E por detrás do ‘milagre’ do resgate…

Na última quarta-feira o mundo inteiro acompanhou comovido o resgate dos 33 mineiros que estiveram enclausurados a 622 metros abaixo do chão por mais de dois meses. A mídia internacional, entretanto, que reproduziu o discurso oficialista de animosidade de que a salvação dos mineiros era um “milagre”, deixou em segundo plano a problematização das péssimas condições trabalhistas enfrentadas pelos mineradores chilenos.

Segundo dados do Serviço Geral de Geologia e Mineração do Chile, só neste ano 31 mineiros já foram mortos vítimas de 28 acidentes de trabalho. Esses casos, no entanto, não apareceram nos principais meios de comunicação locais e internacionais. Só nos últimos dez anos, foram 373 trabalhadores mortos nas minas.

Para o secretário do sindicato de trabalhadores da mineradora San Esteban, proprietária do acampamento San José, onde aconteceu o acidente, o trabalho dos mineradores chilenos vem sendo constantemente precarizado. “Não se escuta nossa voz quando dizemos que existem perigos e riscos”, alertou o dirigente sindical.

De fato, em 2003 os trabalhadores da San Esteban já haviam encaminhado um pedido formal à justiça para que a San José fosse fechada, mas a questão não prosperou nas instâncias legais. Em março de 2007, depois da morte de um mineiro, ela chegou a ser fechada por falta de segurança, mas já no ano seguinte voltou a suas atividades normais, apesar das reclamações dos funcionários. Hoje, uma comissão investiga se houve falhas na fiscalização que permitiu a reabertura do local.

O chileno Miguel Lemos trabalhava no acampamento, mas deixou a mina logo depois da morte de seu companheiro de trabalho, em 2007. Hoje, trabalha fazendo bicos, mas diz que se sente melhor porque, além de ganhar mais, não se arrisca como antes. “Não tinha nenhuma segurança. É um trabalho que deixa doente”, disse ele em entrevista ao portal G1. “Eles trabalham de oito a doze horas sem comer. Quer dizer, podem levar comida, mas lá não há nada e não nos oferecem nada. Eu já quebrei dois dedos e um dente. Nunca me ajudaram com isso”, contou. “Não me arrependo de ter deixado de ser mineiro.”

Segundo Hernán Tuane, advogado da mineradora, o acidente que aprisionou os 33 mineiros em agosto aconteceu por causa de falhas geológicas. “Se não tivesse segurança, se não houvesse o refúgio onde os 33 mineiros estavam, estariam todos mortos”, garantiu ele.

Apesar disso, para familiares dos mineiros as declarações oficiais da San Esteban são um absurdo. “Os empresários querem tirar de si a responsabilidade do que aconteceu. A mineradora vinha com problemas já há bastante tempo”, afirmou um dos parentes ao portal Emol.com.

O presidente da Confederação Mineira, entidade que agrupa várias organizações do setor, também denunciou os problemas dos trabalhadores. “Nosso país vive da mineração e ganha muito dinheiro com isso, é uma atividade altamente produtiva”, analisou. “É lamentável que, apesar disso, seja tão perigoso para os trabalhadores que passam metade do dia na escuridão dos túneis.”

Para a professora de Jornalismo da UFRJ Cristina Rego Monteiro, a narrativa midiática transmitida internacionalmente formatou os acontecimentos sob a ótica do heroísmo e da superação, escondendo a raiz do problema. “É impressionante a forma como a cobertura invisibilizou a condição de trabalho desses mineradores, evitando a depreciação da imagem da mineradora envolvida”, comentou.

Diante da pressão, o presidente chileno Sebastián Piñera prometeu uma reforma na legislação trabalhista. Depois do resgate, classificado por ele como um “milagre”, afirmou que um acidente como esses “nunca mais poderia acontecer no Chile”.

Segundo estatísticas da Organização Internacional do Trabalho, mais de 75% da população mundial não desfruta de um conjunto de garantias sociais que lhes permita fazer frente ao risco de vida no trabalho. Para a OIT, essa é, aliás, uma questão indispensável para a erradicar a pobreza e a fome, um dos objetivos do milênio. Parece, no entanto, que ainda estamos longe de atingi-lo.

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