
Ontem pela manhã, fiz uma visita à Teresinha, amiga e vizinha. Queixava-se do abandono por parte dos filhos e netos. Seu grande medo é ser colocada num lar de idosos, que muitos chamam de abrigo ou asilo. Escutando suas lamentações, comecei a refletir a respeito desta sociedade do “descartável” e me veio à lembrança algo que escutei no corredor de uma das escolas onde lecionei, escola essa considerada de primeiro mundo e orgulho de toda cidade. Não percebendo, ou mesmo ignorando minha presença, duas garotas conversavam animadamente. Pense numa conversinha sem ética! Conversinha perigosa e patética — foi esta minha impressão. Aquelas expressões, e tortura vocabular como roupagem de pensamentos tão desumanos, ainda ecoam fortemente ainda hoje…
– Ju, menina, eu tô, tipo, mortinha!
– O quê? Heim? — Retirando o fone de ouvido — Ah? … Mortinha, Pat? O que você fez? Tipo, correu muito? Malhou muito até ficar exausta?
– Que nada, menina! Eu fui ao shopping, precisava ir de qualquer jeito, tipo, a última tentativa, sabe? O shopping tem sido o meu refúgio, a minha paz, o meu sossego, o meu tudo de bom. Adivinha o que fiz?
– Não sei, tipo, nem posso imaginar. Penso que você foi, tipo, fazer as pazes com o Bruno, acertei?
– Não acertou nada, amiga, tipo, errou tudo!
– Pat, desenrola vai!
– Sabe, eu precisava comprar aquelas blusas do tipo que eu gosto, para me acalmar e ficar, tipo, numa boa, entende? Comprar me alivia tanto!…
– Pat, e você, tipo, encontrou o que procurava?
– Que nada, menina! Eu procurei, tipo, procurei, procurei…
– Ah! E nem encontrou nada que, tipo, te servisse?
– Oh! Não! … Tipo, nada, sabe?
– Ah, amiga, verdade? Tipo, fala sério!
– Mais sério do que isso, impossível, amiga. É verdade! Tipo, pode acreditar!
Quem não estava acreditando era eu. Perplexa fiquei, “tipo” sem querer acreditar que no mundo pudesse existir um tipo de conversa dessa! Além da tortura vocabular, fiquei horrorizada com as falas superficiais e vazias daquelas adolescentes e pensei, cá com meus botões: Meu Deus, em que mundo nós estamos? Que monstrinhos são estes que estamos criando? Insensíveis, consumistas, preconceituosos, racistas, intolerantes, individualistas… Definitivamente, e com raras exceções, não estamos formando seres humanos; apenas informando, desinformando, e o pior, deformando! Que ensino é esse, gente? O que está acontecendo conosco? No entanto, o pior daquela superficial e desumana conversinha ainda estava por vir.
– Ju, amiga, vou falar sério, tipo, dizer a verdade.
– Ai, Pat, fala logo. Daqui a pouco começa aquela maldita aula!
– Ju, você sabe que as melhores horas da minha vida são as que passo, tipo, no shopping. Odeio ir para casa e agora vou dizer o real motivo: não suporto mais ver meus avós, tipo, “gagás”, dentro da nossa casa. Não sabem de nada, nem usar um celular, vê se pode! Tipo, ficam me perguntando tudo. Odeio! Por mim, eles já estavam num asilo há muito tempo, sabe, tipo onde se deixam velhinhos?…
– E por que, tipo, vocês não fizeram isso ainda? Meus pais, ainda bem, são, tipo, supermodernos: já despacharam os “coroas” faz tempo. Estão numa belíssima clínica de repouso, dessas com paisagens lindas, tipo, de cinema mesmo, viu? Não falta comida, não falta nada. No fim do ano a gente visita, leva presentes, tipo, coisas que velhinhos gostam. É tudo tão sem problemas. Simples assim!
– Ai, Ju, que inveja! Como eu queria ter uns pais assim, tipo os seus. É que os meus são, tipo, “quadrados”; ainda se apegam muito a coisas, tipo, do passado.
Sem querer acreditar, desconcertada e sem palavras fiquei. Minha nossa! Minha-nossa máxima culpa!
Desde então, venho me perguntando: Que farão, um dia, os filhos e netos dessas meninas?…
PerYaçu
Bananeiras-PB: 25 de junho de 2022
Escrito por Vera Periassu veraperiassu@gmail.com
Educadora popular, cordelista e escritora
Fonte: Blog Medium, Jun 17/6/2024
