetração, sobretudo entre os mais jovens, mas acredito ser suicídio político desprezar os meios tradicionais.
Se com governos como os de Lula e Dilma não conseguimos avançar nesta pauta, claro que agora com a direita na Presidência a luta se tornou ainda mais difícil. É bastante lembrar que uma das primeiras providências do governo de Temer foi atacar o pouco que alcançamos neste item, a exemplo da investida contra a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e o corte dos minguados anúncios publicitários nos blogs/sites progressistas.
Esta semana, inclusive, já se anunciou que a TV Brasil passará a retransmitir a programação da TV Cultura, que é vinculada ao governo tucano de São Paulo. É uma lógica elementar: um governo de direita não precisa de mídia pública ou estatal, porque os monopólios privados vivem sugando o dinheiro público e atuam como integrantes do governo. Na verdade, ditam a linha de governo.
Neste cenário, é brincar de fazer política imaginar que podemos travar a batalha midiática, dispondo de tão parcos armamentos, contra monstros como a Rede Globo. Ainda mais levando em conta que não tivemos forças para fazer andar a luta pela democratização das concessões de rádio e TV.
Cito aqui, particularmente para reflexão de nossos companheiros blogueiros progressistas – que fazem um trabalho notável de resistência democrática, mas não têm poder de fogo para fazer o contraponto necessário à mídia hegemônica -, declaração de um dos maiores raposas da política brasileira, Tancredo Neves:
“Eu brigo com o Papa, com a Igreja Católica, com o PMDB, brigo com todo mundo… só não brigo com o doutor Roberto (Marinho)”. A frase foi dita pelo Tancredo recém-eleito presidente através de eleição indireta, em 1985, a Ulysses Guimarães, que estava inconformado com a indicação de Antônio Carlos Magalhães para o Ministério das Comunicações.
Será que hoje, com a força crescente da Internet, um Tancredo já se atreveria a brigar com a Globo?
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano. Trabalhou nos jornais Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Diário de Notícias, O Estado de S.Paulo e Movimento. Depois de aposentado virou blogueiro e tem viajado pela América do Sul e Caribe.

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