A ofensiva terrestre de Israel sobre a Faixa de Gaza, que começou na noite de quinta-feira (17), ao fim de dez dias consecutivos de ataques aéreos das forças militares israelenses e de grupos armados palestinos, acentua a necessidade de uma ação internacional urgente para proteger os civis em Gaza e em Israel de mais crimes de guerra cometidos por ambos os lados no conflito, avalia a Anistia Internacional.
“Os incessantes ataques aéreos de Israel sobre Gaza expressam um total desrespeito das forças militares israelenses pela vida e propriedades dos civis, que têm de ser protegidas ao abrigo das leis internacionais humanitárias”, frisa o diretor do Programa para Oriente Médio e Norte de África da Anistia Internacional, Philip Luther.
Mais de 240 palestinos morreram antes mesmo do início da ofensiva terrestre, até às 15h de 17 de julho: pelo menos 171 deles civis, incluindo 48 crianças e 31 mulheres, de acordo com os dados do Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas. Um civil israelense foi morto devido a um morteiro lançado a partir de Gaza em 15 de julho.
Pelo menos mais 30 palestinos morreram na Faixa de Gaza desde o início da ofensiva terrestre israelense.
“Tomar os civis como alvo e atacar diretamente propriedades civis não tem justificativa. Ambos os lados no conflito, que repetidamente têm violado as leis internacionais com impunidade, devem ser responsabilizados. E o primeiro passo para isso está numa investigação internacional mandatada pelas Nações Unidas”, defende Philip Luther.
Mais de 1.780 residências foram totalmente destruídas ou ficaram inabitáveis na sequência de ataques das forças israelenses, o que deixou pelo menos 10.600 habitantes de Gaza sem casa. Propriedades civis israelenses também têm sofrido danos causados por foguetes disparados indiscriminadamente a partir da Faixa de Gaza.
Destruição de casas civis com famílias inteiras lá dentro
Oito membros de uma família foram mortos num único ataque aéreo israelense às primeiras horas da manhã de 10 de julho sobre a casa de Mahmoud Lufti al-Hajj, no campo de refugiados Khan Younis, na Faixa de Gaza. Mais de 20 vizinhos desta família ficaram feridos no raide aéreo, que não foi precedido de nenhum aviso.
Um dos dois únicos sobreviventes daquela família, Yasser Mahmoud Lufti al-Hajj, contou à Anistia Internacional: “Vi o meu tio sair de dentro de casa com a minha mãe nos braços, morta. Ele saiu correndo e eu gritei que queria ver a minha mãe… depois fui para o hospital para saber se alguém tinha sobrevivido. Descobri lá que o meu irmão Tareq ainda estava vivo, mas ele morreu depois. Entrei em pânico e me deram umas injeções para me acalmar”.
Um dos vizinhos da família Hajj explicou que a zona visada naquele ataque aéreo israelense “é densamente povoada”. “O ataque não foi contra uma certa casa, mas sim contra toda a comunidade e causou destruição total”, afirmou o residente do campo Khan Younis.
“Ataques deliberados contra casas civis são crimes de guerra, e a dimensão esmagadora da destruição de casas de civis, em alguns casos com famílias inteiras dentro, aponta para um aflitivo padrão de conduta de repetidas violações das leis da guerra”, defende o diretor do Programa para Oriente Médio e Norte de África da Anistia Internacional.
As autoridades israelenses não têm fornecido informações sobre casos específicos para justificar tais ataques. Se não o fizerem, esses ataques constituem crimes de guerra e trata-se de ações de castigos coletivos sobre populações civis.
Mesmo que alguém que se encontre numa determinada casa seja membro de um grupo armado palestino, um ataque contra uma residência civil onde se encontra toda uma família deve muito provavelmente ser considerado um ataque desproporcionado.
Em alguns casos, as forças israelenses lançaram raides aéreos sobre casas civis sem qualquer aviso prévio nem dando aos residentes tempo suficiente para fugirem. Em outros casos, civis foram atingidos e mortos por mísseis israelenses nas ruas quando não havia indício de qualquer atividade de grupos armados palestinos na área visada no ataque.
900.000 pessoas sem água potável nem rede de esgoto
Os raides aéreos e bombardeios israelenses também têm causado danos devastadores na infraestrutura de água e saneamento por toda a Faixa de Gaza. Três trabalhadores foram mortos quando estavam fazendo reparos cruciais e, devido ao avanço dos ataques, a realização destes consertos agora são demasiado perigosas em algumas zonas de Gaza.
Na quarta-feira, 16 de julho, as Nações Unidas divulgaram que pelo menos metade da população de Gaza – mais de 900 mil pessoas – está sem abastecimento de água. Os danos na rede de esgoto e abastecimento, e a contaminação em potencial dos suprimentos de água que daí resulta, criaram mais uma emergência de saúde pública na região.
“A infraestrutura de Gaza esta à beira do colapso e as consequências de uma continuada falha no abastecimento de água potável poderão ser catastróficas”, avalia Philip Luther.
Desde o início do conflito, pelo menos 84 escolas de Gaza sofreram danos e pelo menos 13 centros de assistência médica tiveram que fechar. O hospital de reabilitação Al-Wafa, por exemplo, foi bombardeado pela segunda vez nesta quinta-feira, obrigando os funcionários a retirar todos os doentes do edifício, que já se encontrava em chamas. Em pouco tempo o edíficio foi totalmente destruído.
“Em vez de atacarem edifícios médicos, em violação das leis internacionais, as forças israelenses têm é de proteger os médicos e os doentes, e garantir que aqueles que são feridos nos ataques consigam chegar a locais onde lhes seja prestada assistência clínica em Gaza e, quando necessário, também fora da Faixa”, sustenta Philip Luther.
Israel e também o Egito (com o qual a Faixa de Gaza tem também fronteira terrestre) têm de garantir que o fornecimento de medicamentos e material médico, urgentemente necessários, assim como de combustível suficiente, cheguem à Faixa de Gaza de forma regular.
Foguetes e ataques a partir de escolas e zonas residenciais
O Hamas e os grupos armados palestinos também estão desrespeitando as leis internacionais e colocando civis em perigo. Na quarta-feira, 16 de julho, peritos da agência das Nações Unidas responsável pelos refugiados palestinos (a UNRWA) descobriram cerca de 20 foguetes escondidos numa escola abandonada na Faixa de Gaza.
Pelo menos 22.900 civis estão sem casa e abrigados nas 24 escolas geridas pela UNRWA por toda a Faixa de Gaza.
“Os grupos armados palestinos na Faixa de Gaza têm de parar de armazenar munições e disparar foguetes a partir de zonas residenciais”, insta o diretor do Programa para Oriente Médio e Norte de África da Anistia Internacional.
Philip Luther afirma ainda que “a ala militar do Hamas e outros grupos armados palestinos em Gaza, que já dispararam indiscriminadamente mais de 1.500 foguetes sobre Israel, têm de pôr fim a estes crimes de guerra”.
A Anistia Internacional volta a chamar as Nações Unidas à responsabilidade de impor um embargo de armas a todas as partes envolvidas neste conflito, para evitar mais violações graves das leis internacionais.
Fonte: Anistia Internacional-Brasil
