O lobby de Alberto Torregiani contra o escritor e perseguido político Cesare Battisti prosseguiu nesta 6ª feira (19), com mais uma irrelevância distribuída pela agência noticiosa italiana Ansa a seus assinantes.
Os colonizados jornais on-line brasileiros aproveitaram-na literalmente, como sempre o fazem, sem nenhuma checagem ou aprofundamento.
Não dá para sabermos se compactuam com a desinformação por preguiça ou por opção ideológica.
Afora a encheção de linguiça [quero dizer, a contextualização…], o despacho da Ansa só traz duas novidades.
Uma não passa de bravata pueril do Torregiani:
“Vamos ver se Battisti tem coragem de vir diante de mim e dizer: ‘eu sou inocente'”.
A outra é seu mero palpite de que Battisti não teria certeza de uma decisão favorável do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Se Battisti está tão tranquilo [de] que o presidente Lula concederá a ele a imunidade, não entendo por que continua a falar. Isto demonstra que não tem esta grande segurança e que continua a fazer grandes pressões”, disse Alberto.
“E daí? – perguntarão os leitores. Ninguém que fique prisioneiro por tanto tempo deixa de sentir nervosismo às vésperas de sua libertação. Mesmo tendo 99,9% de certeza de que tudo correrá bem, o 0,1% o inquieta. Ainda mais sendo um homem sensível e tendente à depressão, como Battisti.
Então é normal e humanamente compreensível que fale demais, para espantar seus fantasmas. [E também porque não se é italiano impunemente…]
O texto esclarece que Alberto é “filho de uma das vítimas de crimes atribuídos a Cesare Battisti”, o que dará aos incautos a impressão de tratamento respeitoso e civilizado.
Nada disto. Na verdade, a Ansa é obrigada a ser reticente porque esclareceu, em matéria anterior, que Battisti não estava presente no atentado em que o joalheiro Pierluigi Torregiani foi morto e seu filho se tornou hemiplégico:
“…Battisti sempre afirmou sua inocência e sustenta que o disparo que deixou Torregiani numa cadeira de rodas partiu da arma de seu próprio pai.
“‘E o que isso tem a ver?’, replica Torregiani. ‘Battisti não fazia parte do comando [grifo meu], mas é uma questão de responsabilidade. Ele foi condenado por ter participado da tomada de decisão, por ter sido o mandante do crime, e o que importa são as intenções'”.
Falastrão como ele diz ser Battisti, viu-se Alberto obrigado a tentar justificar à Ansa suas afirmações um tanto contraditórias [fica difícil entender-se o motivo de tão extremada sanha vingativa contra quem, afinal, nem matou seu pai nem lhe causou a hemiplegia…]. E o fez de forma canhestra:
“Torregiani revelou que Battisti não participou da ação que culminou no assassinato de seu pai porque havia ido à localidade de Mestre, onde teria matado o açougueiro Lino Sabbadin. ‘Está tudo nos autos do processo’, explicou”.
[A notícia distribuída no Brasil em 30/01/2009 pela Ansa já foi retirada do ar, mas a original italiana, mais resumida, ainda pode ser acessada.]
Houve duas omissões significativas. Torregiani esqueceu de dizer que:
- segundo “os autos do processo”, os dois assassinatos foram planejados na casa do dirigente máximo do grupo Proletários Armados para o Comunismo, Pietro Mutti, em reunião na qual é atribuída a Battisti (que, na verdade, não estava presente) apenas a omissão, ou seja, não teria objetado; e
- muitos anos depois e já como delator premiado, Mutti imputou mentirosamente a Battisti a autoria direta dos dois assassinatos, tendo a acusação engolido suas lorotas interesseiras como se fossem a tábua dos 10 mandamentos.
Aí a defesa levantou um pequeno e singelo detalhe: a distância entre as duas localidades (500 quilômetros) não podia ser transposta no intervalo de tempo transcorrido entre as ações (duas horas).
A derrubada de uma das mentiras de Mutti foi um embaraço? Longe disso. Os procuradores apenas remendaram a peça acusatória, colocando Battisti como assassino de Lino Sabbadin e autor intelectual da morte do joalheiro Pierluigi Torregiani…
Quanto a Mutti, a própria Corte de Milão assim se pronunciaria sobre sua teia de falsidades, em 31/03/1993:
“Este arrependido é afeito a jogos de prestidigitação entre os seus diferentes cúmplices, como quando implica Battisti no assalto de Viale Fulvio Testi para salvar Falcone, ou Battisti e Sebastiano Masala em lugar de Bitti e Marco Masala no assalto à loja de armas ‘Tuttosport’, ou ainda Lavazza ou Bergamin em lugar de Marco Masala em dois assaltos em Verona”.
Finalmente, cabe acrescentar revelação interessante que surgiu em notícia de O Estado de S. Paulo:
“Autor do livro Já Estava na Guerra, Mas Não Sabia, em que contou sua experiência, Torregiani entrou há pouco tempo na política. É responsável pelo Departamento de Justiça do Movimento pela Itália, liderado por Daniela Santanchè…”.
Para quem não sabe, trata-se de um agrupamento reacionário cuja líder é coproprietária de um night-club para ricaços da Sardenha, uma senhora assumidamente neofascista e que rompeu com Berlusconi por considerá-lo demasiado tímido na defesa dos ideais direitistas…
Então, a verdadeira motivação de Alberto Torregiani se evidencia até na cadeira de rodas que ocupa espaço tão destacado na capa do seu livro: é uma vítima profissional querendo aparecer o máximo possível no noticiário, já que engata uma carreira política e literária nas fileiras da extrema-direita italiana.
