Descompasso

Segue abaixo o editorial da edição de julho de 2009 do Fazendo Media impresso. Para assinar, clique aqui.
PS – Na entrevista ao Programa do Jô de ontem, o ministro da Saúde foi muito bem. Mostrou que o governo tem sido eficiente na prevenção e combate à gripe suína, tranquilizou a população ao afirmar que o índice de mortalidade do novo vírus é de apenas 0,01%. Só não foi melhor porque abriu mão da grande colocação: “se a realidade é esta, por que a mídia distorce tudo em nome do alarmismo?”. Sem mais, aí vai o editorial:
Descompasso
Impressiona o descompasso da mídia com a realidade. O descompasso das corporações de mídia, melhor dizendo.
Num único final de semana, o último de julho, podemos citar dois exemplos. O primeiro foi a realização de uma das etapas regionais da Conferência Nacional de Segurança Pública, que será realizada em agosto deste ano. Ocorre que Nova Iguaçú, no Rio de Janeiro, protagonizou um ato inédito – e ineditismo, como se sabe, é um dos critérios de noticiabilidade. O delegado de Polícia Civil, Orlando Zaccone, foi o único no Brasil a permitir que os presos debatessem o que acham melhor ou pior, o que deve ou não ser decidido na Conferência Nacional.
O segundo exemplo aconteceu no Santa Marta, favela da zona sul carioca. Ocupada pela polícia militar, como noticiamos na edição anterior, e desde então proibida de realizar eventos culturais e políticos, como se na ditadura estivéssemos, a favela enfren-tou a tirania e reuniu cerca de 500 pessoas para uma roda de funk. A música não parou nem quando a energia caiu – hinos como Rap da Felicidade foram cantados, em coro, sem microfone.
Nenhum dos eventos foi noticiado pelas corporações de mídia. Além dos meios alternativos, só a TV Brasil estava lá.
Em comum, a discussão dos presos e a festa dos favelados têm a característica de serem manifestações de gente pobre, de gente que teve menos oportunidades em razão da desigualdade violenta que atinge o Brasil – o que parece não incomodar as corporações de mídia.
Essa desigualdade também se reflete no campo da habitação popular, tema de matéria nesta edição. Trazemos ainda um artigo sobre as violências cometidas contra a mulher presidiária, cujos direitos mais elementares vêm sendo desrespeitados; matéria sobre a grande descoberta da mídia neste século (a existência do bigodudo maranhense); e uma análise sobre o golpe de Estado em Honduras.
Além disso, publicamos entrevista com o deputado federal Brizola Neto. Claro e objetivo, leva adiante a luta de seu avô: o grande problema do Brasil são as perdas internacionais. É o lucro desmedido das multinacionais, via exploração do povo. Uma armação escandalosamente omitida pelas corporações de mídia, quando não justificada.

Um comentário sobre “Descompasso”

  1. Caro, Marcelo
    É sintomático que esta gripe tenha aparecido logo após o início da maior crise do capital nos últimos tempos. Parece que a política de contenção das massas através do medo, tão profícua nos EUA, também se globalizou.

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