Cruz Vermelha Brasileira está em crise

Durante entrevista coletiva, João Paulo Charleaux falou sobre a crise da Cruz Vermelha e as ações do CICV no Brasil. Por Fernanda Bonadia, de São Paulo.

No sábado dia 6 de outubro, o assessor de comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai, João Paulo Charleaux, falou em coletiva promovida pelo VI Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito Armado que a Cruz Vermelha Brasileira “busca reencontrar o seu caminho”.

A instituição foi muito forte até as décadas de 50 e 60, mas hoje é muito menos operante do que o país precisa. O jornalista explicou que, apesar dela ter um plano estratégico, o ambiente de atuação é muito amplo. “Eles são auxiliares do poder público na área de saúde e, em tese, é tudo”, diz.

Além disso, a organização nacional sofre processos trabalhistas, que são um empecilho para a realização de suas ações. “São vários processos de muito tempo”, apontou o assessor de comunicação, “e isso engessa o trabalho, pois a justiça bloqueia a conta da instituição toda vez que entra dinheiro”.

Charleaux informou que, na época dos jogos Pan-americanos realizados no Brasil em julho deste ano, a Cruz Vermelha Brasileira comprometeu-se a oferecer 800 socorristas. Eles fizeram um projeto de cooperação internacional, mas quando recebiam o dinheiro, a justiça intervinha, o que dificultou o trabalho.

Tanto a instituição nacional da Cruz Vermelha como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha são articulações de uma organização maior chamada Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Suas funções são diferentes: o CICV é responsável pelo trabalho com as situações de conflito armado e outras de violência, enquanto as Sociedades Nacionais exercem papel local, auxiliando pessoas residentes em áreas atingidas por desastres naturais, por exemplo, e também ajudam a Federação Internacional em diversos assuntos.

No Brasil, explicou o jornalista, o CICV está ligado à Cruz Vermelha Brasileira através da temática da violência. “Em situações pontuais, em que eles têm filiais que funcionam bem, nós apoiamos algumas atividades”, afirma. Charleaux diz ainda que “essa resposta das filiais [como a do Mato Grosso do Sul, de São Paulo, do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais], esse fluxo inverso para a sede no Rio é uma saída para a crise. A força está nesses voluntários que trabalharam esse tempo todo”.

Houve cooperação do CICV, por exemplo, quando, em 21 de julho deste ano, a filial sul mato-grossense da Cruz Vermelha Brasileira levou lonas plásticas para a construção de abrigos temporários, cobertores, calçados e roupas para os índios da etnia Guarany Kaiwá. Eles estavam acampados na Rodovia Federal BR 162, no Mato Grosso do Sul, desde que a Justiça determinou que os indígenas deixassem uma área de 9.300 hectares, em litígio entre indígenas e fazendeiros.

Ao ser questionado sobre a existência de ajuda humanitária aos moradores de favelas, que constantemente sofrem com a violência interna, João Paulo foi enfático: “A gente dependeria de uma Cruz Vermelha Brasileira mais capacitada pra fazer isso”.

O Comitê Internacional, além do auxilio à instituição nacional, promove outras ações no país, como assessoria jurídica a legisladores, incentivando-os a assumir compromissos internacionais, e a promoção de palestras e seminários junto às Forças Armadas, como os cursos realizados para os batalhões do exército enviados na operação de paz das Nações Unidas no Haiti.

O maior de todos os projetos é o Programa de Difusão das Normas dos Direitos Humanos e dos Princípios Humanitários Aplicados à Função Policial, existente desde 1998. “O CICV não atua no nível de checar a ação policial na rua”, explica Charleaux. “Evidente que a ambição do projeto é essa, alterar o comportamento da polícia na execução da sua tarefa, mas ele não se destina a ser uma corregedoria ou uma auditoria”.

O Programa é desenvolvido em outros 70 países. “Toda instituição pode se aperfeiçoar, inclusive o CICV”, diz o jornalista. “Então, todas elas podem participar de um projeto como esse, não precisa ter um passado pesando contas”, referindo-se à polícia brasileira.

Por intermédio de uma auditoria externa, o CICV identificou que o sucesso do Programa estava relacionado ao progresso cultural da polícia. “Nós identificamos uma mudança importante que foi a abertura para discutir o tema”, explica o assessor. “É alguém de fora falando sobre documentos internos, não é qualquer um que tem acesso a manuais e doutrinas policias e opina sobre isso”.

Saiba mais: www.icrc.org/por (site do CICV em português)

Fernanda Bonadia é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (SP) e de História da USP. Contato: fernanda.ohm@gmail.com

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