“É preciso desconfiar de tudo”

Para presidente do Tortura Nunca Mais, movimentos sociais estão sendo cooptados pelo capital
Para presidente do Tortura Nunca Mais, movimentos sociais estão sendo cooptados pelo capital

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, Cecília Coimbra, afirmou não acreditar mais que a política convencional possa resolver os problemas da desigualdade pelo mundo. Em conferência no VI Seminário de Psicologia e Direitos Humanos, no último dia 10, ela defendeu a aposta nas ações de micropolítica e criticou a cooptação dos movimentos sociais pelos interesses do capital.

Para Cecília, o Estado hoje se diz garantidor dos direitos sociais, mas acreditar nisso seria cair em uma “armadilha”. De acordo com ela, o que move o mundo em sua conjuntura atual é o interesse do capital e o pouco que se faz em termos de políticas públicas só é feito por causa das lutas da sociedade civil organizada. Segundo a ativista, entretanto, é preciso cuidado:

“Os movimentos sociais estão sendo cooptados pelos cantos de sereia do neoliberalismo. É o que aconteceu, por exemplo, com o Evo Morales na Bolívia e com as Madres de Mayo na Argentina, que hoje são um braço político do governo Kirchner”, explicou. “A gestão do capital hoje, na América Latina, se dá por meio das chamadas democracias ‘populares’, que de popular não têm nada.” É por isso que, para ela, a alternativa está em estimular a micropolítica, o que não significaria uma oposição à macropolítica, mas apenas uma nova frente de luta.

Antes da palestra, aconteceu no seminário uma oficina de grafite e o responsável, o grafiteiro Dant, preparou um painel especial que foi exposto durante a conferência. Cecília elogiou o trabalho do artista e ressaltou que é justamente esse o tipo de prática que precisa ser fomentado. “Precisamos continuar sendo uma pedra no sapato dos governos, para mostrar que nós não fomos cooptados”, afirmou.

Cecília, ao lado do painel do grafiteiro Dant: aposta na micropolítica
Cecília, ao lado do painel do grafiteiro Dant: aposta na micropolítica

Cecília, que também é psicóloga, advertiu ainda para uma tendência discursiva que utiliza os especialismos para demarcar os “leigos”. Assim, são definidos no debate público aqueles que não podem falar sobre determinado assunto por não serem especialistas. “É o velho esquema das disciplinas do Foucault”, explicou. “Mas eu acredito que é nesses pequenos saberes cotidianos que temos que investir.”

Outro ponto importante a ser pensado, para ela, é a saturação do discurso dos direitos humanos. “Criar comissões de direitos humanos, falar sobre direitos humanos, hoje já não significa nada. Todos fazem. Até o Bush”, ironizou. “Temos que pensar em nossas práticas diárias, pois são elas que determinam os resultados do que vemos no mundo. Temos que nos perguntar, por exemplo, o porquê de ter tão pouca gente aqui neste auditório hoje”, criticou.

Para a psicóloga, é essencial desconfiar de tudo, porque hoje a dominação se faz cada vez mais pela implantação de ideias e pela produção do pensamento, de modo que uns poucos pensam por todos os outros. “Nós naturalizamos tudo e nos acostumamos com o que tem de pior, sem o menor senso crítico. Naturalizamos, afinal, o que não é nem um pouco natural”, concluiu.

Ao final, Cecília lembrou também da comemoração do aniversário do Grupo Tortura Nunca Mais, que está completando vinte e cinco anos. “É uma data importante, mas quem dera que não precisássemos mais existir”, comentou.

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