
Sábado agora, aproximando-se de meia-noite meu telefone tocou. Como era véspera do meu aniversário, sentei-me disposto a receber as tradicionais felicitações dadas a um aniversariante e retribuir o carinho.
Fui pego de surpresa. O assunto da ligação passara longe da euforia esfuziante de quem liga para dar os parabéns.
Do outro lado da linha a mãe de um aluno, moradora do Cerro Corá, em tom angustiante, inicia o desabafo:
– Paulo, tudo bem? Amanhã é dia de eleições e estou perdida. Não faço ideia de quem votar. Aqui no morro uns falam para votar no Bolsonaro, os religiosos apoiam o Crivella e o pessoal do Lula fala em Jandira. Fico doidinha com medo de errar.
Um minuto para reorganizar os pensamentos e mudar de rota. Falei brevemente da minha candidata, mas deixei claro o risco de um candidato de esquerda não ir para o segundo turno. Apontei Freixo como uma opção de voto útil, mas no fim disse para ela seguir seu coração.
E foi o que ela fez. Tremendo diante das urnas, a eleitora optou por votar em branco.
– Fiquei com medo de errar. É tanta coisa que se fala desses políticos que depois a gente acaba ficando com sentimento de culpa.
Relatei esse episódio para falar das consequências desse projeto midiático de destruir as esquerdas, baseado em um discurso despolitizado e faccioso.
Tudo começou em 2013, quando a direita apropriou-se do movimento contra o aumento das passagens de ônibus para despejar seu ódio, travestido de insatisfação política. Naquele momento, a grande mídia aproveitou-se do movimento inesperado para direcionar a crítica ao governo federal, sem apontar pautas ou estimular mudanças pontuais.
De lá para cá, a idealizada moralização política atravancou-se no endeusamento de figuras do judiciário e na proteção aos políticos da direita.
O discurso apolítico, que jamais questionou ou tentou mudar o sistema, já deixou bem claro que o grande objetivo foi enfraquecer as esquerdas do cenário, iniciando pelo esmagamento do PT. As prisões sem provas concretas de líderes ou pessoas ligadas ao PT, conduções coercitivas e o massacre a Dilma Rousseff foram direcionando a opinião pública a execrar as esquerdas, o que abriu espaço para o ressurgimento da direita.
O projeto deu certo: o PT perdeu 59% das prefeituras enquanto o PSDB foi o que mais cresceu pelo país. O ponto crucial é que os dois maiores vitoriosos desta eleição, PSDB e PMDB, são os que mais apresentaram candidatos fichas-suja pelo país, além de serem os líderes do ranking em corrupção. O PMDB é segundo colocado e em terceiro vem o PSDB. O PT encontra-se em nono lugar.
Os números expostos no blog Tijolaço apontam que 61% dos cariocas que recebem até um salário mínimo demonstraram-se desinteressados pelas eleições, contra 34% dos que tem renda acima de cinco salários. Os números são parecidos no restante do Brasil.
Ou seja, as classes menos favorecidas deixaram de votar, induzidas por esse discurso apolítico. Enquanto isso, a direita cresceu, maquiando seu discurso como novo e lançando candidatos com o estigma de gestores, como é o caso de João Paulo Dória, eleito no primeiro turno em São Paulo, pelo PSDB.
Tudo isso aponta para um cenário trágico e tempos de muitas dificuldades para os mais pobres.
No Rio, a esperança de dias melhores ampara-se na candidatura de Marcelo Freixo, do PSOL.
Que o candidato e seu partido mantenham a lealdade a seus princípios, mas não deixe de pensar nesse nefasto discurso apolítico, que avalizou o avanço da direita e esvaziou as eleições municipais.
A história já nos mostrou que as consequências de um esvaziamento político são extremamente nocivas à democracia e ao equilíbrio da sociedade.
Foto(*): latuffcartoons.wordpress.com
