
Por Michel Goulart da Silva* / A Terra é Redonda, 07/05/2026
Introdução do autor ao livro recém-lançado
1.
O golpe de 1964 e a ditadura que o seguiu suscitou, ao longo de décadas, interpretações variadas e até mesmo antagônicas. Essa variedade de perspectivas de análise tem suas bases teóricas e políticas, associada em grande medida às disputas políticas travadas durante a ditadura e que reverberam na contemporaneidade. Essas disputas também levaram à produção de pesquisas acerca do tema, mobilizando tanto segmentos envolvidos diretamente com o regime ou com a oposição como pesquisadores acadêmicos.
Uma investigação acerca das disputas políticas relacionadas ao golpe e à ditadura colocam a necessidade de identificar os processos de diferentes naturezas e os sujeitos envolvidos das diversas disputas. Nesse sentido, um primeiro elemento passa por não limitar a investigação a um evento conjuntural como o golpe ocorrido em 1964.
Os militares vinham elaborando um projeto de desenvolvimento econômico e político atrelado ao capitalismo desde pelo menos a década de 1940. Essa doutrina, em torno da ideia de “segurança nacional e desenvolvimento”, elaborada pela Escola Superior de Guerra (ESG) e difundida entre as “elites” civis, colocava como perspectiva a localização do Brasil como uma “potência média” que representasse os interesses imperialistas na América do Sul. Em grande medida essa formulação teórica dos militares estava embasada no anticomunismo, difundido desde as décadas anteriores, e mobilizou diferentes segmentos da população, como mulheres, empresários, intelectuais conservadores, maçons, além das Forças Armadas.
O processo de construção da ditadura articulou a repressão estatal à ideia de um modelo econômico voltado para um desenvolvimento atrelado aos interesses imperialistas. Durante o chamado “milagre brasileiro”, entre o final da década de 1960 e início dos anos 1970, observou-se dados de crescimento econômico em meio ao achatamento de salários e ao ataque aos direitos dos trabalhadores. Uma das manifestações mais evidentes da repressão e da coerção promovida pela ditadura se deu entre os intelectuais, muitos dos quais levados ao exílio, e, também, no processo de ataque à autonomia das universidades.
Outra manifestação da intervenção estatal na vida dos trabalhadores se deu por meio da política urbana, voltada aos interesses privados, que levou ao processo de desenvolvimento econômico das “cidades médias” e, ao mesmo tempo, à marginalização de parcelas da população trabalhadora. Esse conjunto de ideias em torno dos eixos de desenvolvimento e segurança foi difundido por meio dos “ciclos de estudos” da associação de diplomados da ESG, ocorridos a partir do final da década de 1960, voltados à participação de membros de governos nos estados e de setores empresariais.
2.
O esgotamento do projeto econômico da ditadura e, principalmente, o processo de reorganização dos trabalhadores, fizeram emergir a perspectiva de derrubada do regime e de um processo de transição para uma nova ordem institucional. Contudo, nesse processo, as classes dominantes, que permaneciam no controle do Estado, centraram seus esforços na defesa da propriedade privada, mantendo no novo aparato estatal elementos de repressão e de priorização da segurança, baseados em ideias como a de “defesa nacional” ou de “combate ao terrorismo”.
O novo ordenamento jurídico que constituiu a Nova República acabou por expressar as contradições do processo de transição, que, por um lado, manteve elementos de defesa da ordem capitalista e, por outro, inseriu reivindicações expressas pelas mobilizações dos trabalhadores. Nesse processo, foram legitimadas manobras da ditadura no sentido de garantir a estabilidade política e social, materializada em medidas como a anistia aos torturadores e aos agentes públicos que atuaram na repressão e a criação de empecilhos ao acesso a documentos públicos que mostrem os crimes cometidos pela ditadura.
Essa conciliação forçada teve diferentes consequências. Uma delas passou pela constituição de uma memória que minimiza as consequências da ditadura para a sociedade ou mesmo procura apagar os crimes cometidos pela ditadura. Essa ação passa pela postura da imprensa, que, sem assumir os erros de ter apoiado a ditadura ou mesmo sem assumir sua conivência com a repressão, procura minimizar as ações criminosas do regime, chegando a difundir expressões como a de “ditabranda”.
