Como o aquecimento global pode ressurgir vírus e bactérias ‘adormecidos’ por milênios

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alerta para perigo em novo relatório sobre desafios diante da crise climática.

Júlia Motta

As consequências do aquecimento global em relação a ocorrência mais frequente de tragédias ambientais como enchentes e secas já é cotidianamente percebida pela população global, mas o fenômeno causado pela crise climática também interfere em outras áreas, como a saúde. Um relatório lançado na última sexta-feira (11) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alerta para o perigo do ressurgimento de vírus, fungos e bactérias adormecidos a milênios devido ao derretimento de geleiras.

O documento “O Peso do Tempo: enfrentando uma nova era de desafios para as pessoas e os ecossistemas” chama atenção sobre como a crise climática está afetando a chamada criosfera, regiões onde há geleiras e o solo é congelado sazonalmente. A criosfera é um dos ecossistemas mais afetados pela crise climática, sofrendo danos substanciais e perdas irreversíveis, de acordo com os cientistas. Ainda de acordo com o relatório, apesar de serem lugares extremos e remotos, essas regiões congeladas ocupam aproximadamente 52% da superfície terrestre da Terra e 5% da área oceânica, sendo um componente crítico do sistema climático global.

O estudo aponta que o permafrost [subsolo permanentemente congelado do Ártico] e as geleiras se destacam por seus papéis em sistemas terrestres complexos: o permafrost é um grande reservatório de carbono orgânico que permanece sequestrado neste solo congelado, enquanto as geleiras e a camada de neve são fontes essenciais de água para bilhões de pessoas. Além disso, as partes mais frias da criosfera são o habitat de um enorme número de microrganismos, incluindo bactérias, fungos microscópicos, protistas, arqueas unicelulares e vírus.

Muitos desses micróbios são antigos, tendo permanecido confinados na criosfera por milênios, de acordo com o estudo. Devido às condições extremas, a maioria dos micróbios congelados está morta. No entanto, alguns são metabolicamente ativos e se multiplicam lentamente, enquanto muitos outros estão dormentes, mas ainda viáveis, o que significa que podem se multiplicar em taxas normais quando as condições permitem – e o derretimento dessas regiões congeladas pode significar esse perigo.

O estudo afirma que entre 1994 e 2017, 28 trilhões de toneladas de gelo desapareceram da criosfera da Terra e, em comparação com a década de 1990, a taxa geral de perda de gelo aumentou em 57% ao longo desses 24 anos. Já as projeções para 2100 sugerem que o número de geleiras do mundo será reduzido pela metade, mesmo que o aumento da temperatura possa ser limitado a +1,5°C. Esse aquecimento da criosfera reativará e remobilizará microrganismos modernos e antigos para novos ambientes terrestres e aquáticos.

“Uma vez lá, populações específicas de microrganismos reemergentes podem prosperar, modificando profundamente a estrutura e a função das comunidades microbianas existentes e dos ecossistemas circundantes. Uma estimativa de 2022 sugere que 2,9 x 1022 micróbios serão descarregados anualmente em ecossistemas a jusante no Hemisfério Norte pelos próximos 80 anos devido ao derretimento das geleiras”, alerta o relatório.

Apesar da projeção também apontar que alguns microrganismos criosféricos não sobreviverão ao degelo, o relatório afirma que muitos desses microrganismos recém-liberados vão interagir com comunidades microbianas atuais e com organismos multicelulares.

Segundo o documento, pesquisas sugerem que alguns micróbios reativados podem ser patógenos, capazes de infectar plantas e animais, incluindo humanos. A possibilidade de surtos generalizados é improvável, mas os cientistas estão aprimorando suas habilidades para avaliar a ameaça representada pela liberação desses patógenos antigos de seu estado congelado.

O relatório cita como exemplo o surto de antraz na região noroeste de Yamal, na Federação Russa, em julho de 2016, que matou mais de 2.000 rebanhos de renas e levou à hospitalização de 90 pessoas de comunidades de pastores. “Os pesquisadores teorizaram que astemperaturas anormalmente altas daquele verão e o degelo do permafrost contribuíram para a reativação do anthracis em reservatórios de solo, entre outros fatores”, diz o documento.

“A possibilidade de reativação e liberação de patógenos de ambientes congelados não se restringe a bactérias. Fungos, filamentosos ou unicelulares (leveduras) também foram isolados de habitats criosféricos, incluindo alguns com potencial patogênico conhecido”, diz um trecho do documento, e em seguida cita uma pesquisa publicada no início de 2023 que relata um experimento controlado que reativou 13 novos vírus isolados de sete amostras diferentes de permafrost siberiano e infectou com sucesso hospedeiros de Acanthamoeba.

O experimento foi projetado para demonstrar que os vírus podem ser reativados a partir de um estado congelado e infectar um protozoário disseminado, comumente encontrado em amostras de solo, ar e água em todo o mundo, de acordo com o relatório.

Outro fator do aquecimento da criosfera que levanta preocupações e é destacado pelo documento são os genes relacionados à virulência e à resistência a antibióticos que se movem entre micróbios. Os pesquisadores explicam que a aquisição de genes relacionados à virulência por bactérias pode dar origem a cepas com poderes aprimorados como patógenos e que são mais eficientes em causar doenças, e alerta que pesquisadores detectaram recentemente milhares de fatores de virulência em microrganismos coletados em 21 geleiras tibetanas.

Evidências científicas sugerem que a transferência horizontal de genes pode ter acelerado a evolução microbiana no passado e pode estar atualmente impulsionando a evolução nos ecossistemas terrestres e aquáticos que recebem um influxo de águas de degelo glacial. Esse processo de mistura constante entre microrganismos modernos e microrganismos antigos, recém-liberados, incluindo seus respectivos genomas, é chamado de reciclagem de genomae pode levar ao surgimento de novas cepas de micróbios com maior potencial de virulência.

Para reduzir as perdas da criosfera e os riscos à saúde que podem surgir com esse cenário, o relatório reforça a importância da redução da emissão de gases do efeito estufa e a limitação do turismo em regiões congeladas e frágeis. No entanto, a diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen, afirma que “mesmo que o derretimento possa ser desacelerado pela redução das emissões de gases de efeito estufa, devemos avaliar e nos preparar para possíveis ameaças de patógenos potenciais”. Diante disso, os pesquisadores também defendem mais investimento em pesquisa sobre a diversidade de microrganismos nessas regiões.

Foto: A relação entre aquecimento global e o ressurgimento de vírus e bactérias adormecidos por milênios. Créditos: Gabriel Kuettel/Pexels

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