Como responder aos sofrimentos de Deus

Como responder aos sofrimentos de Deus

Neste último domingo do ano litúrgico, que a Igreja Católica continua chamando de Festa de Cristo Rei, o evangelho deste ano é Mateus 25, 31 a 46, a parábola do julgamento final. De fato, a Reforma Litúrgica de 1969 transferiu esta festa do final de outubro para este último domingo do ano litúrgico. Assim, deu a esta celebração um sentido de apontar a esperança que temos no reino de Deus que virá.  É verdade que, até hoje, os Arautos do Evangelho cantam e propagam o antigo hino ao Cristo Rei que se chama “Honra e Glória, louvor sempiterno”.  O refrão deste hino canta:

Jesus Rei Deus verdadeiro, O teu Reino venha a nós

Obedeça o mundo inteiro, Ao poder de tua voz

Todo o orbe homenagens Lhe renda Aos seus pés traga o mundo cristão

De almas livres a livre oferenda Corações para o seu coração!

 Graças a Deus, este espírito de cruzada dominadora que se utiliza do nome de Cristo para garantir o poder do Cristianismo colonizador tem sido, cada vez mais, superado. Deus queira que esteja próximo o dia em que compreendamos a preocupação de Dom Helder quando, há mais de 55 anos, escrevia: “Jesus me compreende quando digo que não gosto da festa de hoje, nem acho que ele queria ser chamado de rei”  (53ª circular – 22/ 10/ 1964).

Dois exegetas belgas sustentam que esta parábola foi construída pela comunidade de Mateus. Afirmam: “Jesus nunca chamaria a si mesmo de rei nem se atribuiria o papel de juiz, que ele sempre pensou ser reservado ao Pai[1] No entanto, é possível que o núcleo da parábola venha de Jesus. Este núcleo é a identificação de Jesus com os pobres e excluídos do mundo.

Toda a espiritualidade rabínica insistia na imitação de Deus. O livro do Talmud ensina que devemos imitar Deus. Nós imitamos Deus, quando vestimos os nus, assim como Deus vestiu Adão e Eva quando eles se viram nus no paraíso. Devemos visitar os doentes como Deus visitou Abraão depois da circuncisão. Assim como Deus confortou e abençoou Isaac depois que este perdeu o pai, temos nós também de confortar os enlutados e enterrar os mortos como Deus enterrou Moisés no monte Nebo (b. Sotah, 14ª)[2].

Então este evangelho revela duas coisas novas sobre Deus:

1º – Jesus nos revela um Deus que se queremos encontrá-lo e nos unir a Ele, o melhor caminho é reproduzir o seu modo de ser nesse caminho de misericórdia e solidariedade.

2º – Os sofrimentos do povo empobrecido são os sofrimentos do próprio Deus. Para Jesus, não há outro caminho de espiritualidade a não ser descobrir nos sofrimentos dos empobrecidos os sofrimentos do próprio Deus.

Nesta quarta-feira, em Natal, o nosso irmão Paulo Ricardo contou que na escola em que ele trabalha com adolescentes de periferia, na hora do almoço, a irmã viu um rapaz que chorava enquanto almoçava. Ela perguntou por que. O adolescente respondeu: – Por que sou o único da minha família que, hoje, estou tendo o que comer.

Hoje, este é o sofrimento de Deus. É preciso revermos para sentir o quanto estamos nós sensíveis e angustiados com isso. Na Bíblia, a promessa do reino de Deus surgiu no tempo do cativeiro e se desenvolveu como forma de restituir ao povo privado da sua liberdade e da sua cidadania a esperança de recuperar a sua liberdade e a justiça libertadora como manifestação do amor divino. Todos os salmos comumente chamados de “salmos do reino” mostram que a manifestação de que Deus reina não é nenhum ato religioso. Não há nenhuma coroação. Há novo equilíbrio e comunhão com a natureza que é aliada da humanidade. Há justiça libertadora e reinversão das situações sociais de modo que

Deus faz justiça aos oprimidos, e liberta quem é cativo,

Dá pão a quem tem fome, e levanta o desvalido.

O Amor reconduz os migrantes à sua terra, e as pessoas honradas, orienta sempre,

O seu projeto vigora permanentemente. amor de nossa salvação, hoje e eternamente.

 Jesus revelou Deus no rosto dos mais pobres. O evangelho revelou que Jesus assumiu e viveu isso. De fato, o reino de Deus é um reino no qual todos e todas são reis no sentido de cidadãos e cidadãs de pleno direito. Nesse reino, a carta de cidadania é o cuidado com os mais frágeis e  vulneráveis do mundo. Esse deve ser hoje o critério de escolha dos nossos candidatos e candidatas às prefeituras e câmaras municipais. Em muitas de nossas cidades brasileiras, teremos segundo turno no próximo domingo. Apesar de que a legislação dificulta a vitória dos partidos de esquerda e o poder econômico ainda é muito forte nestas eleições, fica claro que muita gente não liga o seu voto com a sua fé. No entanto, é no jeito de votar e na luta por cidadania para todos que testemunhamos o reino de Deus e nos identificamos com o Cristo, pobre, nu, doente e prisioneiro nas estruturas perversas da sociedade em que vivemos.

[1] – Cf. Thierry Maertens e Jean Frisque, Guia da Assembleia Cristã 3, Vozes, 1970, p.47.

[2] – Cf. VERMES, Geza, O autêntico evangelho de Jesus, Ed. Record, 2006, p. 181.

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