Essa influência negacionista se estendeu à historiografia, em grande medida para combater uma produção acadêmica que, supostamente, teria sido influenciada pelos “vitoriosos” da esquerda e que fariam uma propaganda contra as ações daqueles que teriam “salvado” a nação de ações “ditatoriais” dos “comunistas”.
Essa escrita de histórias, baseada em documentos de caráter duvidoso e em relatos de memórias de membros dos governos da ditadura, acabou ficando bastante restrita aos próprios círculos militares. No entanto, ainda que tenha sido pouco difundida, essa pretensa historiografia foi base de muitas das falas dos membros do governo de Jair Bolsonaro para negar os crimes da ditadura e até mesmo homenagear por meio de ações institucionais notórios torturadores, como Carlos Brilhante Ustra.
3.
Essa desconfiança de setores militares em relação ao regime construído a partir da transição da ditadura é uma das bases que sustentam o ideário defendido pelo movimento “Escola Sem Partido”. Embora não seja possível apontar uma relação direta, percebe-se semelhanças em torno do discurso de neutralidade no ensino ou a defesa da coerção à liberdade de cátedra.
Nos últimos anos, esse tipo de ideologia ganhou força com a ampliação da difusão da ideia de que o “marxismo cultural” teria embasado ações de governos ou mesmo das instituições, em países como o Brasil ou mesmo os Estados Unidos. Essa ideia, difundida pelos setores da direita, coloca no horizonte uma perspectiva reacionária, de combate não apenas do marxismo, mas até mesmo do racionalismo que sustentou as revoluções burguesas na Europa. O anticomunismo, de vislumbrar os riscos de uma ameaça armada por parte das esquerdas, passou a combater até mesmo a ação institucional reformista de setores da esquerda que defendem abertamente a manutenção da ordem e o capitalismo.
Uma das consequências da transição incompleta e da difusão de ideologias conservadoras ou mesmo reacionárias passa pela constante ameaça de um golpe, seja ele uma ameaça real, seja apenas uma narrativa utilizada na disputa política. Nas últimas décadas, essa pretensa ameaça terminou por ser muito mais retórica do que concreta, afinal um processo golpista estaria diretamente ligado à correlação de forças entre as classes sociais e a disposição de setores das classes dominantes em levar a uma ruptura institucional.
Jair Bolsonaro, durante seu mandato como presidente, se ocupou bastante em manter a mobilização de sua base política, procurando dar a ela uma maior coesão programática e até mesmo ideológica. Essa postura levou à perspectiva de articular uma tentativa de golpe, sem sucesso, e aos atos de violência contra os prédios de órgãos públicos cometidos por bolsonaristas no dia 8 de janeiro de 2023.
Essas discussões em torno da ditadura e da transição permitem tirar pelo menos duas conclusões. Primeiro, que há a necessidade de aprofundar o debate acerca do regime vigente, caracterizado, de forma genérica, como democrático, na medida em que seus elementos mostram um conjunto de resquícios da ditadura, em grande medida por conta dos mecanismos de manutenção da segurança promovida pelo Estado e de defesa da propriedade privada.
Uma segunda conclusão passa pela percepção de que a difusão de ideologias reacionárias vem impactando na produção do conhecimento acerca da ditadura e do golpe de 1964. A violência estatal ou mesmo os crimes cometidos por agentes da repressão são relativizados, seja agentes públicos, seja por jornalistas ou mesmo pesquisadores, na medida em que as denúncias feitas contra os ditadores e seus apoiadores deveriam ser vistas com neutralidade ou levando em conta os “dois lados”.
Esse embate impacta tanto se batalha por um regime que seja de fato democrático, governado pelos trabalhadores, como para compreender efetivamente a realidade e sua dinâmica sem as deturpações da ideologia dominante. O combate aos resquícios da ditadura, denunciando seus crimes e sua brutalidade, encontra, assim, a necessidade de disputa tanto na esfera da luta política como na da escrita e denúncia dos horrores da ditadura inclusive em âmbito acadêmico.
*Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).
Referência

Michel Goulart da Silva. Ditadura no Brasil: história, memória e ideologia. São Paulo, Todas as Musas, 2026, 158 págs. [https://encurtador.com.br/HoZB]
Página de divulgação: https://www.todasasmusas.com.br/livro_ditadura.html

