Com variantes mais transmissíveis e vacinação lenta, uso de máscara e isolamento social salvam

Por Cláudia Motta

No Brasil, distanciamento social é relegado pelos governantes, critica sanitarista do SUS. E essa é uma das razões para o país figurar entre campeões de adoecimentos e mortes

O Brasil do novo coronavírus é um dos piores lugares do mundo para se viver. Pelo menos para quem quer permanecer vivo. Com 9,8 milhões de adoecidos e quase 240 mil mortos pela covid-19, desde o início da pandemia o Brasil ostenta trágicos números. E mesmo assim não há incentivo ao isolamento social. Somos o terceiro país com mais casos – Estados Unidos e Índia vêm antes – e o segundo em número de mortes, ultrapassando os indianos. A média mundial de casos por 1 milhão de pessoas é de 13.997. No Brasil, batemos a casa dos 46.535. Ou seja, muito mais gente adoece em terras brasileiras, atualmente com 25 mil novos casos por dia. E a vacina infelizmente não resolverá isso no médio prazo. Já circulam por aqui novas variantes do coronavírus, com maior potencial de transmissibilidade e que podem afetar a eficácia das vacinas atualmente em uso no país.

Além disso, o país vacinou 2,46% da população total. E está entre os que menos testes realizam. “Temos todos os motivos para estarmos preocupados no Brasil”, afirma o médico sanitarista do SUS Pedro Tourinho. “Pelo menos duas das três variantes mundiais de maior preocupação já estão circulando pelo país. Provavelmente vamos precisar de doses extras atualizando as vacinas, nos moldes da influenza”, avalia.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, na quarta-feira (10), a presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade, afirmou que, se estudos comprovarem que a vacina produzida no Brasil não for eficaz contra as novas cepas do coronavírus, podem ser feitos aperfeiçoamentos. “Tem de ser estudado caso a caso”, diz. “Mas o mais importante de tudo é: quanto mais vacinada for a população, menos circulação do vírus nós teremos e, portanto, esse problema das variantes será reduzido.”

O Brasil, de acordo com o Our World In Data, ocupa a 61ª posição entre 86 países no ranking mundial de vacinas contra a covid-19 por 100 habitantes. E a falta de vacinas ameaça a imunização neste momento em diversas cidades. O prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, por exemplo, anunciou hoje (15) que a vacinação será suspensa na cidade a partir desta terça-feira.

Isolamento social necessário

Segundo o médico e professor universitário Pedro Tourinho já se sabe que para algumas variantes as vacinas atuais se mostraram realmente menos eficazes para impedir as infecções mais simples pelo vírus. “O que não sabemos ainda é se as vacinas atuais vão seguir sendo capazes de evitar casos graves, que é afinal o mais importante. Mas de fato não é por agora que vamos ‘respirar aliviados’ ainda”, lamenta.

Por tudo isso, ressalta Tourinho, o distanciamento social continua sendo absolutamente necessário. “A nossa desistência quase total da discussão sobre o tema isolamento social é uma derrota imensa do campo que defende a vida nesse país”, diz. “O desserviço do presidente Jair Bolsonaro para essa agenda da discussão do isolamento social é incalculável”, critica.

Esse debate, reconhece o sanitarista, não é fácil. “Traz um monte de consequências que, de fato, devem ser abordadas. Precisa passar por um forte processo de liderança política, de coesão social, de construção comum de um horizonte de cuidado para a população. Deveria ter critérios claros para a adoção do distanciamento social. E certamente, no contexto de um país com dimensões continentais como o Brasil, seria adotada de forma regionalizada, heterogênea, pelo território nacional, em momentos diferentes, isso é natural. Mas o fato é que desde o começo (o presidente Jair) Bolsonaro agiu contra essa questão por um entendimento equivocado sobre o que é essa relação entre a pandemia e a economia e obstaculizou severamente esse debate.”

Países de todo o mundo promovem ou promoveram lockdown e obtiveram excelentes resultados na desacelaração do contágio pela covid-19. Assim, reduzindo o número de doentes, evitam que o sistema de saúde entre em colapso. Como infelizmente está ocorrendo no Norte do Brasil, resultando em milhares de mortes.

Araraquara em lockdown

As consequências estão aí, tanto na economia, em frangalhos, quanto nas mortes que não param de crescer no Brasil. “A gente se tornou incapaz de adotar uma das principais medidas para conter o coronavírus e agora está aí, o vírus matando. Temos uma das piores médias móveis de número de mortes desde o início da pandemia, passando de mais de mil por semana. Na prática, só gestores responsáveis, éticos, comprometidos com a vida estamos vendo terem coragem de quebrar esse silenciamento (sobre o isolamento social) que a ação do bolsonarismo promoveu no Brasil.”

Pedro Tourinho menciona o caso do prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT). “Ele foi muito corajoso e absolutamente acertado ao decretar o lockdown lá”, avalia o médico. A cidade do interior de São Paulo confirmou 12 casos de variantes do novo coronavírus. Para frear uma nova onda da doença, o prefeito proibiu a circulação de pessoas, sem justificativa, pela cidade. Além de Araraquara, a capital paulista também já conta nove casos da nova cepa do vírus. Em Jaú são três e em Águas de Lindoia, um.

decreto da prefeitura de Araraquara passou a valer nesta segunda (15). Só pode circular quem estiver a trabalho ou necessitando de algum serviço essencial. A princípio, quem desobedecer deve ser orientado e pode ser multado em pelo menos duas Unidades Fiscais do Município (UFM), ou R$ 120,56. A cidade registrou 167 novos infectados e três mortes no domingo (14). Segundo o último boletim da prefeitura, Araraquara tinha 12.127 casos confirmados e 146 óbitos desde o início da pandemia.

No estado do Pará, algumas cidades mais atingidas tiveram o isolamento social reforçado. No sábado (13), o prefeito Rudi Paetzold (PMDB), de Coronel Sapucaia (MS), também decretou o fechamento da cidade no combate ao aumento de casos de covid-19.

Fonte: Rede Brasil Atual

(15-02-2021)

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