Desflorada Flor do Lácio

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Minha ex-professora e amiga, Sabina Aguiar, contou-me a respeito de uma aula bem interessante. Tentando ser fiel ao seu relato, transcrevo-o aqui. Eis a história, que não esqueci até hoje…

– Professora, que frase engraçada é essa?

Percebi que a frase escolhida para ilustrar o assunto que iríamos abordar naquela noite estava, realmente, chamando a atenção dos alunos. Jovens e adultos que, após um dia exaustivo de trabalho, chegavam àquela sala de aula, com características de muito cansaço. De início, foi difícil demais ajudá-los a levantar o ânimo, a coragem, a resgatarem a autoestima e acreditarem em si mesmos, em sua força, em seu valor. Foi preciso recorrer a muitas estratégias e a variadas dinâmicas; mais do que isto, foi preciso ter muito amor e muita paciência. Felizmente, agora, quase fim de ano, noventa por cento da turma já consegue ler muito bem. Por isso, caprichei mesmo ao escrever a frase: Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém! Grande surpresa e motivo de orgulho de todos eles ao saber que o autor, Ariano Suassuna, verdadeiro amante da Língua Portuguesa, foi um paraibano dedicado à valorização da nossa gente e da nossa identidade cultural como povo brasileiro.

A cada semana, sempre refletimos a respeito de um assunto relevante para nossas vidas. O tema da semana referente à nossa identidade cultural foi bastante enriquecedor e nos deixou questionamentos intrigantes. Há de se ressaltar o dia dedicado à nossa “Flor do Lácio”. Realmente, foi para eles uma grande novidade saber que esta metáfora designa o nosso idioma, isto porque foi a última língua derivada do Latim Vulgar, falado no Lácio, uma região italiana. Após receberem o soneto “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac, cujo primeiro verso “Última flor do Lácio, inculta e bela” tanto nos encantou, iniciamos uma conversa animada, até engraçada em alguns momentos, no entanto, muito preocupante.

Todos os meus alunos são pessoas simples, humildes e trabalhadoras daqui da nossa pequena cidade do interior. Incentivei-os a falar a respeito das suas experiências de leitura: O que já conseguiram ler e em que lugar estavam? Como foi a situação e o que sentiram diante de tão grandiosa descoberta? Quando a mais extrovertida começou a falar, todos os outros foram se sentindo motivados a contar também suas experiências. Foram relatos interessantes, comoventes, hilários até; sem deixar o teor de coisa séria, seríssima no meu entender. Desafiante realidade do nosso país, cujo s em seu nome vai, sutil e paulatinamente, sendo substituído por um z. E aí, pode se “dar uma grande zebra”: de nação à colônia; de ordem à desordem; de liberdade à escravidão… Que Brasil queremos ter? Surpreendentes falas que merecem registro e reflexão.

– Professora, a senhora disse que a gente tentasse ler toda palavra que fosse encontrando pela frente. Pois bem, quando vim aqui ao centro da cidade, entrei numa lojinha e consegui ler o nome nas placas. Fiquei tão contente! Perguntei à vendedora se a loja de Seu Sale vendia tapauere. A vendedora me olhou com uma cara de nojo e não me deu atenção nenhuma; saí dali me sentindo um lixo, igual cachorro com o rabo entre as pernas e me perguntando o que eu tinha falado de tão grave para a moça ficar me olhando daquele jeito. Só em casa é que fui entender, quando falei para o meu filho e ele disse que eu “paguei mico”. Meu filho já faz o ensino médio e me explicou que, na verdade, o que eu li (sale) significa em inglês venda, liquidação. E o pior foi saber que as bacias (tupperware), do jeito que eu pronunciei, não tinha nada a ver. Que vergonha, meu Deus!

– Maior vergonha que a minha não foi. Como todos aqui sabem eu sou garçom, fui solicitado no mês passado para trabalhar num grande evento aqui em nossa região. Quando falaram, pensei que tivesse a ver com alguma coisa de buzina; só depois fiquei sabendo que era um encontro do agronegócio (agribusiness). Pior foi quando o gerente disse que ia entregar a cada um de nós um tal de “fôlder”, para que todos pudessem acompanhar melhor a programação. Quando ele disse a tal palavra, pensei logo: Êpa! Comigo não, violão! Eu sou homem! E fiquei com tanto medo daquela palavra que não gosto nem de me lembrar daquele acontecido. Hoje já sei que se trata de um folheto e, quando peguei o dito cujo, consegui ler quase tudo, mas fiquei enrolado numas coisas lá. Depois de servirmos o café, num intervalo que teve, fui inventar de perguntar se não iam servir também esse tal de cofe breaque (coffee break). Todos riram da minha cara e eu me senti um verdadeiro palhaço. Mais nervoso fiquei, ainda, quando alguém perguntou se eu queria um “fundi” (fondue). Vai pra lá!

– Também passei um vexame danado, mas foi em família mesmo. Pela primeira vez, com muita alegria e ajuda da minha filha, consegui escrever esse tal de “e-mail” para uma irmã que mora em São Paulo. A resposta dela me deixou um pouco triste; acho que ela se zangou porque eu perguntei por Daniele, Carolina, Sofia e Tiago. Respondeu que eu procurasse estudar mais e que os nomes dos filhos dela não eram bregas do jeito que escrevi. Danielly, Karollyne (com pronúncia Querolaine), Sophie (com ph) e Thiago (com th) era assim que se escrevia. Disse, ainda, que nomes chiques têm que ter muito K, Y e W. Fiquei pensando no nome desses filhos de artistas, são tão simples: é Maria, João, Pedro, Joaquim, Paulo, Eva, Alice e assim por diante. Os filhos da minha patroa, por exemplo, chamam-se Maria Luísa e Carlos Eduardo; já os filhos da minha vizinha chamam-se Steffanny Rakelly e Weslley Andewerton. Isso dá um trabalho para escrever, heim, minha gente? Será que não é por causa dessas novelas sem futuro? Tem gente besta que gosta de imitar tudo que vê na televisão, não é?

