Cenas de Racismo

Racializar as relações sociais é trazer para o plano da consciência social a diferenciação social dissimulada pelos discursos da democracia racial e da convivência pacífica brasileira. A idéia de que somos um povo mestiço domina as nossas cabeças, entretanto ela nos faz esquecer que os negros ainda existem e estão submetidos a toda sorte de preconceitos e racismo. Por Igor Vitorino (*).

Certo dia fui à zona sul do Rio de Janeiro, na casa de uma amiga. Chegando à rua, dirigi-me ao prédio que procurava, perguntei ao porteiro pelo número 602 e ele ficou meia hora tentando me dizer que ali não havia aquele número. “Mas minha amiga disse que era nesse prédio” – eu lhe falei. Novamente ele ficou olhando-me tortamente e de cara feia.

Fiquei revoltado, pois percebi o que estava acontecendo, o que para ele deveria ser um procedimento naturalizado. Ele deveria estar pensando: “Esse cara está querendo alguma coisa!”. Naquela tensão, novamente falei: “Quero ir no apartamento 602, por favor!” Entretanto, ele só confirmou que minha colega morava ali após eu dizer firmemente: “É na casa da Marcela, meu senhor!”. “Ele respondeu: Ah, espere um pouco!”.

Ai logo ele providenciou, ligou para minha colega e mandou que eu entrasse, quando já estava perto do elevador eu disse, em tom irônico: “Acho que os senhores não estão acostumados a receber negros nesse prédio”. Ele surpreendentemente, confirmando o que eu já tinha sentido, que se tratava de preconceito racial, do estigma negro-marginal-pobre, rebateu dizendo: “Não meu senhor, é uma questão de segurança”. E, ainda, acrescentou: “Aqui temos moradores mais escuros do que o senhor”. O mais assustador é que o porteiro era nordestino, daqueles preconceituosamente chamados no Rio de Janeiro de “paraíbas”.

Entendia o que estava acontecendo naquela interação social, ela me feria profundamente, sabia que foi devido a minha condição de negro, recebi aquele tratamento diferenciado na portaria. Como negro não podia dizer somente o número do apartamento, para que depois a dona do apartamento perguntasse quem eram, para depois permitir a entrada. Nada disso, como negro tinha que dizer minha coordenada, tinha que provar que ela não era aquela imaginada pelo porteiro: “entrar para assaltar”.

Todavia quantos amigos e amigas negras já não agüentam mais ficar explicando e justificando que não são marginais, que têm os mesmos direitos, principalmente àqueles cujas características fenótipas não são reconhecidas no mundo da estética, como os dos negros consumíveis de mercado.

Esse tipo de experiência social, cuja ferida nos dilacera e o direito objetivo não consegue reconhecer e as instituições republicanas não dão conta de resolver, potencializa diversos tipos de revoltas sociais: seja pela pura violência, seja na ação coletiva. Ele imprime, diariamente, nos corpos dos negros, a vivência da negação do direito a ir-vir. Os negros não têm direito a flanar, quando o fazem, são imediatamente abordados com seguinte pergunta: “Tá fazendo o que aí?”.

A possibilidade de dar voz e de tornar essa questão explicita abriu espaço para partilhar nossos dramas e alcançarmos uma nova natureza das relações sociais no Brasil. O tabu dessa temática fez muitos intelectuais e escritores a tratá-la nas entrelinhas de seus textos (como Machado de Assis), fez nossos pais e ancestrais a viverem-na no silêncio do seus corações.

Hoje cada vez mais saímos das entrelinhas para as linhas, talvez seja este um dos motivos de tantos protestos contra as políticas de cotas, pois estas conferem aos negros a possibilidade de falar sobre si, mais do que se apropriarem das profissões e dos recursos materiais e simbólicos que permitem construir um outro discurso sobre a nossa história brasileira. Na realidade, a política de cotas é a síntese da luta dos negros e das negras por um lugar de fala na sociedade brasileira.


(*) Igor Vitorino é formando em história pela UFES. Mestrando em Planejamento Urbano e Regional na IPPUR\UFRJ.

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