Delegação brasileira leva solidariedade ao povo hondurenho

Em solidariedade ao povo hondurenho, que teve seu presidente deposto por um golpe de estado civil-militar no dia 28 de junho, uma delegação brasileira organizada pela Casa da América Latina participou na segunda semana de agosto de manifestações no país e observou de perto o processo de resistência em andamento. A comissão foi composta por Ivan Pinheiro (secretário geral do PCB), Amauri Soares (deputado estadual PDT-SC) e Marcelo Buzzeto da direção nacional do MST.
De volta ao Rio, na sede nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ivan Pinheiro deu uma palestra, no dia 18 de agosto, relatando sua experiência em Honduras e avaliando o processo em curso. As observações serão reportadas a seguir.
Marcha em Tegucigalpa
A comissão foi recebida no aeroporto da capital, Tegucigalpa, por uma representação da embaixada brasileira no país e em seguida estabeleceram contato com uma delegação da Via Campesina – em nome da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado. Ficaram no hotel próximo à Casa Presidencial, perto também do quartel general, tudo cercado de militares e agentes nas ruas do entorno.
No dia 11 de agosto foi realizada uma marcha nacional em Honduras, com cerca de 50 mil pessoas, apoiada por uma ação global em diversos países no mundo, que levou hondurenhos de todo o país para a capital. Ocorreram manifestações em outras cidades também e alguns setores do serviço público, sobretudo o dos professores, que entrou  em greve.  Alguns ônibus foram apreendidos pela polícia federal nas estradas, mas mesmo assim milhares de manifestantes chegaram andando: uns de bairros de até 180km de distância,  houve colunas que andaram quase 10 dias, um formato semelhante ao das mobilizações na Bolívia.
Segundo militantes locais, esse foi o dia de maior repressão desde o começo das manifestações. A marcha teve como norma a não utilização de qualquer armamento para não dar pretexto à repressão, mas foi impedida de se aproximar da Casa Presidencial e houve um impasse que desencadeou um confronto.
Também no relato de militantes que presenciaram o fato, policiais atiraram e na dispersão alguns setores reagiram com ações contundentes contra estabelecimentos comerciais de empresários da oligarquia golpista: bancos e multinacionais de comida rápida, por exemplo. Pedras soltas das calçadas foram utilizadas, aproximadamente 50 pessoas foram presas e não se sabe quantas ficaram feridas na ocasião. Mulheres também foram agredidas, pois 20% do pelotão era composto por mulheres, dentre outras fileiras com um blindado ao fundo. À noite foi decretado novamente o toque de recolher.
No dia seguinte, saindo da Universidade Pedagógica, onde se alojaram os manifestantes de outros estados e eram realizadas as assembleias, caminharam em direção ao Congresso Nacional onde foram violentamente reprimidos pela polícia do exército. As pessoas foram dispersas violentamente e ao voltarem aos locais de organização como a Universidade, sindicatos, sede da Via Campesina, dentre outros, se deparam com ocupações de militares.
Além dos brasileiros em solidariedade internacional, entre os que se identificaram estavam três sindicalistas argentinos e uma delegação norteamericana. Os brasileiros falaram no carro de som, foram recebidos pelos hondurenhos com muita euforia. Deixaram claro que estavam em “representação de diversas instituições políticas e sociais brasileiras, solidárias com a resistência”.  
Economia
Contextualizando, o secretário do PCB, além dos aspectos econômicos, levou em consideração as circunstâncias geográficas, pelo fato de Honduras ficar num local estratégico na América. Inclusive por se situar entre a Nicarágua e El salvador, países regidos por governos progressistas. Não é à toa que existe uma base norteamericana no país, a base de Soto Cano, que pode ser outra prioridade dos golpistas.
Os interesses econômicos passam pelo petróleo, as maquiladoras, os bancos, pelos exportadores e empresários, e no repúdio ao salário que foi quase dobrado, às políticas compensatórias, e principalmente por causa da adesão de Honduras à ALBA: “Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes”. Tudo isso apoiado material e politicamente pelo império norteamericano com suporte das oligarquias locais, destaca Ivan.
Movimentos hondurenhos
As forças contrárias ao golpe de estado, junto a alguns partidos, como a Unificação Democrática, se uniram na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, que integra a Via Campesina, movimentos de bairros que têm muita força por lá, movimentos de estudantes, de negros, das mulheres, sindicatos, dentre outros. A organização dos professores representa a vanguarda das lutas, mas Ivan faz ponderações ao movimento como um todo: há dificuldades de organização, insuficiência de formação política, eles não conseguiram criar um programa, tampouco um jornal. Contudo, “é impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho”.