– Como aluno da terceira idade e já avô, quero também falar sobre minha experiência de leitura e o que passei por aí a fora. Meus netos inventaram de me levar para conhecer um “shopping” na capital do estado. Pra ser sincero, não consegui ler quase nada em nossa língua, pois as lojas tinham cada nome esquisito! Parece até que a gente tava no estrangeiro. O maior vexame foi quando fiquei empurrando uma porta de vidro, fiz tanta força que quase quebrou. A gritaria foi geral, meus netos e a vendedora falando: Empurre! Empurre! Nessa hora fiquei até brabo e disse: Mas que diacho é isso? Aqui não está escrito puxe? Era como eu tinha lido (push). Nem quero falar para vocês do sofrimento que foi quando falei do serve-serve (self-service). Eu já sei ler, mas foi muito difícil, e mais difícil ainda porque os meus netos faziam uma cara de espanto tão grande, como se eu fosse obrigado a saber daqueles nomes. Todo tempo venho pensando nisso e confesso que fiquei muito triste. Meu Deus, em que mundo nós estamos?

– Falando em netos, Seu José, eu também ando muito triste. Minha neta quase me engole porque não sei mexer em celular, tenho dificuldade com os números, sabe, e não sei fazer ligação. Ela não me explica direito, faz tudo tão rápido e fica aborrecida quando pergunto alguma coisa. Na frente das coleguinhas riu da minha cara, quando perguntei o que era que estava estragado, porque elas só falavam num tal de estragão (instagram).

– E eu? Que passei o dia inteirinho procurando minha filha na cidade vizinha, sem saber onde era um tal de espaço tim (teen). Pensei que era coisa de telefone, alguma loja. Que nada! Depois de muito procurar, uma mocinha caridosa me explicou, vendo o convite, que era um espaço onde se encontravam uns adolescentes numa festa de ralou em (holloween). Quando vi minha filha vestida de bruxa, tive um susto tão grande! Quase apanho, quando disse que muito melhor, e mais bonito, era se fosse uma festa de forró.

– Eu também passei o maior vexame. Numa lojinha, vi uma blusa que achei linda para dar à minha namorada. Nessa blusa tinha um coração bem grande e dentro escrito uma palavra que eu li e pensei que era aquilo mesmo que eu queria dizer para ela: Me ame! Não era nada disso. Fiquei tão sem jeito, quando minha namorada me disse que eu tinha comprado uma blusa, dizendo que amava uma cidade dos Estados Unidos (Miami); ainda mais sem jeito fiquei quando me falou: Cuidado! Cuidado para não ser mais um “americanalhado”!

E assim foram tantos depoimentos interessantes, onde todos tiveram vez e voz para falar a respeito das suas experiências de leitura, um momento ímpar e bem conveniente para fazermos sérias reflexões a respeito da nossa língua e cultura.

Quanto a mim, que também sou educadora, ao final da história da querida Sabina Aguiar, reforcei a urgente necessidade de reafirmarmos a nossa identidade cultural, valorizando nossa terra, nossa gente e nossa linda e maravilhosa língua portuguesa. Afinal de contas, não foi à toa que o grande escritor espanhol, Miguel de Cervantes, já dizia a respeito da mesma que é a língua mais sonora do mundo. Então, por que tanta vergonha, a ponto de agredi-la ou mesmo desprezá-la? Pobre flor do Lácio, “desflorada” dia após dia.

Continuo indagando e fico a meditar: Tudo isto não se resume, na verdade, num grande complexo de inferioridade, um complexo colonial tão arraigado a ponto de acharmos que o bom, o belo e o importante é somente o que nos vem de fora? Na condição de colônia, o forte era imitar Portugal, que, por sua vez, imitava a Espanha, que imitava a Inglaterra… Num passado não tão longínquo, “chique” mesmo era imitar a França. Eu mesma, na minha adolescência, tive que estudar piano e falar francês; caso contrário, não seria bem aceita em alguns ambientes considerados “requintados”. Como esquecer daquele susto ao entrar num recém-inaugurado e famoso clube, em cuja porta do sanitário feminino, hoje o tão propagado WC, lia-se em dourado “Toilette”? Não sabendo pronunciar – toalete – pensei tratar-se de uma outra coisa, senti até um certo nojo, e chateação também.

Chateado ficou também, recentemente, um certo amigo meu ao descobrir que, a camiseta usada há tanto tempo com a frase “I’m an asshole”, na verdade, alardeava aos quatro cantos do mundo: “Eu sou um idiota”. (kkkkk) Desculpe-me, amigo, mas assim não dá!

Vergonha do Brasil… Vergonha de ser brasileiro… Até quando?…

Quando será que vestiremos, de verdade, uma camiseta com a frase “Eu amo o Brasil”, sem medo de ser feliz? Ou será que, simplesmente, continuaremos preferindo “I love New York”, “I love Miami”, “I love USA”?

Usa, mas não abusa tanto não, viu? Pois assim, deste jeito, neste ritmo e sem mudar esta mentalidade colonial, não seria melhor ir logo treinando a linguagem Mandarim?

Pery-Açu

Bananeiras-PB: setembro de 2015

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

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