Direitos iguais (também) ao interno da Igreja – crítica de uma teóloga italiana

Por Lucetta Scaraffia
Extrato de uma conferência (“Mulheres e Fé: a imagem feminina da Igreja Católica nos séculos IX e X”), na Fundação Collegio San Carlo, em 6 dezembro de 2013.
– “Hoje, vou falar-lhes de um tema que todos pensam resolver bem facilmente, mediante uma condenação da Igreja por não dar espaço às mulheres. De fato, se olharmos para a Igreja de hoje, temos razão em dizer isto, porque na Igreja de hoje, o Vaticano está todo cheia só de homens. Há mulheres que lá trabalham, mas todas em posição subordinada.
– Nos níveis superiores, nos níveis em que são tomadas as decisões, aí as mulheres não se fazem prsentes.
– As Religiosas, por exemplo, constituem dois terços do universo dos Religiosos, portanto uma maioria robusta. Enquanto isso, as Mulheres Leigas tornam-se cada vez mais uma ajuda essencial a serviço das Paróquias: ensinam no Catecismo, ocupam-se do andamento da Paróquia, na Cáritas, Trata-se de uma ajuda muito forte que as Mulheres dão à Igreja. Ajuda transparente que, por outro lado, quase ninguém vê.
– Então, a Igreja hoje nos parece uma instituição misógina, por negar-se a reconhecer às Mulheres o papel do seu trabalho, ao interno da vida religiosa.
– Por outro lado, consideremos um outro fator, que é o da história da emancipação feminina. Vemos que a emancipação feminina nasceu, enraizou-se e realizou-se apenas nos países de matriz cristã. Vejamos que há uma grande dificuldade de que isto se faça em países não-cristãos (Índia, China, países muçulmanos…), onde há grandes problemas em aceitar a igualdade das Mulheres.
– É evidente que a matriz cristã lançou as sementes dessa igualdade entre mumulheres e homens. Vou falar-lhes sobre as Mulheres nos séculos IX e X, mas lhes digo que o Cristianismo lançou as sementes da igualdade.
– No Evangelho, Jesus fala continuamente com as mulheres. E no tempo de Jesus, era muito complicado falar com as mulheres, especialmente com mulheres marginalizadas. E as tratava com total paridade. À samaritana Ele diz: “Vai e dize ao teu povo…” A Maria É a Madalena que Ele se apresenta, por primeiro, como Ressuscitado. Trata as mulheres como tratava aos homens (com igualdade).
– O Evangelho é um livro emblemático quanto à mudança de tratamento em relação às mulheres, inclusive em relação às mulheres “impuras”. Ele tira das mulheres a marca da impureza física. Não há perigo em que as mulheres estejam “impuras”, de modo a justificar que se mantivessem as mulheres marginalizadas, separadas dos homens. Não são mais tratadas como “impuras”. A impureza é do coração, não do corpo, negando assim “impureza” em relação àquelas mulheres por conta de menstruação ou no período pós-parto, não se justificando por isso uma diferença real em relação aos homens.
– É assim que o Cristianismo se torna, nos primeiros séculos, uma religião de mulheres: são muitas as mulheres que se convertem ao Cristianismo, porque o Cristianismo assegurava paridade (em relação ao homem), na vida espiritual.
– Segundo Peter Brown, um grande historiador das religiões da antiguidade, nos primários séculos, havia um tratamento de paridade, ao ponto de permitir às mulheres e aos analfabetos terem uma carreira religiosa, o que revolucionou a sociedade antiga, pois, por meio da ascese, da prática ascética do jejum e da abstinência sexual, permitiu-se às pessoas, às mulheres que não sabiam ler nem escrever, e a pessoas letradas no monarquismo cristão fundado por Antão, que era um camponês analfabeto. Essas pessoas analfabetas, esses homens e mulheres analfabetos se tornam santos, fazendo uma carreira religiosa, no mesmo nível de letrados como Jerônimo, que traduziu os textos sagrados… Isto implica uma carreira espiritual para as mulheres, o que era uma novidade absoluta. Isto é importante.
– Um outro aspecto é o do matrimônio cristão. Além da aceitação da premissa do consenso entre os dois contratentes – a mulher não podia ser um objeto que passava do pai ao marido -, ele implicava os mesmos direitos e os mesmo deveres aos cônjuges. O dever de fidelidade era também para o homem, coisa que antes não acontecia. (…) Aqui houve também uma revolução, no campo do matrimônio.
– Portanto, naquele momento histórico, o matrimônio cristão constituía um ato absolutamente favorável às mulheres. Não existia divórcio. Era o repúdio. E eram sobretudo as mulheres, as repudiadas. Se o casal não tivesse filhos, a responsabilidade era atribuída quase somente à mulher, considerada estéril, e daí o repúdio. E acabava muito mal.
– Assim, o Cristianismo lançou sementes importantes que deram fruto na história. (…) O Cristianismo deu grandes santas, grandes abadessas, mulheres que construíram a cultura cristã, como os homens, contribuíram, como os homens, para a tradição cristã. Isto se deu durante toda a história do Cristianismo. Pensar em mulheres como Catarina de Siena, que falou num Sínodo, que orientou a papas e a cardeais, fazendo-o em nome de Deus. Era uma mulher analfabeta. Não sabia ler nem escrever. Ditava suas cartas e seus tratados para seus assistentes dominicanos. E era chamada a falar nesses espaços.
– Bem, as mulheres tiveram oportunidades na tradição da Igreja, que não tiveram no mundo laico. No mundo laico, somente as rainhas, algumas rainhas é que tiveram essas possibilidades. No contexto da Igreja, eram essas mulheres que, por motivo espiritual, fizeram carreira. Tudo vai mudar com a Revolução Francesa.
http://www.youtube.com/watch?v=uIqe0tuyuHk
Traduçáo: Alder Júlio Ferreira Calado

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