Na década de 90 houve a derrota da esquerda no país, quando os partidos comunistas e socialistas foram desfeitos e os guerrilheiros derrotados. Hoje há algo que ele chama de “movimentistas”, há pessoas resistindo nas ruas, se conscientizando. Alguns já estão pensando em outras formas de lutas, “está difícil mas a luta lá pode voltar com mais qualidade: as forças aprenderam muito”. “Eles não desistiram e não se sabe quando vão voltar ou em que patamar”, destacou.
Os golpistas, por sua vez, “estão no poder confortavelmente”, já nomearam todos os cargos federais, os embaixadores e cônsules em desacordo. Estão representados pela cúpula das forças armadas, da igreja, são a maioria esmagadora no congresso e têm a mídia ao seu dispor, principalmente toda a televisão.
Mídia
Os canais de televisão do país são de quatro grandes famílias ricas, enquanto na mídia mundial  Honduras não é mais pauta. O veículo local que estava fazendo contraponto ao golpe até o momento da saída da delegação era uma rádio chamada Globo, o canal 36 da televisão já havia sido militarizado; os jornalistas independentes foram reprimidos. Ele afirma que ocorreram graves manipulações, dando como exemplo uma foto tirada por um “provocador” que circulou a toda hora nas emissoras locais, talvez em cadeias internacionais.
Todas as matérias são desenvolvidas segundo um pensamento único, em sua maioria de maneira pejorativa em relação ao presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Textos e fotos se repetem, atingem a massa legitimando a repressão ao utilizarem termos como chavistas, terroristas, meliantes e  baderneiros, em referência aos manifestantes. Da mídia brasileira, só viu a repórter Claudia Jardim do jornal Brasil de Fato.
O presidente deposto
Manuel Zelaya é do Partido Liberal, “ele não é um revolucionário, ele foi até onde pôde, não é  um socialista”, ponderou Ivan Pinheiro. Mas ele não traiu o povo hondurenho, apesar de ser ligado aos setores monopolistas, contraditoriamente se aproximou à Alba. Curiosamente, nas prévias, ele votou em Micheletti, que é do seu partido e lhe deu o golpe.
A Corte Suprema, mais quatro ministros do Tribunal Superior Eleitoral, foram à cadeia nacional, no dia 12 de agosto,  confirmar as eleições de novembro. Logo em seguida, de modo a legitimar seu poder, Micheletti entra no ar e “reconhece a decisão do judiciário” como se estivesse submetendo-se ao “estado democrático de direito”. Tudo em horário nobre, antes do jogo de Honduras contra a Costa Rica pelas eliminatórias da Copa do Mundo.
Em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, Obama se isenta da responsabilidade dos EUA intervirem no processo. Uma delegação de chanceleres já formada para mediar em nome da OEA, mesmo constituída por países moderados (Canadá, México, República Dominicana, Jamaica, Argentina e Costa Rica) não foi recebida no dia 10 de agosto e a visita foi adiada para o dia 24 de agosto.
“Estão deixando o tempo passar para a solidariedade minguar”. A burguesia hondurenha está se organizando, levando consigo a classe média e propagando na mídia a legitimidade do governo de Micheletti. Este já anunciou que Zelaya pode voltar à vontade ao país, mas terá de se submeter a 16 processos contra ele.
Volta Mel, era a palavra de ordem dos movimentos, em alusão a Manuel Zelaya.  Hoje parte do movimento já se desiludiu de qualquer retorno do presidente. Houve também uma certa vacilação da esquerda num momento, sobre uma possível dissintonia entre Obama e Hillary Clinton. Conversas em volta dos palanques refletiam se Zelaya merecia toda essa luta ou se representantes deveriam ou não participar das eleições em novembro.
“Tendo a achar que não vale participar das eleições, será um jogo de cartas marcadas e uma fraude incalculável”. E a propaganda eleitoral nos meios de comunicação hondurenhos é  paga, a burguesia está cheia de dinheiro, foram as últimas observações feitas pelo palestrante. Apesar de sua solidariedade, percebe um pacto das elites em andamento que torna cada vez mais estável o governo golpista.

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