
Esta não é uma guerra apenas contra Gaza, mas contra a dignidade e a existência humana palestina, onde o bombardeio é apenas um meio para o exílio definitivo.
Matéria de Wisam Zoghbour / Diálogos do Sul Global / Gaza, às
Em Gaza, os mísseis não caem somente sobre edifícios, mas também sobre a memória e o direito à vida. O que Gaza vivencia hoje, diante de uma guerra bárbara, não pode ser reduzido a imagens de bombardeios e destruição. Vai, além disso, constituindo um processo sistemático para arrancar o ser humano palestino de sua terra, esvaziando o local de seu significado e identidade. É uma guerra de deslocamento por excelência, executada por uma máquina militar brutal, encoberta por narrativas internacionais tendenciosas, como se o desenraizamento de todo um povo pudesse ser justificado sob o pretexto de “autodefesa”.
As casas demolidas, as ruas esburacadas por projéteis e os campos temporários que se transformaram em cemitérios a céu aberto não são apenas imagens de destruição, mas provas de uma tentativa contínua de criar uma nova realidade palestina, sem povo. Desde o primeiro instante da guerra, ficou evidente que o objetivo ultrapassa a “eliminação das facções de resistência”, visando a própria existência palestina, transformando cidades em áreas inabitáveis e forçando as pessoas a fugirem ou migrarem rumo ao desconhecido.
Este tipo de guerra é uma reprodução da Nakba com métodos novos, mais cruéis e explícitos. Assim como ocorreu em 1948, quando mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas cidades e aldeias, hoje centenas de milhares são forçados a deslocamentos internos e externos sob pressão do medo, da morte e da destruição. A mensagem trazida por essa violência sistemática é clara: não há lugar para o palestino em sua própria terra, e não há opção a não ser partir.
O deslocamento aqui não é praticado apenas pelas armas, mas pela privação de eletricidade e água, pela destruição de hospitais, pela aniquilação de famílias inteiras e pela demolição de tudo o que conecta a pessoa à sua pátria. O palestino já não é morto por lutar, mas simplesmente por existir. Permanecer vivo se tornou um ato de resistência, e todo aquele que recusa partir é acusado de ser uma ameaça.
Foto de capa: “O palestino já não é morto por lutar, mas simplesmente por existir. Permanecer vivo se tornou um ato de resistência.” (Crédito: Unrwa)
