Desenvolvimento Vs. Histeria verde

Não é de hoje que, quando o debate político envolve questões ambientais, aqueles que se contrapõem ao ponto de vista dos ambientalistas se apoiam, via de regra, no argumento de que preocupações com o meio-ambiente não podem ser um obstáculo ao desenvolvimento socioeconômico. E vão além: alegam, explorando o caráter populista aí contido, que “é o povo que sairá prejudicado” caso a medida x ou y (de interesse do ‘pessoal verde’) seja aprovada – como se o que estivessem defendendo não fosse, em verdade, a posição do Grande Capital, como ocorre nos embates envolvendo o agronegócio.

Isso ficou mais uma vez evidente nas discussões relacionadas às mudanças do novo Código Florestal, que ainda estão em andamento, embora estejam sendo empurradas para baixo do tapete nestes dias de Rio+20: deputados que propõem aberrações como reduzir a área de matas ciliares e anistiar desmatadores postam-se à frente de câmeras de TV para afirmar, quase que com lágrimas nos olhos, que os pobres brasileiros não podem passar fome – como se o monocultivo de viés exportador que estão defendendo fosse alimentar e enriquecer os camponeses.

Infelizmente, a sensação que fica no ar é a de que quem está do outro lado são “meros” ambientalistas, como se não fosse um interesse de toda a população brasileira – para não dizer do mundo – que a conservação de rios e matas do país fosse garantida. Assim, abre-se caminho para que demagogos impliquem que qualquer oposição às propostas da bancada ruralista são coisa de militantes radicais. Isso sem contar que o ponto de vista “ambiental” é sempre aquele que, a priori, é digno de desconfiança, isto é, precisa ser provado em diversas instâncias para que seja minimamente levado em consideração pelas autoridades. Caso contrário, será apenas mais uma grita histérica de hippies verdes.

Some-se a isso o fato de que a conservação ambiental é tida, também aprioristicamente, como um empecilho ao desenvolvimento. Não é o caso aqui de entrar no mérito da discussão quanto ao modelo de desenvolvimento adotado pela sociedade ocidental – já copiado com “sucesso” no Oriente, restando de fora apenas a África (o continente esquecido), baseado no crescimento incessante, sendo, por isso, absolutamente insustentável. Para que isso seja discutido de fato por políticos e empresários de todo mundo, será preciso o planeta estar à beira de um colapso. Portanto, a fim de ater-se ao pragmatismo, seria mais válido, neste momento, questionar conceitos como o da “externalidade”.

Para as ciências econômicas, quaisquer eventos ou demandas que não se inserem no planejamento de uma empresa, estando estritamente associados ao desenvolvimento de seu negócio, e que exijam algum tipo de ação “extra” por parte do empreendedor – como compensações ambientais exigidas de uma refinaria que despeja produtos químicos em rios – são considerados externalidades. Assim, quando se discute a reforma do Código Florestal Brasileiro, o que passa na cabeça de alguém que está a favor da redução das matas ciliares? Se essa pessoa é um(a) empresário(a) ou alguém que representa a iniciativa privada, o que está sendo proposto é tão somente uma ampliação do potencial de gerar riquezas, independentemente do ônus que isso causará em termos ambientais – afinal, isso é algo que está “de fora” de uma discussão verdadeiramente séria, conduzida “em prol do desenvolvimento socioeconômico”.

Talvez um exemplo ainda mais adequado seja o de um deputado que defende a anistia a desmatadores: “eles não têm de arcar com externalidades”, deve Vossa Excelência pensar.

Enfim, em pleno século 21; em plena Rio+20, a natureza e os interesses ambientais seguem à margem do capitalismo. São verdadeiros delinquentes, “inimigos” do desenvolvimento, não obstante toda sua contribuição em termos de recursos materiais e energéticos, e não potenciais parceiros, como se sabe que é perfeitamente possível.

Destarte, o que vemos são propostas absurdas, como as feitas pela bancada ruralista no que se refere ao Código Florestal, sendo levadas a sério, as quais, possivelmente, irão sobrepor-se às dos que militam a favor da natureza. Como pode, afinal, em pleno século 21, alguém sugerir que qualquer trecho de floresta seja desmatado? É de conhecimento público que existem milhares de hectares de pastos inutilizados Brasil afora – sem contar os latifúndios que servem apenas à especulação imobiliária por parte de políticos e outros poderosos que aparentemente mantêm vivo o regime de capitanias hereditárias no país, dominando estados inteiros –, que poderiam servir como áreas para cultivo de novas culturas.

Como é sempre mais cômodo manter as coisas como estão – a famosa manutenção do status quo (expressão de burguês metido a revolucionário, dirão os que estão no poder) –, nem se discute a possibilidade de desapropriar terras paradas ou pôr em prática trabalhos de revitalização de áreas degradadas para cultivo comunitário, com apoio de técnicas de agroecologia, etc. Até porque isso não evolve o uso de máquinas, obras de terraplanagem e afins, que costumam encher os cofres públicos e de empreiteiras, com o bônus de garantir milhares de empregos de baixo salário, mantendo o povo ocupado, ignorante, pobre e feliz ao mesmo tempo.

 

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