De preconceito, neodesenvolvimentismo e questões teóricas do marxismo: um debate fragmentado


Fernando Larrea lançou o conceito de "esquerdofagia": governos considerados progressistas na América Latina usam a retórica de esquerda e "devoram" outras esquerdas (Fotos: Jadson Oliveira)

De Salvador (Bahia) – A palestra principal focou os levantes populares contra o neoliberalismo, na década de 1990, na América Latina, que desembocaram nos chamados governos progressistas, ou seja, no denominado neodesenvolvimentismo. Um tema rico, mas que, no entanto, não despertou maior interesse durante os debates que se seguiram na manhã do dia 24/março (um sábado, até o início da tarde), na Faculdade de Arquitetura da Ufba, em Salvador.
As cerca de 50 pessoas que participaram do seminário organizado pela Oposição Operária – articulação de militantes de esquerda que edita a revista Germinal – preferiram transitar por temas mais variados, como os diversos preconceitos que infernizam a vida de muita gente e questões de caráter mais teórico-acadêmico que ocupam e preocupam grupos de estudiosos do chamado marxismo-leninismo.

Parte da plateia num dos auditórios da Faculdade de Arquitetura da Universidade
Federal da Bahia

O tema que seria central ficou a cargo do professor Fernando Larrea, mestre em Ciências Sociais, equatoriano que está há três anos na Bahia e estuda os movimentos sociais latino-americanos. Falou da resistência popular contra as reformas neoliberais em alguns países da região: o zapatismo no México, a partir de 1994, com sua consigna “mudar o mundo sem tomar o poder”, movimento que enfatizou muito a necessidade de autonomia e construção do autogoverno, bem como o espaço coletivo para a tomada de decisões (uma dinâmica bem indígena), até chegar à “A outra campanha”, quando, em 2006, os zapatistas optaram por não se engajar na campanha eleitoral do candidato mais à esquerda, López Obrador, derrotado por ínfima diferença de votos pelo atual presidente Felipe Calderón.
Larrea abordou em seguida o “Caracazo” de 1989 na Venezuela, país que se enveredou pela vanguarda do anti-neoliberalismo com a eleição, no final da década de 1990, do atual presidente Hugo Chávez; falou da Guerra da Água em 2000 e da Guerra do Gás em 2003 na Bolívia; da rebelião de dezembro/2001 na Argentina, com o famoso grito “Que se vayan todos”, com o movimento “piquetero” tomando ruas e bairros e as “fábricas recuperadas”; e falou do levante indígena de 1990 no Equador.
A última parte da palestra do estudioso equatoriano foi: “Neodesenvolvimentismo e movimentos sociais hoje na América Latina: novos cenários de conflito e confronto”. Se referiu aos conceitos de “esquerdofagia” e “esquerda marron” versus “esquerda vermelha”, ao apontar a prática política de chamados governos progressistas (cita alguns e, com ênfase, o de seu país, o Equador) de tentarem monopolizar o campo da esquerda. Muito do progressismo, segundo sua avaliação, não passa de retórica. E frisa que setores das classes dominantes de países como Bolívia, Argentina, Brasil e Equador estão muito contentes. (Esta parte da palestra de Fernando Larrea está em dois vídeos, inclusive com transcrição de áudio, postados neste blog nos dias 28 e 29/março).
O palestrante tocou também, levemente, em aspectos teóricos fora da contradição básica entre capital x trabalho, como movimentos específicos de mulheres, indígena/étnico, de gênero, de consumidores e movimento ecologista.

Joaquina Lacerda: “Não venceremos o capitalismo se não vencermos
os preconceitos”

A partir de suas palavras, porém, os temas se fragmentaram. Quem deu o ponta-pé inicial foi a professora Joaquina Lacerda, que protestou veementemente contra os preconceitos no seio da sociedade e das classes, inclusive entre os militantes de esquerda, usou muito o termo “sub-classes”. Mencionou os preconceitos contra os idosos, contra os homossexuais (ela é lésbica, conforme assinalou), contra os pobres, contra as mulheres “e até o preconceito fonético” (a gagueira, ela é um pouco gaga). “Não venceremos o capitalismo se não vencermos os preconceitos”, disse, lembrando que a burguesia divide os trabalhadores fomentando os preconceitos.
Uma outra questão discutida, dentre várias, foi saber se a ânsia de consumir, de comprar, um dos baluartes da ideologia e do desenvolvimento capitalistas, não seria própria do ser humano. Foram muitos os participantes que falaram, tanto levantando questões novas, como discutindo os itens apresentados. E alguns tentaram lançar luz ao debate, tendo como base parâmetros assentados em teorias consideradas marxistas e/ou revolucionárias.
Durante as diversas intervenções, houve a leitura de um manifesto assinado pela Corrente Comunista Internacional (CCI) – http://www.internationalism.org -, datado de 12/03/2011, com o título “2011: da indignação à esperança”. Fala da “crise global do capitalismo” e os movimentos sociais na Tunísia, Egito, Espanha, Grécia, Israel, Chile, Estados Unidos e Inglaterra. Termina proclamando a crença de que “outra sociedade distinta do capitalismo é possível”.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Salvador. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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